Com Tempelhof como lar, FE volta para fechar página do campeonato da pandemia

Antes e depois dos próximos nove dias, a Fórmula E ficará cinco meses parada. Os próximos dias representam uma ilha de ação. O GRANDE PRÊMIO traz uma história do palco da final, o Aeroporto de Tempelhof, e lembranças sobre o que foi a temporada até aqui

Muito se usa a expressão ‘bolha’ nesse momento de esportes durante a pandemia – que, é sempre fundamental lembrar, segue ativa. O que é a bolha? O isolamento de toda a estrutura da uma competição para manter os envolvidos em segurança durante a realização de seu trabalho. Mas há outras várias formas de aplicar a ideia de ‘bolha’. A mera realização dessa rodada sêxtupla, em Berlim, encaixa a Fórmula E numa bolha de tempo e espaço. O corre-corre do Tempelhof nos próximos nove dias mascara os dez meses – cinco antes e cinco depois – em que a categoria não correrá. A final é um vórtex.

O retorno, nesta quarta-feira, dia 5, e que se estende até o dia 13, quinta-feira da semana que vem, encerra um campeonato que teria de ser terminado de alguma forma. Está claro que, pelas condições do mundo atropelado pelo coronavírus em relação a uma FE que correr em centros urbanos, a categoria encerraria a disputa caso o dinheiro não fosse empecilho e as fábricas não precisassem colocar os carros na pista.

Por isso o Aeroporto de Tempelhof, numa Alemanha que lida bem com o terror sanitário e numa pista que não fica no coração de uma grande cidade. A Fórmula E sabe que vai sobreviver à pandemia e está segura de si pelas movimentações que fez visando as próximas temporadas, sobretudo para conter gastos. Medidas que ela própria desejava, preocupada com o crescimento dos orçamentos, mas de mãos atadas pelas vontades das grandes fábricas. No fim, até elas tiveram de concordar em puxar o freio de mão e gastar bem menos. Mas isso é conversa para outra hora.

É claro que maratonas como a de Berlim, com seis provas no mesmo lugar, embora divididas em três rodadas duplas em traçados diferentes – um original, um inverso e um modificado e mais travado -, não é o ideal. Mas é o possível, e é difícil achar ruim. Na verdade, é difícil achar qualquer coisa. Achar demais no meio da pandemia do século é um erro cometido só pelos mais ordinários.

Mas e na pista, o que será? A expectativa é que nada seja drasticamente diferente, até porque muitas partes do equipamento foram lacradas pela FIA, então os carros não passaram por revoluções, mas a Fórmula E tem seus segredos. As equipes tiveram tempo de estudar e entender pequenas coisas e, como é de costume, diferentes pistas se associam de maneira muito mais grosseira com diferentes carros e equipes. Os softwares de eficiência, por exemplo, foram otimizados à exaustão nesse período. Então, apesar do que se sabia antes, há um mistério natural nessa retomada do campeonato interrompido.

O que podemos fazer, então, é tentar entender como vivia o campeonato antes da parada. Após cinco etapas – rodada dupla em Ad Diriyah e provas comuns em Santiago, Cidade do México e Marrakech -, três equipes começavam a escapar.

Quem abriu a disputa com ritmo superior, sobretudo para voltas lançadas, foi a BMW. A fábrica alemã cravou as três primeiras poles, venceu duas destas provas e teve uma dobradinha negada numa delas por uma punição um tanto quanto duvidosa para o segundo colocado. Começou com tudo.

Mas após um princípio mais lento na Arábia Saudita, a DS Techeetah começou a surgir. Mal nas classificações, passava a dar a sensação de que tinha o melhor ritmo de corrida entre todas. Além, claro, da melhor dupla de pilotos do grid: Jean-Éric Vergne e António Félix da Costa. A primeira pole veio somente no Marrocos, junto da primeira vitória. Da Costa já se destacava: além de vencer a última prova antes da parada, foi segundo colocado nas duas anteriores. Só não venceu em Santiago porque um superaquecimento entrou em ação quando assumiu a dianteira.

A briga pelo Campeonato de Equipes está restrito às duas, mas a disputa de Pilotos conta com mais um nome: o de Mitch Evans, numa Jaguar talhada para ele. A equipe inglesa não briga com BMW e DS Techeetah porque conta apenas com um piloto – o companheiro e novato James Calado tem somente dez tentos e já está fora do time para a temporada que vem. Evans, não. Tem simbiose espetacular com o bólido felino e vive muito na briga.

Evans está sozinho, não terá grandes ajudas nessa disputa, enquanto Vergne, atual bicampeão, está distante dos primeiros colocados – mas ainda na briga. O que se sabe, porém, é que vai pintar sempre nas primeiras colocações. O fato de estar separado é meramente circunstancial. Qual a grande vantagem da DS Techeetah? A dupla de pilotos tende a dar vantagem contra a BMW caso os dois carros apareçam no mesmo nível. Nada contra Maximilian Günther e Alexander Sims, que certamente rendem bem, mas Da Costa e Vergne são ótimos e velhas raposas da categoria em que estão desde a temporada inaugural.

Da Costa lidera o campeonato, tem 67 pontos. Evans está nove atrás dele, enquanto Sims e Günther pararam, respectivamente, com 19 e 21 pontos de desvantagem. Vergne não é o quinto colocado, mas o oitavo, 36 pontos atrás. Há tempo, seis corridas, mas está atrás de alguns outros pilotos.

O que dizer destes? Lucas Di Grassi é quem melhor entende o bólido elétrico e, por isso, carregou uma Audi abaixo da crítica além do imaginável até agora. São 28 pontos atrás do português e, certamente, não está descartado, mas precisa que a Audi protagonize uma aparição revolucionária em Berlim. O mesmo pode ser dito para Stoffel Vandoorne e a Mercedes. O belga tem a mesma pontuação de Di Grassi, mas a expectativa para ele é menor pelo fato da Mercedes ser uma equipe novata na Fórmula E. Edoardo Mortara tem um ponto a mais que Vergne e é difícil imaginar um teto que vá além disso para a Venturi.

Se formos ligeiramente além, ainda encontramos um Sam Bird que faz as últimas participações pela Virgin e está de saída para a Jaguar, e a dupla Oliver Rowland e Sébastien Buemi numa Nissan que é das decepções do campeonato após ser vice-campeã em 2018/19 e mudar o esqueleto do trem de força.

O que esperar? Deixemos as especulações vazias para trás. Tem Fórmula E amanhã e mais cinco vezes nos dias seguintes. As respostas virão rapidamente.

Acompanhe tudo no GRANDE PRÊMIO.

GOSTA DO CONTEÚDO DO GRANDE PRÊMIO?

Você que acompanha nosso trabalho sabe que temos uma equipe grande que produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente. Mesmo durante os tempos de pandemia, nossa preocupação era levar a você atrações novas. Foi assim que criamos uma série de programas em vídeo, ao vivo e inéditos, para se juntar a notícias em primeira-mão, reportagens especiais, seções exclusivas, análises e comentários de especialistas.

Nosso jornalismo sempre foi independente. E precisamos do seu apoio para seguirmos em frente e oferecer o que temos de melhor: nossa credibilidade e qualidade. Seja qual o valor, tenha certeza: é muito importante. Nós retribuímos com benefícios e experiências exclusivas.

Assim, faça parte do GP: você pode apoiar sendo assinante ou tornar-se membro da GPTV, nosso canal no YouTube

Saiba como ajudar