Em só três provas, Indy 2020 deixa panorama claro: só desastre tira hexa de Dixon

Três corridas foram suficientes para apontar Scott Dixon muito mais do que um mero favorito ao título. 100% e com os principais rivais já dando sinais de desespero, o neozelandês tem tudo para faturar o hexa em 2020

Apenas um desastre tira o título da Indy 2020 de Scott Dixon. Sim, caro leitor, realmente parece cedo para fazer tal afirmação, mas, após apenas três provas, a temporada já parece completamente desenhada a favor do neozelandês. E o que se viu neste sábado (11), na corrida 1 de Elkhart Lake, só reforça uma impressão que já vinha das duas primeiras etapas: Dixon e a Ganassi estão sobrando, em um domínio que vai bem além da performance.

Comecemos falando do líder e grande favorito ao hexacampeonato, pois. Bom, três corridas e três vitórias é algo grande, muito grande. O primeiro paralelo no automobilismo em tempos recentes que naturalmente se faz é com a Fórmula 1 2016, quando Nico Rosberg arrancou com quatro triunfos seguidos e, ali, já pavimentou o caminho para derrotar Lewis Hamilton. Só que o feito do alemão foi em uma temporada de 21 provas, ou seja, com margem muito maior que a Indy 2020, que conta com um calendário de 14 etapas, reduzido pela pandemia de coronavírus.

E a própria Indy tem exemplos interessantes em sua história de como a situação de Dixon já é até confortável. Em 1964, AJ Foyt começou o ano com sete vitórias e, é claro, foi campeão com sobras na então USAC. Na Champ Car, da época de ruptura da Indy, Paul Tracy (3, em 2003) e Sébastien Bourdais (4, em 2006) também arrancaram invictos e, assim como Foyt, ficaram com o título com interessante margem. A única exceção da estatística na história da categoria americana é Al Unser que, em 1971, iniciou vencendo as três primeiras corridas e, de forma inacreditável, acumulou sete abandonos nas nove provas seguintes para acabar em um estranhíssimo quarto lugar.

Scott Dixon segue imparável em 2020 (Foto: AFP)

Só que a gente sabe que Dixon nunca abandonaria sete corridas em um campeonato. É mais fácil, inclusive, que o neozelandês não abandone nenhuma em 2020, já que estamos falando do rei da regularidade no grid atual e talvez na história da Indy. Unser, no fim das contas, é uma exceção que confirma a regra e, consequentemente, o enorme favoritismo da lenda neozelandesa.

Analisando mais cuidadosamente a campanha até aqui, dá para dizer que 2020 tem sido um belíssimo exemplar de “o Dixon sempre dá um jeito de chegar lá”. No Texas, ritmo avassalador e corrida controlada, do jeito que o piloto gosta. No GP de Indianápolis, bote na estratégia e um golpe de sorte, com uma amarela que tirou os líderes da estratégia certa. Quando foi para a frente, não saiu mais de lá, também do jeito que Scott gosta. Em Elkhart Lake? Bem, acerto na hora de ir aos boxes, um pit-stop final magnífico da Ganassi e uma sequência de erros dos adversários nos boxes. No fim, foram três vitórias conquistadas de formas diferentes, mas com ritmos muito consistentes, estratégias acertadas e um enorme senso de oportunismo de quem não deixa vitórias escaparem.

“Eu nem sabia o que tinha acontecido com Josef [Newgarden]. Sabia que ele liderava a corrida. Ele parecia ter um bom ritmo. Usamos todas as seis marchas nestas pistas, então é fácil se colocar em situações assim. Estive em uma situação parecida no início, ainda na hora de formar o grid. Você não sabe exatamente o que está acontecendo ali. Fiquei chocado quando o time falou que éramos eu e Will [Power] brigando pela liderança. Achei que estavam contando errado no relógio, como pulei cinco carros em um pit-stop? O undercut foi grande. A economia de combustível foi difícil. Eu não sabia o que aconteceu com Josef, mas mostra o quão fácil é cometer um erro”, disse Dixon. E nós concordamos, não é facil entender como tudo isso aconteceu e vem acontecendo em 2020 e ao longo da carreira, agora com 49 vitórias dos mais diferentes tipos.

Josef Newgarden se complicou quando liderava (Foto: IndyCar)

Tratemos, pois, dos rivais de Dixon, aqueles que a maioria apostava que seriam os principais adversários no início do ano. Estamos falando de Josef Newgarden, Alexander Rossi, Simon Pagenaud e até Will Power. A primeira análise precisa ser geral e bastante direta: os quatro estão, em maior ou menor nível, pressionados e até desesperados com a fase que o neozelandês se encontra e com as vitórias que já encaixou.

Falando agora individualmente, olhemos para Newgarden. Atual campeão, o americano era tido como o principal candidato ao título no início do ano, algo totalmente natural pelo enorme talento que possui e por estar na Penske, a equipe mais forte do grid. Só que a realidade tem sido bem mais dura. No Texas, apesar da pole, faltou ritmo e o terceiro lugar foi o limite. No GP de Indianápolis, um azar danado com uma amarela o tirou da briga pela vitória. Resultado: sétimo lugar.

Pressionado, o americano respondia muito bem em Elkhart Lake, com pole e uma liderança folgada, mas aí que o carro morreu nos boxes e Newgarden foi ladeira abaixo: voltou na parte final do pelotão, fritou pneus na relargada, fez pit-stop extra, colocou pneus errados e perdeu totalmente o ritmo. O que seria uma vitória contra um Dixon potencialmente fora do pódio virou triunfo do rival e 14º lugar. Complicou e muito.

“Essa foi dura. Tínhamos um carro forte e o time fez um grande trabalho. Começamos na pole, e no início estávamos apenas mantendo a posição, cheguei a ter uma liderança de oito segundos. Infelizmente, tive um problema nos pits e deixei o carro morrer. Demorou para religar e perdi toda a vantagem que construímos, depois disso foi brigar lá de trás. Voltamos ao top-10, mas fritei os pneus na curva 1 em uma das relargadas. Nosso dia estava ótimo e ficou ruim muito rápido, mas são corridas, não tiramos vantagens das oportunidades. Sou grato por termos uma nova chance amanhã, já que amo este lugar. Vamos olhar algumas coisas de noite para ter um plano firme na classificação amanhã. Estou confiante que o time vai colocar outro carro rápido”, falou Josef.

Alexander Rossi está sumido em 2020 (Foto: IndyCar)

Pressão, aliás, talvez seja já o sobrenome do meio de um totalmente irreconhecível Rossi. “2020 vai ser o ano do Rossi”, você muito bem pode ter pensado antes da temporada. E fazia todo sentido, afinal, o americano estava no auge técnico, estava mais regular e em uma Andretti que parecia capaz de superar a Penske. Pois todo o oposto vem acontecendo: um problema atrás do outro, incontáveis erros, ritmo bem aquém do esperado e uma Andretti que ainda não se achou em 2020. Resultado? Nenhum top-10 em três provas e Rossi já é o último colocado na classificação entre os pilotos que disputaram as três corridas.

Em Elkhart Lake, o puro suco do desespero. Uma luta danada para domar o carro desde a classificação foi seguida por acidentes na corrida e uma escapada emblemática logo no início, quando Alexander atropelou uma placa e a carregou presa na asa dianteira até os boxes. A prova, de forma competitiva, já acabava ali para ele.

“Tivemos um bom começo, mas fui pego de surpresa na curva 13 com pneus frios, deixei a pista e acertei uma placa que ficou presa na asa dianteira. Tive que entrar nos boxes e aquilo matou nosso dia. Acho que nosso ritmo era bom. Naquelas últimas relargadas, senti que estávamos no meio, mais fortes que alguns e fraco que outros atrás. Toquei com Chilton na curva 6, o que rendeu um pneu furado e encerrou nosso dia. Acho que poderíamos ter fechado em 14º, mas ficamos em 19º. Nada deu certo depois da primeira volta, vamos ter de entender amanhã. Precisamos entender algumas interrogações que temos. Acho que o bom de ter duas classificações e duas corridas é que você pode olhar tudo de noite e começar do zero amanhã. No passado, precisaria de um ano para voltar, então aceitamos qualquer luz. Se pudermos responder nossas perguntas, acho que temos chances de estar no top-5 amanhã. Quero dar meus parabéns à Honda pelos resultados. 8 carros no top-10, tenho orgulho deles”, analisou Alex.

Simon Pagenaud: outro já pressionado em 2020 (Foto: IndyCar)

Pagenaud parecia, até o GP de Elkhart Lake, quem melhor estava controlando a ansiedade e o maior candidato a acompanhar Dixon. Agora, por mais que siga vice-líder, já toma imensos 62 pontos do rival e vem de um 12º lugar marcado por uma falta de ritmo clara na classificação e um desespero na corrida, se envolvendo em toques desnecessários, como o com Pato O’Ward, que o tirou do top-10.

“Foi um dia decepcionante. O carro teve problemas na classificação, mas conseguimos boas posições durante a corrida pela velocidade na pista e tirando vantagem de outros. Estaríamos no top-10 e limitaríamos a perda de pontos, mas fui empurrado para fora da pista no fim. Isso nos custou lugares e pontos, o que é frustrante com Scott vencendo de novo. Mas está tudo certo. Aprendemos muito hoje, ainda estamos em segundo, o que é ótimo. Tem muita temporada pela frente e tenho uma nova chance amanhã. Tenho total confiança que deixaremos o carro pronto para a disputa”, comentou Simon.

2º em Road America, Will Power ainda não mostrou muito em 2020 (Foto: IndyCar)

Por fim, Power, que foi o grande rival de Dixon na corrida 1 em Road America, mas quem mais oscila, historicamente, do quinteto. O segundo lugar foi importante para o campeonato e para a retomada de confiança, mas o australiano quase bateu perseguindo Scott, estava louco pelo primeiro lugar. E muito disso se deve ao GP de Indianápolis, em que jogou fora a vitória deixando o carro morrer nos boxes, uma prévia para o que aconteceu com Newgarden em Wisconsin.

“Infelizmente, tivemos de parar durante uma amarela e perdemos a liderança. Foi um pit-stop lento, e estávamos com as marchas erradas, o que prejudicou as relargadas. Apesar disso, foi um bom dia. Avançamos e chegamos em segundo. Não sei o que vamos fazer, mas vamos sentar como um time e entender o que podemos melhorar. É frustrante perder vitórias assim. Acho que tínhamos um bom carro e não penso que Dixon nos passaria se saíssemos à frente dele. Não é o fim, mas poderíamos ter vencido. Tentaremos novamente amanhã”, explicou Power.

Como vinho, Dixon só vai ficando melhor com o tempo e, prestes a completar 40 anos, o neozelandês parece estar no auge. Auge que, aliás, já deve durar cinco, dez ou até quinze anos. Uma carreira quase toda em um nível muito acima da média e cinco, quase seis títulos no bolso, agora contra rivais que já cedo se mostram nas cordas, atordoados.

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