Opinião GP: Mesmo vencendo, McLaren teima em crescer com mensagem errada na Hungria
A McLaren foi capaz de derrotar a Red Bull e cravou uma forte dobradinha na Hungria — o desempenho é tão absurdo quanto surpreendente, especialmente diante do domínio imposto pelos taurinos até pouco tempo atrás. Mas há ainda arestas a serem aparadas na garagem inglesa. A confusão criada em Budapeste precisa ser rapidamente controlada ou o time corre o risco de jogar fora o esforço técnico dos últimos meses
ATÉ POUCO TEMPO, parecia irreal imaginar que alguém poderia peitar a Red Bull a ponto de tirá-la da zona de conforto, dentro do complexo regulamento do efeito solo. Afinal, os taurinos encontraram o caminho das pedras muito rapidamente e, liderados por um implacável Max Verstappen, o domínio foi inevitável. Só não contavam com a astúcia de uma inesperada McLaren. A equipe laranja foi capaz não só de reduzir a diferença, mas ultrapassar o forte conjunto austríaco em poucos meses. E o GP da Hungria foi a prova de que o time de Andrea Stella enfim demarcou um território técnico antes impossível, criando a chance de sonhos mais altos. No entanto, há uma questão que persiste em 2024 na Fórmula 1: por que, diante de tudo, a McLaren ainda teima em acreditar que pode ser grande?
É que, desta vez, a esquadra de Woking se colocou em uma posição das mais tolas da história deste esporte. E olha que a F1 é pródiga em cenas estapafúrdias e bizarrices para todos os gostos quando o assunto é ordem de equipe. Pois bem, a McLaren caminhava para uma dobradinha forte, segura. O carro apresentou enorme performance e respondeu a todo tipo de desafio: da chuva marota no sábado ao calorão do domingo. E com exceção da largada, ninguém foi capaz de entrar em disputa com Oscar Piastri e Lando Norris. Nem mesmo Verstappen. Mas de modo inexplicável, os papaias decidiram arrumar um problemão para si. Que se tornou um vexame histórico.
Piastri dominou praticamente toda a corrida desde o momento em que assumiu o primeiro posto ainda na largada, porém um pequeno erro nas voltas que antecederam o segundo pit-stop o fez perder a vantagem de cerca de 5s que constantemente mantinha para Norris. Na volta 43, quando a distância entre ambos variava em 1s5, mas com Oscar firme na ponta, Tom Stallard, engenheiro de Piastri, e Will Joseph, responsável pela comunicação de Norris, começaram as conversas via rádio.
Na volta 45, Norris recebeu o chamado de box e entrou. Piastri, ainda líder, foi informado por Stallard que a parada do companheiro de equipe havia sido “para cobrir (Lewis) Hamilton”. “Vamos administrar a situação. Dê o seu melhor ritmo agora, o melhor. Não se preocupe com Lando”, acrescentou. Mas o time só parou o australiano duas voltas depois, que retornou atrás do colega, na segunda posição. A partir daí começou uma constrangedora novela.
A McLaren havia promovido a inversão com a justificativa de que estava preocupada com um eventual ataque de Hamilton — detalhe, na primeira parte da corrida, o time também chamou seus pilotos aos boxes, reagindo ao pit-stop inicial do heptacampeão. Só teve um problema: o inglês da Mercedes estava apenas em quarto, tentando alcançar Verstappen, o terceiro, que sequer tomou conhecimento da tática da equipe alemã. O time laranja, aparentemente, achou que deveria marcar Lewis e não Max (?). E mesmo neste ponto, a esquadra tentou um primeiro undercut entre Piastri e Norris ao parar antes o carro do inglês, o que já chamou a atenção, pois o australiano, liderando a corrida com vantagem de 4s, deveria ser a prioridade. Mas ok!
Mais tarde, novamente a equipe usou a mesma explicação. Só que agora deu certo. Norris estava à frente. E começou a abrir distância para o colega de garagem — a diferença chegou a 6s —, entendendo, compreensivelmente, que a estratégia havia sido conduzida para beneficiá-lo, talvez por estar também melhor no Mundial de Pilotos. Mas não era nem uma coisa e nem outra. Porque a McLaren simplesmente se arrependeu e decidiu inverter novamente as posições. Nesta hora, Lando se enfezou com razão. “Bom, vocês deveriam tê-lo parado primeiro, não é?”, questionou o dono do carro #4 em determinando momento de uma acalorada conversa com o engenheiro Joseph, que tentava convencê-lo de que deveria ceder o primeiro lugar.
Foram várias voltas com diálogos absolutamente constrangedores, que envolveram desde informações desencontradas até sugestões de que Norris iria precisar da equipe se quisesse disputar um título na F1. Ao final, o piloto britânico decidiu abrir caminho para o companheiro, que cruzou a linha de chegada pela primeira vez como vencedor no Mundial, sem antes agradecer à “coordenação” do time. A McLaren ainda falou em princípios para respaldar as ações do domingo.
É claro que há muitas razões para os ingleses celebrarem a dobradinha em Budapeste. Cortaram uma boa vantagem da Red Bull no Mundial de Construtores e assumiram a vice-liderança. Agora, a desvantagem é de 51 pontos, enquanto Lando segue 76 atrás de Max. Mas é preciso insistir: por que então a corrida terminou com um gosto amargo para os papaias? Algo que se tornou recorrente, aliás. Já faz algum tempo que a McLaren conclui provas com a incômoda sensação de que deixou passar boas chances. Desta vez, porém, foi diferente, e isso pode custar muito caro no futuro.
Porque ter nas garagens o melhor carro do grid também traz algumas responsabilidades. E uma das mais importantes é saber lidar com os seus dois pilotos. É saber colocá-los em posição de disputa e entregar toda a condição para isso, pensando em estratégias assertivas e diálogo. É ser honesto sobre prioridades e igualdade de condições. Tudo na mesma medida. Só que nada disso parece ter sido levado em conta pela equipe britânica na equivocada mensagem passada aos pilotos no Hungaroring. Criou um clima desnecessariamente esquisito que vai precisar resolver com rapidez e clareza.
E se antes existia certa dúvida sobre a capacidade do time em disputar campeonatos, agora periga se tornar uma certeza. A McLaren se enrolou sozinha na Hungria e, se continuar a fechar os olhos para os constantes erros, também corre o risco de jogar fora todos os esforços técnicos feitos nos últimos meses.
A Fórmula 1 volta de 26 a 28 de julho, em Spa-Francorchamps, para a disputa do GP da Bélgica.
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