GUIA 2023: Honda adota dupla órfã da Suzuki para tentar se soltar de Marc Márquez
Talvez nem mesmo a Honda saiba como se desvincular da total dependência que possui atualmente de sua estrela maior, Marc Márquez. Mas as chegadas de Joan Mir, com status de campeão da classe rainha, e Álex Rins podem ajudar a renovar o ar na equipe japonesa e recolocá-la nos trilhos dos pódios e vitórias em 2023
SE O MUNDO PAROU AO FINAL DE 2019 POR CAUSA DE UMA PANDEMIA, o fatídico ano também representou o fim de uma era para a vitoriosa e, até então, imbatível Honda na MotoGP. E tudo isso — tanto a glória quanto o fracasso — passou pela figura de Marc Márquez.
Falar de Honda e não citar o seis vezes campeão da classe rainha é tarefa impossível, até porque, todos os títulos do espanhol na MotoGP foram conquistados com a marca da asa dourada estampada na moto. Enquanto a Yamaha implodia com Jorge Lorenzo e Valentino Rossi e a Ducati respirava por aparelhos com um aguerrido Andrea Dovizioso, Márquez enfileirou quatro títulos seguidos e colecionou recordes de precocidade.
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Não é por acaso, portanto, que a casa de Hamamatsu tem total confiança no piloto de Cervera. Só que o acidente em Jerez de la Frontera, a primeira corrida de 2020, escancarou uma realidade da qual a equipe agora luta para se desvencilhar: a de que se tornou completamente dependente de sua estrela maior.
Foi a temporada 2020 que trouxe o baque. Com Márquez fora de cena, escalou o piloto de testes Stefan Bradl, além de contar com o então estreante Álex Márquez, o muitas vezes lesionado Cal Crutchlow e Takaaki Nakagami — esses dois últimos na satélite LCR. O resultado foi um ano em que penou para marcar pontos, somando apenas dois pódios e fechando na penúltima posição entre os construtores.
Veio 2021, e o cenário foi um pouco melhor: três vitórias e um segundo lugar, porém todos com Marc Márquez, de volta às ações após meses afastado. Na pista, no entanto, a posição na tabela ainda não era satisfatória: quarto lugar entre os fabricantes, com a equipe principal terminando em quinto, enquanto a LCR ficou no sétimo posto.
2022 veio como uma espécie de ultimato para os japoneses: era preciso, de uma vez por todas, se soltar de Marc Márquez. Mais uma vez, o espanhol teve de operar o braço direito — a quarta cirurgia — e se afastar das atividades da temporada. E foi mais um ano com os demais pilotos lutando para cruzar a linha de chegada ao menos entre os 15 primeiros.
Acontece, no entanto, que Marc nada tem a ver com o a sinuca de bico que a própria equipe se meteu. O hexacampeão, na verdade, se viu tendo de ir ao limite para tentar extrair algum rendimento da RC213V, e quanto mais você força o ritmo, mais próximo ao erro fica. Não é, portanto, confortável para um piloto que ainda busca voltar a melhor forma física pilotar o tempo todo assim.
A pré-temporada mostrou que ainda há muito trabalho a ser feito. “O resumo é este: demos passos, mas não o suficiente”, admitiu o chefe Alberto Puig após os testes coletivos em Portimão, o último antes do início do campeonato. “No sentido que nós temos de melhorar, claramente, já sabemos. Descartamos muitas coisas que pensávamos que sim, mas que resultaram em não. E tem outras que funcionaram.”
“Gostaríamos de ter encontrado melhores soluções. Não quer dizer que achamos que é impossível, nosso objetivo é conseguir e tentar a nossa moto do jeito que nós queremos. Mas não tem sentido dizer hoje que temos, porque não é verdade. Precisamos seguir trabalhando. E é isso que vamos fazer”, acrescentou.
A Honda já prometeu antes mesmo do lançamento do modelo deste ano que a prioridade seria dar novamente ao espanhol um equipamento vencedor. E uma declaração recente do agora ex-piloto, Pol Espargaró, evidenciou ainda mais o quanto a marca precisa cortar o cordão umbilical para reencontrar o caminho da glória: “Com a lesão de Marc Márquez, a Honda decidiu parar a evolução da moto”, acusou o irmão de Aleix.
Mas um passo importante foi dado nessa direção, claro que não para substituir Márquez, porém para não deixá-lo apenas como o único responsável por carregar a equipe nas costas: a chegada de Joan Mir e Álex Rins, a dupla órfã da Suzuki, resgatada para o grid da temporada 2023 após a saída da marca da categoria.
São dois pilotos espanhóis com algumas particularidades. Mir tem o status de campeão do mundo, ainda que num ano esquisito, no qual só conquistou uma única vitória. Rins foi o grande responsável pelos pontos altos no derradeiro ano da Suzuki na classe rainha, e as vitórias em Phillip Island e Valência foram contundentes.

“Temos dois ótimos pilotos para nos liderarem neste ano”, celebrou Tetsuhiro Kuwata, diretor-geral da Honda. “Joan Mir já provou na pista que se adapta rapidamente a novas situações. Espero ver os dois alcançando sucesso que a Honda HRC sabe que os dois são capazes neste ano”, completou.
São dois nomes que vão se juntar não só a Márquez, mas também a Nakagami, que vai para o seu sexto ano na MotoGP. Mas o japonês da LCR foi talvez a maior vítima da queda de performance da RC213V e ainda sustenta o 13º lugar na temporada 2019 como melhor resultado desde que subiu para a categoria principal do motociclismo. Este pode, portanto, ser a última chance.
Todos, porém, são realistas quanto à situação da equipe japonesa, e pelo que se viu na pré-temporada, será mais uma temporada em que a Ducati surgirá como nome a ser batido. Mas não se pode negar que ao menos há uma tentativa de lutar com a dignidade da laureada história. As respostas começarão a ser dadas para valer a partir deste fim de semana, em Portugal.
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