Primeira aula de Kvyat e Sainz sobre como guiar monopostos aconteceu pelas mãos de ‘professor’ Nasr

Numa virada já longínqua da temporada 2009 para 2010, a Eurointernational precisava de dois pilotos para substituir campeão e vice da F-BMW Europeia daquele ano - Felipe Nasr e Daniel Jucadella, respectivamente. Eram Daniil Kvyat e Carlos Sainz Jr. Para ajudá-los, a equipe chamou Nasr

Ao olhar para o grid da F1 em 2015 e ver Felipe Nasr guiando o carro azul da Sauber, Daniil Kvyat substituindo um tetracampeão mundial na Red Bull e Carlos Sainz Jr. mostrando o que pode fazer na Toro Rosso – todos dentro de seus primeiros dois anos no Mundial -, é impensável imaginar que entre os três, já houve uma relação de mentor e pupilos. OK, foi uma relação que durou apenas um breve tempo. Mas ela aconteceu.
 
A equipe Eurointernational, apoiada pela Red Bull, havia dominado a F-BMW Europeia em 2009 por completo. Nasr nadou de braçada e foi campeão, enquanto Daniel Juncadella venceu Robin Frijns na luta pelo vice na temporada. Com os dois seguindo a carreira em 2010 – e a equipe querendo manter o apoio da Red Bull -, a procura foi feita por dois pilotos que todas as partes pudessem concordar para substituir a dupla. Foi então que Sainz Jr. e Kvyat entraram na narrativa. A história foi contada por Antonio Ferrari, dono da Eurointernational.
 
Ferrari contou ao site norte-americano 'Motorsport.com' que ouviu o irmão Alessandro, diretor de competições de kart, e avisou a Helmut Marko, responsável pelo programa de desenvolvimento de pilotos da marca austríaca, que testaria os dois jovens. Como era o atual campeão e os testados nunca haviam guiado monopostos, Nasr recebeu o pedido de ajudar os garotos em sua primeira aventura nos carros da categoria.
 
"Eu disse ao Dr. Marko que gostaria de trabalhar com dois pilotos. De Vries (maior rival dos dois no kart) não foi considerado, pensei que ele tinha uma vantagem no kart, porque era bem pequeno e andava de kart todos os dias. E eu tinha um sentimento especial quando a esses dois caras. O mesmo que eu tinha quando escolhi Nasr", contou o dirigente.
Felipe Nasr e Daniil Kvyat  (Foto: AP)
E então, a história chega ao Autódromo Riccardo Paletti, em Varano, na Itália. Onde a equipe testa seus novos pilotos. 
 
"É ótimo, porque nos dá referências de pilotos que levamos lá. (Alexander) Rossi, Daniel Juncadella, (Stefano) Coletti. Todos meus pilotos", avaliou Ferrari.
 
"Depois de outra temporada de sucesso no kart – acho que foi o Campeonato Europeu – recebi a ligação de Antonio. Ele me disse que eles fariam um teste em Varano, que me queriam lá e que o Dr. Marko estaria sabendo disso. Então, fui a Varano, assim como Carlos", recuperou Kvyat.
 
Lá, os novatos encontraram o 'professor' Felipe os esperando para ensinar algumas coisas sobre o carro.
 
"Sim, eu lembro desse dia. Ferrari me disse: 'Tem dois jovens muito talentosos do kart, vamos testá-los em Varano.' E ele me perguntou se eu podia ir e dar a eles algumas dicas, porque seria a primeira vez que eles guiariam um monoposto. Sem surpresas, eram Daniil Kvyat e Carlos Sainz. E agora estamos juntos na F1, o que me faz sentir velho!", brincou o brasileiro.
 
"Era eu os ensinando um pouco da minha experiência naquele tempo, mas estava claro que os dois eram muito talentosos. Estou feliz que eles conseguiram ", afirmou.
 
O atual piloto da Toro Rosso também se lembrou do primeiro dia guiando monopostos.
 
"Eu lembro, quando dei a primeira volta, estávamos muito longe do ritmo de Felipe. Ainda lembro o tempo dele. Ele era muito rápido. Chegando, éramos 2s mais lentos. 'Meu Deus, eu sou tão ruim', pensei. Felipe provavelmente tinha dado umas 200 voltas lá e conhecia a BMW muito bem. Mas Dany e eu estávamos forçando de verdade. Aos poucos, fomos chegando lá", contou Sainz Jr.
 
Nasr lembra de algo mais daquele dia: Kvyat com certeza não parecia um piloto de carros de corrida.
 
"Eu só lembro que eles eram muito magros. Tipo… Eu não conseguia vê-los guiando em monopostos, especialmente Daniil. Ele parecia ter 12 anos! Colocaram um negócio no assento, porque senão ele não via nada. E, claro, guiar um kart é tão diferente de um monoposto, você se cansa muito rápido. Mas lembro que eles se adaptaram muito bem e vimos o desenvolvimento", seguiu.
 
O russo naturalmente não recorda de não conseguir enxergar o traçado sem ajuda externa no cockpit.
 
"Eu não lembro de nada disso! Eu era bem magro, mas era um assento normal. Acho que Felipe estava sonhando!", brincou. "Mas, sim, ele ajudou muito. Monopostos são muito diferentes do kart, então ele explicava as coisas básicas. Como mexer no câmbio, frear, quais zebras de Varano podem ser atacadas, quais não. Ele ajudou muito. Então, se precisar de qualquer conselho agora, pode sempre vir até mim", falou rindo.
 
"Eu estava muito cansado aquele dia. Fisicamente, foi muito difícil, eu tinha calos nas mãos por causa do câmbio e do volante. Meu corpo doía, mas eu me senti bem, muito bem, porque no fim do dia me disseram que eu fiz um bom trabalho", avaliou.
Hoje os três dividem espaço com campeões mundiais (Foto: Getty Images)
Fora as curiosidades, Ferrari lembra fatos concretos, como algumas marcas que os dois traçaram. 
 
"A primeira vez que levamos um piloto a Varano ele quase nunca anda abaixo de 1min13s. O recorde, então, era de Robert Wickens, agora no DTM com a Mercedes. Ele fez 1min07s47. Uma vez fomos com Sainz apenas para bater o recorde e tentar baixar de 1min07s. Ele andou e andou, fez 20 voltas dentro daquele centésimo, botamos seis ou sete jogos de pneus, só para passar perto. 1min07s26 foi o máximo que conseguimos fazer", relatou.
 
"A primeira vez, no entanto, nossa meta era 1min12s5, um tempo muito bom. Se você vem aqui pela primeira vez, é isso que precisa fazer ao fim do dia. Quando Sainz e Kvyat tiveram seu primeiro dia, os dois ficaram em 1min09s. Talvez Carlos tenha sido um pouco mais rápido, mas ele andou mais. Então, reportei ao Dr. Marko. Disse que eles dois eram especiais", falou.
 
Dito e feito. Após os testes e as informações, Marko estava convencido de que os dois jovens, então com 15 para 16 anos de idade, eram talentos que mereciam o crivo Red Bull de qualidade.
 
"Antonio me disse que ele me ligaria e foi o que aconteceu. Ele me ligou e disse 'Meu amigo, creio que você é a pessoa certa para nós. Gostaríamos de assinar um contrato'. Ele me deu um contrato e disse para eu assinar se estivesse OK. Para ser honesto, eu não tive muito o que pensar", encerrou o russo.
 
De fato, aquele treino que acertaria a participação da Eurointernational na temporada 2010 da F-BMW Europeia foi de grande valia para a Red Bull e para F1 em geral.

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