Fraturas, cirurgias e diplopia: a epopeia de Marc Márquez para retomar coroa da MotoGP

Entre a conquista de 2019 e o título alcançado neste domingo (28), Marc Márquez viveu um legítimo calvário, marcado por lesões, cirurgias e longos afastamentos

Marc Márquez precisou escalar uma montanha para recolocar o nome na Torre dos Campeões da MotoGP. Nos 2184 dias que separam a conquista do título de 2019 e a nona taça mundial alcançada neste domingo (28), o hoje piloto da Ducati enfrentou uma fratura no braço direito, quatro cirurgias, dois episódios de diplopia e outras lesões.

Ainda que a Honda tenha perdido progressivamente performance, o intervalo entre os títulos é muito mais explicado pela condição física do #93, que perdeu quase três anos da carreira na esteira de um tombo na abertura do campeonato de 2020, em Jerez de la Frontera.

O irmão de Álex sempre foi um piloto de muitas quedas. Em 2019, por exemplo, o espanhol de Cervera levou 14 tombos. No ano anterior, foram 23. Em 2017, 27. Mas, apesar dos muitos acidentes, Marc nunca tinha sofrido uma lesão óssea de maior importância. Até aquele 19 de julho de 2020.

Depois de uma salvada espetacular na curva 4 de Jerez de la Frontera, o espanhol caiu para 16º e fazia uma alucinante prova de recuperação na abertura de uma temporada adiada pela pandemia de Covid-19. Mas, com quatro voltas para o fim, rodando em terceiro, caiu forte na curva 3 e acabou atingido no braço pela roda da RC213V.

Com a Ducati, Marc Márquez recuperou a forma dominante de outrora (Foto: Michelin)

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No impacto, o mais velho dos irmãos Márquez sofreu uma fratura diafisária transversal no úmero direito. Ou seja, quebrou o osso mais longo do membro superior na meio. Dois dias depois, o #93 foi operado em Barcelona pelo Dr. Xavier Mir.

No entanto, por conta das mudanças impostas à programação por conta da pandemia, o mesmo circuito andaluz receberia um segundo GP no fim de semana, o que levou Marc a decidir voltar para a pista menos de sete dias após a lesão.

Ainda no hospital, o piloto se pôs a fazer flexões, uma preparação para o teste físico ao qual seria submetido para ser liberado para competir. Como a RC213V já estava acertada, Marc optou por pular os treinos de sexta e entrou na pista apenas no sábado, mas, antes da classificação, ciente de lhe faltava força, abandonou o GP da Andaluzia.

Contudo, o filho de Roser e Julià seguiu se preparando para correr em Brno, no dia 9 de agosto. E aí que os problemas começaram a se acumular. No dia 3, Marc precisou passar por uma nova cirurgia, 13 dias após a primeira, já que a placa de titânio colocada para estabilizar a fratura foi danificada por estresse.

A partir daí, as coisas foram encaradas com mais calma, e Márquez não mais retornou à MotoGP. No início de dezembro, entretanto, o já hexacampeão da MotoGP precisou de uma terceira intervenção cirúrgica, já que o osso não calcificava como deveria.

Marc Márquez faz a festa com a Ducati em Motegi (Foto: Michelin)

Desta vez, Márquez trocou de médico e foi operado em Madri, onde passou por uma cirurgia de 8h na qual o Dr. Samuel Antuña fez um enxerto ósseo, usando um fragmento extraído do quadril. Dias depois, o cenário piorou mais um pouco: exames constataram uma infecção na área fraturada, colocando o piloto em antibióticos por um longo período.

Com a nova cirurgia, o campeão de 2010 das 125cc e de 2012 da Moto2 teve esperança de deixar os problemas para trás. Nove meses após o acidente em Jerez, Marc voltou a subir na RC213V e, 65 dias mais tarde, venceu pela primeira vez: no GP da Alemanha, um dos circuitos anti-horários onde sempre foi dominante.

Só que o período caótico ainda estava longe de acabar. Em 30 de outubro, Marc caiu durante um treino de enduro e acabou sofrendo uma concussão. Dias depois, veio o diagnóstico de diplopia, um sintoma associado ao trauma na cabeça. E um fantasma antigo.

Em outubro de 2011, quando ainda estava na Moto2, o #93 sofreu uma forte queda na Malásia e, depois, com só 18 anos, começou a relatar problemas de visão, especialmente no olho esquerdo, uma situação médica que o fez perder o GP da Comunidade Valenciana.

Inicialmente, a opção foi pelo tratamento conservador. Ou seja, basicamente, sentar e esperar. Mas, em janeiro do ano seguinte, Márquez foi operado para resolver a paralisia do músculo obliquo superior direito, que tinha sido causada por trauma no quarto nervo cranial direito. Apesar do susto, a recuperação foi plena.

Marc Márquez se despediu da Honda no fim de 2023 (Foto: Repsol)

Mas, dez anos mais tarde, o problema estava de volta, causando visão dupla ― quando os dois olhos não conseguem convergir para a mesma coisa. Na prática, o diagnóstico é de estrabismo.

O tratamento conservador foi mais uma vez aplicado e, 75 dias após a queda que originou o problema, Márquez pôde voltar a pilotar. Tudo corria bem até 20 de março, quando Marc teve uma nova concussão na esteira de uma queda forte no warm-up do GP da Indonésia.

Só 141 dias depois do segundo episódio, Márquez voltou a lidar com a diplopia. No caso específico, a posição para pilotar, quando a pessoa fica olhando para cima, era pior para ele. De novo, o #93 ficou em compasso de espera, mas, mais uma vez, escapou de sequelas permanentes ― o estrabismo por permanecer em casos assim.

Superados os problemas de visão, o então piloto da Honda voltou à ativa no início de abril. Só que nem tudo eram flores. Ainda incomodado com o braço lesionado quase dois anos antes, Marc optou por uma quarta cirurgia, realizada em 3 de junho de 2022.

Na nova operação, realizada na Clinica Mayo, em Minnesota, nos Estados Unidos, a equipe liderada pelo Dr. Joaquin Sánchez Sotelo fez uma osteotomia, um corte cirúrgico do osso, que precisou ser rotacionado em 30º antes de novamente fixado com placa de titânio e parafusos.

Agora, os médicos exigiram cautela, o que o deixou afastado das pistas até 31 de agosto, quando voltou a pilotar uma moto em um teste privado. Em 6 de setembro, o reencontro com o protótipo da Honda aconteceu no teste oficial de Misano, com o retorno oficial à MotoGP ocorrendo dez dias mais tarde.

A nova operação permitiu que Márquez recuperasse a forma e, mais do que isso, fizesse uma pré-temporada normal. 2023 foi o primeiro ano em que Marc pôde começar o campeonato em plena forma desde a fratura, mas a plenitude durou pouco: no primeiro dia da campanha, um acidente resultou em uma fratura no primeiro metacarpo da mão direita, que exigiu cirurgia.

A recuperação desta vez foi rápida, mas o esforço do piloto não foi acompanhado pela Honda. A RC213V despencou de nível, e nem Marc, que já estava acostumado a compensar deficiências de um protótipo temperamental, conseguiu fazer mágica.

Marc Márquez sofreu com diversas lesões ao longo de toda a carreira (Foto: AFP)

E não por falta de tentativa. O #93 lutou tanto contra a moto que caiu 29 vezes no ano ― o maior número de tombos desde a estreia na MotoGP. A situação foi tão extrema que ele chegou a abandonar o GP da Alemanha depois de sofrer cinco quedas no mesmo fim de semana.

Marc insistiu, cobrou e pressionou a Honda por melhora, mas, com a RC213V estagnada, entendeu que o melhor caminho era romper o contrato um ano antes do previsto.

Foi assim que um dos maiores vencedores de todos os tempos na MotoGP foi parar na Gresini. De olho em uma moto da Ducati, onde poderia descobrir sem sombras de dúvidas ― dada a força do protótipo italiano ― se ainda era capaz de ser competitivo, Marc se juntou ao irmão na equipe de Nadia Padovani e, pouco a pouco, voltou a ser aquele de antes.

Montado na GP23, a moto do ano anterior, Marc somou três vitórias, dez pódios e duas poles, fechando o ano na terceira colocação do Mundial de Pilotos. A performance foi suficiente para dar a ele a vaga na equipe de fábrica, mesmo a custa de Jorge Martín, que tinha sido campeão.

Ao longo deste ano, o mais velho dos Márquez não apenas espantou a zica, mas voltou ao auge, fazendo uma das melhores ― talvez a melhor ― temporadas da carreira para igualar Valentino Rossi com sete títulos na MotoGP ― nove no Mundial de Motovelocidade.

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