Conta-giro: Mais que homenagem, ‘Gonchi’ é belo documentário biográfico e recupera em detalhes história do ‘Senna uruguaio’

A meteórica carreira de Gonzalo Rodríguez é destacada com extrema destreza em 'Gonchi'. Para quem não pôde, por idade ou situação, acompanhar os anos de Gonchi no automobilismo internacional, o filme é um frescor numa bela história um tanto quanto enterrada 16 anos após sua morte


"Cojones. Tenía muchos cojones."
 
A carreira de Gonzalo Rodríguez poderia ser sintetizada assim. É com ela, aliás, que o grande rival dos tempos da F3000, Juan Pablo Montoya, descreve o piloto uruguaio nos minutos finais do documentário 'Gonchi', lançado pelo Netflix ainda durante esta semana.
 
E se hoje, 16 anos após sua morte, o leitor der uma busca na Wikipédia para saber quem foi Gonchi, não vai encontrar grandes resultados nas maiores categorias do esporte. Ele não fez história na Indy, não chegou à F1, não andou na Nascar ou em protótipos. 
 
Fez sua carreira nos monopostos e morreu tragicamente em sua segunda corrida na então Cart, pela Penske, em Laguna Seca no final da temporada de 1999. Sem conhecer a história de Gonchi, talvez a ideia inicial seja que se trate de uma história de final triste para um piloto mediano. Não se engane. Não é uma história triste e Gonzalo não foi mediano.
 
É a história de um piloto pioneiro e de uma personalidade irradiante numa narrativa brilhante captada pelas lentes dos diretores Luis Ara e Federico Lemos ('O Último Carnaval'). É justo dizer que Gonchi foi no mundo do automobilismo o que foi para ultrapassar Montoya em Spa-Francorchamps na manobra mais famosa da curta carreira: meteórico.
 
Entre dar os primeiros passos que de fato chamaram a atenção na Europa, na temporada 1995 da F3 Britânica, e sua morte passaram-se apenas pouco mais de quatro anos. Mas foram o suficiente para a construção de um mito uruguaio e uma das grandes histórias de 'e se?' do esporte no último meio século. 
 
O documentário é não apenas o contar de uma história belíssima, também usa artifícios ricos. Os trechos explicados pelo próprio Gonzalo em entrevistas antigas dos grandes momentos de sua carreira, intercalados aos depoimentos detalhistas de familiares, amigos e colegas fazem uma construção que envolve espectador o jogando para dentro da história. É, neste aspecto, bem semelhante ao 'Montage of Heck', outro filme lançado há pouco tempo e que mapeia vida e obra de uma das personalidades mais excêntricas do entretenimento, Kurt Cobain.
Gonchi comemorou na frente da realeza de Mônaco (Foto: Ovación Digital)
"Ele era um personagem maior que a vida."
 
As semelhanças entre Gonzalo e Cobain param exatamente nesta frase dita por Christian Horner, que foi companheiro do uruguaio nos tempos de Alan Docking Racing, na F3 Britânica, muitos anos antes de se tornar chefe da Red Bull na F1. Enquanto o cabeça do Nirvana era autodestrutivo e sentia raiva de tudo e todos, Rodríguez se notabilizou por ser uma pessoa de humor em dia e sorrisos marcantes. 
 
Talvez a grande passagem do filme que mostre isso tenha sido a brincadeira dos comissários, liderada por Charlie Whiting, ao fim da temporada 1998. Na reunião dos pilotos antes da prova em Nürburgring, Rodríguez recebeu um prêmio inusitado: um boné que o homenageava por ser o piloto com maior número de punições por drive-through no ano. Quem estava presente, conta que ele fez piadas e a sala caiu na risada.
 
Gonchi venceu a prova, sua segunda no ano. E brincou sobre o boné na coletiva.
Gonchi em Silverstone (Foto: Gonchi la Película)
Senna uruguaio
 
Verdade seja dita: o Uruguai não é uma praça tradicional do automobilismo. Apenas três uruguaios fizeram aparições na F1 em toda história, todos nos anos 1950, e apenas em, de fato, aparições. Nenhum chegou a ser piloto titular de uma equipe regular. Por isso e pelo carisma que tende a aparecer uma vez por geração, ao vencer, impressionar e sorrir, Gonchi arrecadou uma legião de fãs quando ganhou a Europa. 
 
Chegar ao que era, então, o grande chamariz da F1, a F3000, e fazer seu nome foi marcante. Com dificuldades para conseguir patrocínios grossos, correu em equipes pequenas nas duas categorias. Além do time de Alan Docking na F3, foi à belga Astromega após um ano de Redman & Bright na 3000. Nos dois anos derradeiros por lá, a diferença que fazia era marcante. 
 
Fez 60 pontos, enquanto seus companheiros conseguiram somar quatro. Nestes dois anos, 1998 e 1999, terminou no terceiro lugar do campeonato. Os campeões foram, respectivamente, Montoya e Nick Heidfeld, guiando pela tradicional Super Nova e pela West, então operada pela McLaren. Uma disputa desequilibrada.
 
Mas antes dos resultados, as formas de sobreviver longe da família na Inglaterra. Ao sair do Uruguai, primeiro em 1994, foi guiar na F-Ford na Espanha. Lá, conheceu o que acabou por ser segundo pai, Jok Clark, mecânico que o deu abrigo. Na casa da família Clark, ele morou por quase cinco anos enquanto fazia sua escalada no esporte.

Sobre os patrocínios, teve uma ideia: levar em seu capacete a marca de Mark Sutton, um dos mais respeitados fotógrafos do mundo do automobilismo. Sutton havia sido, como conta no filme, fotógrafo de Senna e também se impressionou com Gonchi nos tempos de F3000. O acordo entre os dois é, como diz a irmã de Gonzalo, Nani Rodríguez, mais importante hoje do que Sutton jamais pensou. Suas imagens são o que de mais vivaz há da memória de Gonchi.

Nani e Gonchi, os irmãos Rodríguez (Foto: Reprodução/Twitter)
"Nunca pensei que fosse estar na 3000 e que fosse ganhar em Mônaco, ganhar em Spa, ganhar em Nürburgring, lugares que eu sonhava quando criança."
 
Foram três vitórias de Gonzalo na F3000. A primeira, em Spa-Francorchamps, com uma ultrapassagem lendária em Montoya na Les Combes. Se na época o colombiano culpou o câmbio pela perda de velocidade, 17 anos depois Juan Pablo admite que nada anormal aconteceu em seu carro. A segunda, na chuva em Nürburgring, encerrando a temporada de 1998, vencida pelo rival colombiano. A terceira e última foi já em 1999, por uma distância imensa em Mônaco. 
 
Até nisso, a história de Gonchi foi caprichosa. Três vitórias em três das pistas mais exigentes do automobilismo mundial. Como destaca Nani em dado momento do filme, as curvas cegas de Spa, a velocidade de Nürburgring e a pressão e as ruas travadas de Mônaco são diferentes o bastante para mostrar um piloto completo.
O acidente fatal em Laguna Seca (Foto: Reprodução)
Estados Unidos e morte
 
A ligação de negócios entre Mikke Van Hool, dono da Astromega e amigo de Rodríguez, e Roger Penske promoveram, então, um encontro e uma chance do uruguaio ir aos Estados Unidos e testar a Penske. Na sequência, foi convidado para fazer uma corrida em Detroit. 1999 era um péssimo ano para a Penske, e certamente andar na frente de Al Unser Jr. na primeira participação na categoria chamou os olhos de Roger. Ele o fez com ajuda de Montoya, o maior rival. Praticamente campeão e piloto da Ganassi, o colombiano queria, segundo disse, rivais a altura. Por isso contou o mapa da mina de Belle Isle para um ressabiado Rodríguez. Era tudo verdade.
 
Infelizmente para Gonchi, era tarde demais – a equipe já tinha sua dupla de pilotos firmada para 2000. Mas o uruguaio conseguiu um acordo com Pat Patrick para ser titular na Cart no ano seguinte. Para ele, mais valia ter carros competitivos nos Estados Unidos que andar no fim do grid da F1. Ganhou mais uma chance, também, em Laguna Seca pela Penske.
 
Chegando lá, Gonzalo teve problemas desde o começo. Na sexta-feira, no treino livre, teve um problema com freios, que travaram. Um cavalo de pau e muita sorte evitaram a batida. Mas no sábado, a sorte não seria repetida. 
 
A 225km/h, a Penske #3 não parou de acelerar mesmo enquanto o piloto freava. Gonchi passou direto na curva Corkscrew (ou Saca-Rolhas), o carro acertou a barreira de concreto e levantou voo, capotando e parando de cabeça para baixo do outro lado do muro. A cabeça de Gonchi acertou o muro, causando fratura na base do crânio e lesões no pescoço. Ele morreu imediatamente. Dois anos antes do dia que dividiria a humanidade em antes e depois, o 11 de setembro de 1999 parou o coração do Uruguai.

Os depoimentos dos pilotos foram gravados em 2014, mais de um ano atrás. A triste ironia do destino é que Justin Wilson, companheiro de Rodríguez na F3000 em 1999, é um dos entrevistados. Cruelmente, o filme acabou saindo após alguns poucos dias da morte do próprio Wilson em um acidente na Indy.
 
É bem verdade, nos 16 anos entre as mortes de Gonchi e Greg Moore – que também foi ferido mortalmente na Cart em 1999 – e a de Wilson, as coisas avançaram. Após 1999, por exemplo, a categoria tornou obrigatório o uso do HANS. A fatalidade com Justin mostra uma vez mais o quanto a segurança nunca está em seu ápice – ainda há sempre o que fazer.
Gonzalo Rodríguez (Foto: Gonchi la Película)
Um mito
 
Penske levou o corpo de Rodríguez para Montevidéu num voo particular. Chegando lá, o cortejo fúnebre foi acompanhado por milhares de pessoas que se despediam de talvez o grande ídolo do esporte uruguaio nos tempos modernos que não jogava futebol. O choro nas ruas, a comoção em imagens desoladoras dão o tom de quanto significava para muita gente em casa.
 
Talvez Gonchi não fosse moldado para a F1 dos anos 2000, dizem. Piloto de pouco interesse em detalhes e informações técnicas, gostava mesmo do pé pesado. Independentemente de ter tido ou não condições para tanto, seu nome ficou marcado. A revista inglesa 'Autosport' o colocou no 29º lugar numa lista recente dos 50 melhores pilotos da história a nunca terem corrido na F1.
 
Após sua morte, a irmã, Nani, criou e passou a administrar a Fundação Gonzalo Rodríguez, que organiza uma série de trabalhos sociais no Uruguai, tendo sido inclusive homenageado pelo Laureus.

Com pouco do Uruguai no automobilismo – Santiago Urrutía, jovem de 19 anos, recém-campeão da Pro Mazda e que aparece falando com tremenda propriedade no documentário -, é bom, especialmente para os mais novos, que não presenciaram de perto a carreira meteórica de Gonchi, que o 'Loco', como seus amigos se referem a ele, tenha a memória resguardada e iluminada com nova luz. 
 
No final das contas, entre carisma e pé pesado, as dificuldades, a escalada e todas as boas frases, o que mais se prende à cabeça é a fala de Jok Clark nos minutos derradeiros do documentário.
 
"Se você o desse a oportunidade, ele faria as mesmas escolhas de novo. Mesmo sabendo o resultado."
 
Cojones.

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