Guia F-E 2015/16: Lucas Di Grassi – “Vai aumentar a discrepância entre as equipes”

Lucas Di Grassi espera um campeonato bem mais desafiador na segunda temporada da F-E, com as montadoras desenvolvendo as próprias unidades-motrizes. Ele também gostaria de ver um retorno maior do público brasileiro, uma vez que considerou fraca a atenção da mídia e do torcedor-médio no primeiro ano

Continuar batalhando pelas primeiras posições é a expectativa de Lucas Di Grassi para a segunda temporada da F-E. Isso, para começo de conversa, é claro. O brasileiro, terceiro colocado na temporada inaugural da categoria, pensa em título. Só é preciso ser cauteloso com essa perspectiva devido à radical mudança tecnológica à qual as equipes foram colocadas à prova.

Com os times produzindo suas próprias unidades-motrizes, Di Grassi sabe que é para se esperar uma pequena reviravolta, e acredita que a dinâmica do campeonato tende a ficar um pouco mais parecida com a da F1.

"Eu espero que não. Eu espero que exista competitividade. Mas eu acredito que com o desenvolvimento maior da parte técnica, vai existir uma discrepância maior entre as equipes", avalia o piloto, primeiro vencedor da história da F-E.

Lucas Di Grassi lutou pelo título da temporada inaugural da F-E até a última etapa (Foto: F-E)

De todo modo, ele é favorável ao passo dado pela F-E para a segunda temporada. Um passo não só importante, como também necessário. E gosta da receita da Audi, com um motor e um câmbio de três marchas, a respeito do qual ele só pôde dar uma explicação breve. Os detalhes são um segredo que a montadora das quatro argolas ainda não quer revelar.

Di Grassi também gostaria de ver uma resposta maior da F-E no público e na imprensa do Brasil. Ele se disse desapontado com o retorno da da temporada 2014/2015. "O público brasileiro é muito restrito à F1, muito influenciado pela mídia e vice-versa, a só olhar a F1. Então eu acho que a resposta da F-E no Brasil foi uma das piores que eu particularmente tive em relação a qualquer outro país — do ponto de vista da quantidade de procura e de divulgação da mídia em relação à F-E. Especialmente porque foram dois pilotos brasileiros disputando título", comenta.

Com a temporada da F-E prestes a começar neste sábado, dia 24 de outubro, com o eP da China, confira a entrevista de Di Grassi ao GRANDE PRÊMIO no nosso Guia para o campeonato:

Lucas Di Grassi lutou pelo título da temporada inaugural da F-E até a última etapa (Foto: F-E)

A primeira temporada foi boa para você, embora o final não tenha sido o final que você gostaria. O que esperar da segunda?

Eu acho que vai ser uma temporada muito mais difícil e importante que a primeira. Todo mundo evoluiu muito, equipes e pilotos. O nível do campeonato está muito forte. Para a gente, de novo o objetivo é disputar o título. Dessa vez, tomara que seja sem desclassificações e problemas desnecessários. Que a gente tenha feito um bom trabalho no desenvolvimento da parte motriz nova e que a gente consiga estar em uma posição boa, como no primeiro ano, para disputar o título. 

Você até que foi bem em um dos dias de testes, ficou em segundo. Mas a tendência deve ser uma mudança na divisão de forças em relação ao primeiro ano. Como você acha que a Audi está e que outras equipes te surpreenderam ou deixaram a desejar?

Cada uma escolheu uma estratégia diferente. Algumas equipes, com dois motores e sem câmbio. Outras com um motor e cinco marchas. A nossa equipe, com um motor e três marchas. Cada uma foi por um caminho, e a gente acha que escolheu o caminho certo. Algumas equipes vão estar na briga, como a Renault e a Citroën, e a gente espera estar no nível deles. Com certeza vão estar fortes.

Você disse que o motor da Audi tem três marchas. Como que é guiar um carro de corrida com três marchas?

Não só são três marchas, como o jeito de trocar as marchas é completamente diferente do que você imaginaria. É bem diferente o jeito que o motor elétrico trabalha, bem diferente quando que você precisa estar no máximo de eficiência possível. Ter três marchas não muda muito, é mais interessante ainda quando você não tem marchas, fica parecendo mesmo um kart, um kart com proporções de carro de corrida. Mas se acostuma muito rápido, e não tem influência na dirigibilidade. É o contrário: quanto menos marchas, só facilita e só melhora. E a tendência no futuro é o motor elétrico não ter marchas.

Tem como descrever essa mudança de marchas ou esse é um ‘segredo de estado’ dentro da Audi?

Eu não posso descrever, mas, basicamente, é tentar manter o motor em potência máxima o tempo todo. Às vezes é com uma marcha, às vezes é com outra. É como se você imaginar que um carro de rua gera a mesma potência de 1000 rpm até 10000 rpm, então você pode fazer uma curva a 1000 ou a 7000 tendo a mesma resposta. É bem diferente a forma como o motor elétrico responde e como você pode ganhar dirigibilidade.

Você acredita que vai ter muita gente com problemas de desempenho e confiabilidade com os novos motores?

Eu acho que vai ter muita gente com problema de confiabilidade, é um dos grandes fatores de dúvida do campeonato: como as equipes vão conseguir manter a confiabilidade com os motores e softwares novos. A gente só vai saber a partir deste fim de semana.

Lucas Di Grassi celebra vitória do eP da China, primeira corrida da história da F-E (Foto: Reuters)

E como essa pequena revolução pode impactar na dinâmica do campeonato em si? No primeiro ano, muitas equipes e muitos pilotos andando pau a pau e ganhando corridas. Agora, é possível que se torne um campeonato mais semelhante com a F1, por exemplo? 

É difícil te responder essa pergunta antes de começar o campeonato. Eu espero que não. Eu espero que exista competitividade. Mas eu acredito que com o desenvolvimento maior da parte técnica, vai existir uma discrepância maior entre as equipes. Eu espero que, por ser circuito de rua e pelo piloto fazer mais diferença que o carro, exista ainda a possibilidade de várias brigas e várias disputas na pista.

As equipes que estão mais ligadas a montadoras tendem a se sair melhor?

Elas têm um apoio maior, um budget maior, mas não necessariamente vão ser melhores. Possivelmente vão ser melhores.

Considera que é um passo perigoso, ousado, arriscado da F-E transformar as equipes em construtoras já nessa temporada?

Não. É um passo necessário. O desenvolvimento da tecnologia da parte elétrica é importante, o desenvolvimento dentro da temporada também é importante. Mesmo que tenha que se tomar cuidado com o custo, para não acontecer o que acontece dentro da F1, o desenvolvimento tecnológico precisa ser feito para atrair as montadoras.

O que muda agora com a maioria das pistas já sendo conhecidas?

Não muda muito. Você conhece um pouco mais as pistas, mas, no final, não muda muito.

 Com relação à receptividade que a categoria teve junto ao público brasileiro, o que você pôde sentir, qual a sua avaliação do que foi o primeiro ano e o quanto você acha que pode crescer no segundo ano?

O público brasileiro é muito restrito à F1, muito influenciado pela mídia e vice-versa, a só olhar a F1. Então eu acho que a resposta da F-E no Brasil foi uma das piores que eu particularmente tive em relação a qualquer outro país — do ponto de vista da quantidade de procura e de divulgação da mídia em relação à F-E. Especialmente porque foram dois pilotos brasileiros disputando título, um foi campeão, o outro venceu a primeira corrida da história e, no final das contas, se fala pouco na mídia ‘mainstream’. Vocês, do GRANDE PRÊMIO, falam bastante, a Fox fez um belo trabalho nas transmissões. Mas, de maneira geral, a mídia em si não pegou a F-E do jeito que a Alemanha pegou, a França, os Estados Unidos, a Europa, e mesmo a Ásia. Talvez o motivo seja que a gente ainda não teve corrida aí, mas, de uma forma geral, acredito que seja mais pela cultura do brasileiro só pensar na F1 e não de pensar em outras categorias. Mas eu acho que isso vai mudar. Essa geração que acompanhou a grande era do Brasil na F1 não deve estar muito feliz com a situação da F1 no momento e talvez abra a cabeça para outras categorias.

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