Fórmula E ama Londres, então que mude. Futuro não comporta mais papelão de sábado
A Fórmula E considera Londres como o 'show do futuro', mas cenas como o engarrafamento da corrida 1 mostram uma realidade diferente. Enquanto as pistas mais velozes encantaram em 2023, os circuitos travados de Roma e Londres fecharam o campeonato com cenas preocupantes e uma verdadeira bizarrice. É hora de pensar em mudanças
Prestes a encerrar a temporada 2022/23 neste domingo (30), a Fórmula E viveu um ano completamente diferente do previsto para o início da Era Gen3. Em um campeonato que começou com muitos problemas, reclamações de confiabilidade e desconfiança sobre o novo monoposto, a surpresa com as excelentes corridas e o nível de emoção da nona edição da categoria sanaram qualquer tipo de dúvida e entregaram uma competição de altíssimo nível. As duas últimas paradas do calendário, porém, chamam para uma reflexão.
Conhecida pela filosofia de emissão zero de carbono, focada na sustentabilidade e na eletrificação, a Fórmula E sempre teve os circuitos de rua como sua ‘cara’. Pistas cheias de ondulações, curvas de 90º, traçados apertados e com muitos cenários apropriados para a regeneração de energia deram à categoria a representatividade que possui hoje, quase sempre espalhadas por algumas das capitais mais importantes do mundo.
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Ainda que os ‘narizes torcidos’ para a característica principal da categoria sejam comuns, sua filosofia é essa: correr em circuitos de rua, abordar assuntos importantes para o futuro, como sustentabilidade e mobilidade elétrica, e apresentar disputas que não se preocupem apenas com a aceleração, mas com a gestão da energia que cada um tem à disposição. Em resumo, um pensamento que não tolera desperdícios.
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Entretanto, uma sequência lamentável de fatos não pode ser negada. Em uma temporada espetacular, provavelmente a melhor — em termos de emoção e nível — da história da categoria, pistas que fugiram do convencional se deram melhor.
Cidade do Cabo, Hyderabad, São Paulo e Berlim, que não são exatamente circuitos de rua travados como os do passado, trouxeram algumas das disputas mais incríveis do ano. A pista de Mônaco, motivo de descontentamento quase que geral na Fórmula 1, também apresentou uma prova emocionante utilizando um traçado já conhecido não apenas pelos pilotos, mas também pelo público. Portland, circuito permanente e com características distintas, dispensa comentários.
Assim, a Fórmula E chegou às duas últimas corridas da temporada, e a expectativa era saber como os novíssimos Gen3 se portariam em pistas com a marca da categoria, Roma e Londres — e o resultado pode ser considerado, no mínimo, perigoso.
Na capital italiana, um acidente assustador protagonizado por Sam Bird fez com que vários pilotos corressem risco real de saúde, principalmente nos casos de Edoardo Mortara e António Félix da Costa — além do próprio inglês, é claro. Em um traçado que não permitia escapadas, um carro atravessado na pista foi suficiente para destruir tudo que a corrida havia trazido até ali e causar seis abandonos instantâneos. Bizarro.
Pois, na derradeira etapa do campeonato, a Fórmula E desembarcou na pista que imagina ser o futuro do esporte a motor elétrico: Londres, mais especificamente na ExCeL Arena. Mais uma vez, um circuito mais travado, conservador, com a cara da Fórmula E original. O grande problema, entretanto, é que os Gen3 não faziam parte da Fórmula E original.
Os novos carros, mais rápidos, tecnológicos, leves e sensíveis, são muito diferentes dos musculosos Gen2, que reinaram até o fim do ano passado. O Gen3 não permite toques, não admite que os pilotos brinquem com o limite de suas divididas e, invariavelmente, apresenta danos profundos quando exposto a algum tipo de batida.
É natural, assim, que os pilotos evitem o contato uns com os outros, mas a Fórmula E não possui esse DNA. É uma característica nova, coisa de 2023, que não era necessária até o ano passado. Os toques seguem constantes, os carros quebram a cada enrosco e ficou muito claro que é necessário ter mais espaço para evitar circunstâncias perigosas.
As zonas de escape são abundantes em circuitos como Berlim e Jacarta, aparecem em bom número nas pistas de Diriyah e Roma, mas simplesmente ficaram de fora do traçado londrino. É claro que elas existem, mas a quantidade claramente não encaixa com a quantidade de carros na pista. Como resultado, as corridas da ExCeL Arena estão sempre a um passo do caos. Neste sábado, esse passo foi dado.
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O acidente causado por Sébastien Buemi e Norman Nato nem foi tão bizarro assim inicialmente, já que tratava-se de uma disputa normal de posição — em que ninguém quis ceder. O grande problema, porém, foi o que aconteceu em seguida: sem nenhuma opção de escapatória, algo que aconteceria na grande maioria das saídas de curva do circuito, absolutamente todos os carros do grid ficaram parados atrás dos acidentados.
Até os três primeiros naquele momento — Mitch Evans, António Félix da Costa e Jake Dennis — precisaram encostar atrás do pelotão, já que completaram suas voltas e chegaram novamente à curva 19. Desta vez, entretanto, com um baita engarrafamento.
A Fórmula E vai à frente a passos largos, evolui em todos os aspectos e apresentou uma temporada para ficar na história em 2023 — e o acidente em Londres não muda isso. Por outro lado, um alerta foi deixado neste fim de temporada: depois de tantas corridas espetaculares em pistas mais velozes e largas, será que os acidentes consecutivos nos traçados apertados de Roma e Londres foram uma coincidência?
A ‘fera’ chamada Gen3 ainda não foi totalmente domada. Seus segredos ainda existem, e há a certeza de que o potencial total do carro ainda não foi desbloqueado. Mesmo com uma limitação forte de energia, a maior da história da categoria, o circuito inglês proporcionou o caos. A discussão precisa acontecer antes que algo de mais grave ocorra com os envolvidos na disputa.
Talvez seja a hora de olhar com mais carinho ainda para traçados como Anhembi e Cidade do Cabo e menos para pistas como Roma e Londres. É claro que capitais icônicas como essas precisam permanecer no calendário — principalmente a inglesa, sede da Fórmula E —, mas os circuitos precisam ser reavaliados. O Gen3 realmente permite corridas seguras nesses locais?
Está claro que o problema não é correr em pistas de rua, mas, sim, a forma com a qual esses circuitos são configurados. O novo carro, absurdamente potente em relação ao anterior, precisa de mais espaço para desenvolver seu potencial.
Neste momento, cenas como as vistas em Roma e Londres não trazem nada de positivo para a história de uma categoria que promete proteger o futuro. Com tantos acertos em 2023, as últimas passagens da temporada deixam a clara mensagem de que ser excelente não significa ser perfeita — e algumas rotas precisam ser recalculadas.
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