Diário de Goiânia #4: o buraco, muito orgulho e alguns aprendizados
O dia que tinha tudo para ser o mais tranquilo e menos movimentado do fim de semana acabou por se tornar o mais caótico. O buraco na pista trouxe lições, especialmente sobre nosso orgulho
A intenção do Diário de Goiânia, desde que apresentei a ideia para minha editora-chefe Evelyn Guimarães, era de ter uma análise dos dias diferente do que os leitores do GRANDE PRÊMIO costumam consumir: algo que diz respeito não apenas sobre performance, corridas, ultrapassagens e quedas em si, mas a oportunidade de dar um pouco do tom do que é a nossa cobertura, o contato com vários personagens que jamais vi, além de um tom particular das minhas experiências.
No sábado, temi não ter muito o que escrever. Seria um dia onde começaria a coordenar as coisas desde o início na sala de imprensa enquanto meus colegas estariam mais soltos pelo paddock para entrevistas e outros conteúdos possíveis de um dia que já prometia bastante desde o começo.
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Aí, por volta de 12h30, fui surpreendido. O início da classificação da Moto3 foi atrasado por problemas na pista. Imaginei que seria algo a respeito da água, já que alguns trechos do circuito ainda apresentavam umidade mesmo com uma noite e manhã sem chuva. Vários pilotos da Moto3, por exemplo, caíram no treino livre, o que chegou a gerar uma bandeira vermelha para a inspeção do asfalto.
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Veio a surpresa. Tratava-se de um buraco que surgiu na reta principal do circuito, antes do grid de largada. Eventualmente, alargaram para entender e buscar uma solução para a situação. É bem provável que a intensidade da água das chuvas do último dia tenha feito o solo ceder de alguma maneira.
É o tipo de coisa que não pode acontecer, assim como Las Vegas e Baku não poderiam ter bueiros soltos na pista na Fórmula 1, assim como Silverstone 2018 foi um vexame. Pilotos como Marc Márquez e Pedro Acosta manifestaram insatisfação com a situação. Joan Mir agradeceu o fato do buraco estar em um ponto fora da linha de corrida. E ele mesmo cravou que o fim de semana seria cancelado se fosse o caso.
O retorno da MotoGP ao Brasil sempre foi positivo. A modalidade tem uma enxurrada de fãs que se gastaram caro e se dispuseram a estar aqui, mas os fatos são os fatos: o período de 15 meses entre a assinatura do contrato e o fim de semana de corrida foi curto demais para realizar as obras necessárias. Quem está no autódromo desde quarta-feira (eu) sabe da situação. A pista pode ser atraente, com traçado muito interessante e que ganhou elogios dos pilotos, mas o restante da estrutura não é.
Desde que os portões foram abertos ao público, na última sexta-feira, tapumes foram colocados para impedir que as pessoas vejam o andar das obras. Empilhadeiras, tratores e retroescavadeiras trabalham a todo momento em um autódromo que está claramente inacabado.
Goiânia é a melhor praça para a MotoGP acontecer no Brasil dado o histórico na modalidade, a cultura da motovelocidade e o tipo de circuito que basicamente todos os pilotos elogiaram. É a primeira vez que o evento acontece. E sim, tem tudo para melhorar. Mas não podemos esconder os fatos: houve uma grave falha estrutural e que afetou bastante o dia.

Não me surpreende, mas me encanta ver a postura nada crítica de alguns colegas em relação aos acontecimentos da última semana. Sim, houve enchente no autódromo, houve adiamentos por conta de lama na pista, houve o vexame do buraco. Quem simplesmente relatou e criticou isso foi tratado como “secador”, “torce contra”, “hater” e etc.
Por que eu secaria um evento cujo me desloquei para longe de casa para ver acontecer? Por que torceria contra o evento e ficaria feliz com os acontecimentos, se isso implica que vou passar mais tempo trabalhando, produzindo matérias sem poder comer de forma adequada e descansar mente e corpo da maneira correta?
Sempre surge quem me julga como mala, arrogante, fechado e outros adjetivos, assim como tratam alguns dos meus amigos que aqui trabalham também. Até penso em mudar, mas a realidade é que cansa. É muito chato tomar porrada virtual de gente que nunca pisou em uma sala de jornalismo e quer tecer o que é notícia e o que não é. Ou pior: pisou, mas rasga o diploma em prol de peleguismo ou gracejo político.
Desde que comecei a trabalhar no GRANDE PRÊMIO, nunca tive uma cobertura in loco onde basicamente não tive a supervisão da excelente Evelyn Guimarães ou do meu fiel amigo Gabriel Curty. A responsabilidade de manter o padrão GP esteve nas minhas mãos pela primeira vez. Estou absolutamente exausto, fisicamente e mentalmente, mas muito orgulhoso do que eu, Pedro Luis Cuenca, Kaio Esteves e Pedro Prado fizemos nos últimos dias, tratando o certo pelo certo e as coisas como devem ser. Porque sei que cada esforço vale muito a pena.
E sei também que, para cada indireta virtual de quem não me olha na cara para falar o que falta coragem, vai surgir sempre alguém como o rapaz que me parou na fanzone de Goiânia na última sexta-feira para parabenizar o GRANDE PRÊMIO por todo o trabalho feito.
Entre o que pode se destacar de felicidade neste dia caótico, dá para falar de Jorge Martín, que apareceu sorridente e feliz como nunca depois do pódio conquistado na corrida sprint. Parece pouco, mas é um enorme alívio para quem viveu o completo inferno desde o título conquistado em 2024, com múltiplas lesões e uma ameaça de saída da Aprilia. Até Marco Bezzecchi, que perdeu o terceiro lugar em uma bobeira, ficou feliz pelo Martinator.
Resta só mais um dia em Goiânia e é o mais importante deles. E acredite se quiser: garanto que ninguém mais que eu neste autódromo está torcendo para que as coisas fluam sem maiores problemas.
Além da cobertura do Mundial de Motovelocidade ao longo de toda a temporada, o GRANDE PRÊMIO está IN LOCO em Goiânia para uma cobertura especial da etapa brasileira, com Gabriel Carvalho, Kaio Esteves, Pedro Luis Cuenca e Pedro Prado.
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