Guia MotoGP 2015: na contramão da F1, MotoGP vive fase positiva e promete disputa entre Honda, Yamaha e Ducati
Ao contrário da caçula rica, a MotoGP começa 2015 com grid cheio e promessa de um Mundial emocionante. Além das tradicionais ponteiras Honda e Yamaha, a Ducati decidiu apimentar a disputa, mas não foi bem a suave pimenta Peperoncino que a fábrica de Bolonha colocou no tempero
SE TEM UMA PALAVRA que não consta na edição 2015 do dicionário do Mundial de Motovelocidade, este vocábulo é crise. Ao contrário da F1, que começou o ano afundada em um problema de popularidade e sob o domínio da Mercedes, a MotoGP abre a temporada com o vento soprando a favor.
Nos últimos anos, FIM (Federação Internacional de Motociclismo) e Dorna, a promotora do certame, travaram suas próprias batalhas para conter o custo do esporte e — ao contrário da caçula rica — podem se sentir vitoriosas.

Marc Márquez vai defender sua coroa pela segunda vez na MotoGP (Foto: Honda)
Não que seja um esporte barato — longe disso —, mas a direção seguida pelo regulamento técnico do campeonato não só permitiu a chegada de novas fábricas, como também abriu caminho para a recuperação de uma antiga ponteira.
Longe do olimpo da MotoGP desde 2007, quando Casey Stoner deu à fábrica de Bolonha seu primeiro e único Mundial de Construtores, a Ducati encontrou um caminho para renascer e, sob o comando de Gigi Dall’Igna, fez a escolha certa ao optar por seguir o regulamento Aberto e, assim, garantir a evolução da Desmosedici.
Autorizada a testar e desenvolver seus motores ao longo de 2014, a marca italiana coletou todas as informações necessárias e apresentou ao mundo uma GP15 menor, mais consistente e, sobretudo, mais rápida.
Embora a ruivinha de Bolonha tenha chegado um pouquinho atrasada para seu baile de debutante — estreando apenas na segunda bateria de testes coletivos da pré-temporada —, a GP15 chamou atenção logo de cara, mas foi apenas no teste do Catar que o novo protótipo vermelho mostrou de fato a que veio.
Sob o comando de Andrea Iannone e Andrea Dovizioso, a Ducati viu sua marca no topo da tabela de tempos em dois dos três dias de testes em Losail — o último dia foi marcado pela chuva — e mostrou à concorrência que, se não achou o caminho de volta ao alto do pódio, está com o GPS em dia.

GP15 impressionou durante os testes da pré-temporada (Foto: Ducati)
Apesar da grande evolução da Ducati, o favorito ao título é o mesmo de sempre — sempre desde 2013, claro —: Marc Márquez. Único a andar perto das motos de Borgo Panigale no Catar, o campeão vigente segue desfilando sua boa forma e sintonia perfeita com a RC213V.
Ponteiro nos exercícios de Sepang, Márquez começa 2015 como homem a ser batido e, obviamente, disposto a ampliar seu domínio na classe rainha do Mundial de Motovelocidade.
Dominante ao longo de 2014, Marc acredita que, aos 22 anos, ainda tem muito para aprender, apesar de já ter duas plaquinhas com seu nome na Torre dos Campeões.
Tal qual um lutador de boxe, o jovem espanhol tratou de reforçar seu treinamento contratando um ‘sparring’. Aos 26 anos, José Luis Martínez, campeão espanhol de MX2 em 2011, se retirou das competições e assumiu o posto de coordenador de treinamento do piloto da Honda para trabalhar ao lado do preparador físico Genís Cuadros. A meta de Márquez é melhorar sua performance no combate corpo a corpo.
Confiante em sua performance física e no desempenho do protótipo #93, Marc não foge do rótulo de favorito, mas, em entrevista ao diário ‘AS’, disse acreditar que 2015 verá um Mundial mais disputado, “mais como a segunda parte da temporada passada, que é o normal”.
Questionado sobre quem serão seus rivais ao título, o bicampeão escolheu a dupla da Yamaha e o companheiro de Honda, mesmo reconhecendo a evolução da Ducati.

Yamaha vai usar um câmbio seamless completo em 2015 (Foto: Yamaha)
“Os três de sempre. Lorenzo, Valentino e Dani. Eles são os três que estarão disputando o título, mas em corridas pontuais também vejo a Ducati na frente”, opinou.
A evolução da Yamaha
Enquanto a Honda aposta suas fichas em Márquez, a Yamaha abre 2015 confiante na performance da YZR-M1. Embora o teste de Losail não tenha sido nenhuma maravilha para a marca dos três diapasões, Jorge Lorenzo e Valentino Rossi apontaram para uma grande melhora na moto em comparação com o protótipo do ano passado, especialmente por conta da chegada da versão completa do câmbio seamless.
A caixa de marchas ultrarrápida é uma tecnologia usada pela Honda desde 2011, mas que a casa de Iwata introduziu — apenas de forma parcial — em setembro de 2013. Desde então, Rossi e Lorenzo utilizaram o chamado câmbio sem costuras apenas quando aumentavam as marchas, mas, na hora de reduzir, tinham de se contentar com a tecnologia anterior.
Para 2015, entretanto, o seamless de Iwata chega em versão completa, assim como o utilizado na Honda — a Ducati ainda não tem o câmbio completo.
Desde que voltou para a Yamaha em 2013, Rossi se dedicou a melhorar sua forma e conseguiu cumprir a meta de brigar na ponta com mais frequência no ano passado. No caminho para o vice-campeonato de 2014, o italiano promoveu uma troca um tanto chocante em sua equipe técnica, substituindo o lendário Jeremy Burgess por Silvano Galbusera, que não tinha experiência na classe rainha do Mundial de Motovelocidade.
Apesar de ter sido uma troca surpreendente, a mudança deu lá seu resultado e a performance da temporada passada fez renascer em Rossi a esperança de um décimo título.
De olho em uma nova conquista naquela que será sua 20ª temporada no certame, Rossi intensificou sua preparação e os relatos dos jornalistas que acompanharam os testes de Sepang e Losail são de que o já magro italiano apareceu ainda mais leve.
Além de estar em forma, o piloto de 36 anos também fez uma avaliação positiva dos testes de inverno e ressaltou que o novo câmbio da M1 é um ganho para a Yamaha.
“A moto melhorou em relação à do ano passado e isso é o mais importante”, resumiu o piloto de Tavullia. “Será uma boa temporada. Têm pilotos que serão rápidos e estarão próximos”, opinou.
“Para ficar na frente, temos de estar 100%. O novo câmbio vai nos ajudar. Ele funciona bem e isso ajuda muito na freada. Não é uma vantagem enorme, mas é uma vantagem”, concluiu o multicampeão.
Assim como Rossi, Lorenzo mira ampliar sua coleção de títulos e, especialmente, riscar do mapa o desempenho ruim do início da temporada passada. Decepcionado com sua própria forma física nas primeiras etapas de 2014, o espanhol intensificou sua rotina de treinos e nunca esteve tão forte quanto agora.

Dani Pedrosa precisa voltar a ser aquele piloto de 2012 (Foto: Honda)
Além da parte física, Lorenzo chegou a considerar a substituição de Ramón Forcada, seu chefe de equipe, mas acabou mudando de ideia e manteve o experiente engenheiro no comando de seu time.
Se sentindo em forma, Lorenzo também se mostrou confiante na performance da YZR-M1, mas reforçou que a moto ainda pode melhorar bastante ao longo do ano.
“No geral, a pré-temporada foi boa para nós”, avaliou. “Nós temos uma boa moto, especialmente em comparação com o ano passado, e nós ganhamos algo com o novo câmbio”, sublinhou.
“A moto tem uma boa base e nós achamos que temos uma grande margem para melhorar enquanto a desenvolvemos”, completou.
Diretor da Yamaha, Massimo Meregali falou com animação sobre a temporada 2015 e afirmou que “em termos de espetáculo, teremos um bom campeonato neste ano”.
Apesar de todas as diferenças que separam os companheiros de equipe — nacionalidade, estilo, personalidade, histórico e etc. —, Rossi e Lorenzo têm a mesma missão em 2015: encontrar um caminho para interromper o domínio de Marc Márquez. Será uma tarefa árdua, mas Tom Cruise já provou em quatro filmes que não existe missão impossível.

QUAL A VANTAGEM
DO CÂMBIO SEAMLESS?
DO CÂMBIO SEAMLESS?
Assim como a Honda fez em 2011, a Yamaha vai colocar na pista neste ano uma versão completa do seamless, um câmbio ultrarrápido que praticamente elimina a interrupção de torque na mudança de marchas em alta velocidade.
Diretor-técnico da HRC, Takeo Yokohama explicou ao site oficial da categoria que a vantagem obtida com o câmbio ultrarrápido está no fato de o comportamento da moto permanecer inalterado na mudança de marchas.
“Como a estrutura interna é ‘seamless’ você não tem que desengatar e engatar, porque cada marcha está sempre engatada, então você não tem de reduzir o torque na mudança de marcha, e, por isso, a aceleração é mais eficiente”, explicou Yokohama. “Como você não reduz o torque nas mudanças de marcha, a moto realmente não muda de comportamento. Muitas vezes você tem de mudar de marcha no ângulo, e, como a moto não muda de comportamento, você pode trocar a marcha no ângulo máximo de inclinação. Essa é a vantagem”, completou.
“A vantagem na redução de marchas é provavelmente menor do que para aumentar em termos de câmbio seamless, mas ainda assim há uma vantagem."
Chefe dos mecânicos de Jorge Lorenzo, Ramón Forcada lembrou que a pouca movimentação da moto também ajuda a poupar os pneus.
“Agora você está em uma marcha e engata diretamente a seguinte, mas sem desengatar a anterior. Isso significa que a moto não se move, não balança, porque até mesmo a potência de aceleração é constante, e isso cria mais estabilidade”, relatou. “Sempre que você aumenta a marcha e dá mais potência, isso cria uma tensão no pneu. Se a força é constante, o pneu tem menos tensão. A tensão talvez seja a mesma, mas é mais constante e isso é melhor para a vida do pneu”, concluiu.
O caso Pedrosa
Dani Pedrosa é — ao menos no momento — um rapaz sem credibilidade. Depois de brilhar na temporada 2012, o espanhol teve sua luz apagada nos últimos dois anos e não passou de um coadjuvante de Márquez e companhia.
Aliás, por conta da performance abaixo da expectativa em 2014, a permanência de Pedrosa na Honda chegou a ser colocada em dúvida, mas a fábrica da asa dourada acabou por estender o vínculo do piloto, embora alguns rumores apontem para uma substancial redução de salário.
Quarto colocado no Mundial do ano passado, Dani reconheceu que não foi sua “melhor temporada”, mas disse ter aprendido valiosas lições ao longo do ano.
Tanto aprendizado teve ao menos um reflexo prático, com a substituição de Mike Leitner por Ramón Aurín. Além do chefe do time de Dani, alguns mecânicos foram trocados e a equipe usou os testes da pré-temporada para se integrar.
Embora novo no comando, Aurín tem uma vasta experiência no Mundial — além de ter trabalhado com pilotos como Sito Pons, Álex Crivillé, Carlos Checa, Jorge Martínez Aspar, Loris Capirossi, Max Biaggi, Troy Bayliss e Andrea Dovizioso, era o responsável pela telemetria de Nicky Hayden quando o norte-americano conquistou seu único título em 2006 — e já cuidava da telemetria de Dani.
Como conhecedor dos talentos e fraquezas de Pedrosa, Aurín declarou recentemente que o piloto precisa melhorar sua agressividade na primeira parte da corrida, o que foi um grande ponto fraco na atuação do #26 no ano passado.
Antes de pensar em superar Márquez, Rossi e Lorenzo, Pedrosa precisa buscar uma forma de suplantar a si mesmo e reencontrar em algum lugar aquele piloto que brigou pelo título de 2012.
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