Indy tem chance de ouro para crescer com brecha criada por mudanças na F1

Indy tem uma história rica e vive uma temporada muito mais animada do que a expectativa, com subsídios interessantes para se mostrar além dos EUA

A gestão da Penske Entertainment nunca alimentou grandes expectativas sobre uma Indy globalizada. Desde que Roger Penske adquiriu a categoria, o foco sempre foi claro: fortalecer o mercado interno dos Estados Unidos. Ainda assim, surge em 2026 uma oportunidade rara de ampliar a presença internacional com a crescente insatisfação de fãs e pilotos com os rumos da Fórmula 1.

A FIA e a própria F1 erram a mão no regulamento. A transição para um modelo com 50% de dependência da energia elétrica foi além do ponto de equilíbrio, e o resultado tem sido, em muitos momentos, um espetáculo que contraria a essência do automobilismo. Não são raras as cenas em que pilotos precisam aliviar completamente o acelerador em plena reta para recarregar baterias — algo que extrapola o tradicional lift and coast e rompe com a lógica de desempenho máximo em trechos de aceleração plena.

As críticas ecoam nas redes sociais e ganham ainda mais força na voz dos próprios protagonistas, puxados por Max Verstappen, que tem aventado a chance de deixar a categoria, além de se aventurar em corridas de GT3. O ruído se intensifica em um mês de abril esvaziado de corridas, consequência da suspensão dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita em meio à escalada de conflitos no Oriente Médio.

Em contrapartida, a Indy iniciou 2026 de maneira muito mais vibrante do que se projetava. Após o domínio de Álex Palou na última temporada, imaginava-se um campeonato novamente controlado pelo espanhol. Mas o cenário é outro: há maior equilíbrio e um consistente Kyle Kirkwood desponta na liderança, sinalizando uma disputa pelo título que tende a se estender até o fim.

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Pato O’Ward e Christian Lundgaard (Foto: Indycar)

As quatro primeiras etapas entregaram um bom panorama. GP de St. Pete e de Phoenix foram especialmente dinâmicos, enquanto Arlington e Alabama, embora menos espetaculares, mantiveram bom nível de entretenimento. Três vencedores diferentes, de equipes distintas, reforçam a competitividade.

Os números sustentam essa percepção: são 638 ultrapassagens na temporada até aqui. O oval de Phoenix infla a estatística, com 323 manobras por posição, mas as demais corridas também apresentam índices relevantes — 150 em Arlington, 97 em St. Pete e 68 no Alabama.

Quando se fala em projetar a Indy para o mundo, não se trata de rivalizar diretamente com a F1 — seria uma estratégia pouco realista diante do poder financeiro da Liberty Media. A questão central é outra: comunicação e marketing.

A Indy tem história, identidade e um produto autêntico — das quase 400 km/h nas 500 Milhas de Indianápolis ao equilíbrio técnico que favorece disputas reais na pista. Falta transformar isso em linguagem acessível ao público global. Pequenos ajustes fariam grande diferença: adotar métricas universais nas transmissões, ampliar a presença digital em diferentes idiomas (até a F1 tem feito isso) e explorar melhor o caráter internacional do próprio grid.

Caio Collet (Foto: Indycar)

A categoria reúne pilotos de diversas nacionalidades — Brasil, Espanha, México, Nova Zelândia, Dinamarca, Suécia, Austrália, Países Baixos, Noruega, Ilhas Cayman, França, Inglaterra e Alemanha, além da presença pontual de Takuma Sato nas 500 Milhas de Indianápolis — e esse mosaico cultural é um ativo poderoso, ainda subutilizado.

Uma estratégia de comunicação mais global não apenas ampliaria o alcance da Indy, como também abriria portas para patrocinadores internacionais, fortalecendo o ecossistema econômico da categoria — inclusive dentro dos Estados Unidos, onde disputa atenção com outras ligas relevantes.

São medidas relativamente simples, mas de alto impacto. E, quem sabe, possam servir de base para passos mais ousados no futuro. A recente visita da comitiva liderada por Mark Miles a Goiânia é um indicativo de que a discussão sobre internacionalização ainda existe — mesmo que, por ora, em estágio embrionário. A Indy não precisa se reinventar para conquistar o mundo. Precisa, antes, aprender a contar melhor a própria história.

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