Brilho de Larson na Nascar mostra que racismo ainda é premiado na sociedade

Kyle Larson foi racista e apenas caiu para cima com crime cometido. Narrativa de volta por cima é falsa e apenas mostra como preconceito racial é premiado, não só no esporte a motor, como na sociedade

11 de abril de 2020. O mundo está praticamente isolado pelo medo da Covid-19. O universo do esporte a motor não é lá muito diferente: todas as categorias foram suspensas e o automobilismo virtual virou uma alternativa de entretenimento para quem aprecia a modalidade. Kyle Larson, piloto da Ganassi na Nascar, participava de corrida de simulador com outros pilotos profissionais quando, movido pelos ares do conforto de quem estava no próprio espaço e dominando o ambiente privado, esqueceu que brincava de guiar perante o mundo inteiro. A zona de conforto tem dessas, mesmo, e faz algumas pessoas entregarem ao coletivo o que costumam fazer e dizer no privado. Larson proferiu ofensa racista em conversa com seu spotter virtual como quem dizia algo comum, nem sequer se incomodou e seguiu em frente impoluto como quem dorme o sono dos justos.

Um ano depois, Larson é campeão da Nascar. Não é um caso de volta por cima, mas de privilégios e como ser racista ainda é premiado na sociedade atual mesmo duas décadas dentro do século XXI.

O mundo caiu sobre Larson após o caso. A Ganassi encerrou o contrato com o piloto, a Nascar anunciou suspensão, e ainda viu corporações gigantes como McDonald’s, Chevrolet e Credit One encerrar patrocínios. Quando a Nascar voltou, Kyle não estava mais no grid.

No período em que esteve fora, Larson soube bem conduzir a situação em termos de assessoria. Em entrevista à Associated Press, em agosto daquele ano, afirmou ter sido “ignorante, imaturo e que não entendia a negatividade e como o uso dessa palavra machuca”. Revelou uma longa conversa com Bubba Wallace, único piloto negro no grid da Nascar, no dia seguinte à ofensa. 

Em outubro, publicou um texto em seu site oficial assumindo responsabilidade pelo ato, que estava refletindo e buscou ajudar funduações voltadas para a juventude preta, tentando entender melhor o impacto da injustiça racial na sociedade norte-americana, tópico que esteve em constante discussão após o assassinato de George Floyd.

KYLE LARSON; CAMPEÃO; NASCAR;
Kyle Larson festeja a conquista do título da Nascar em Phoenix (Foto: Nascar)

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A Nascar optou por remover a suspensão do piloto, permitindo que ele retornasse ao grid em 2021. Oito dias após o anúncio, o piloto foi anunciado pela Hendrick Motorsports, a principal equipe do grid da Nascar, dona de 13 títulos na Cup Series, casa de lendas como Jimmie Johnson e a então campeã, com Chase Eliott.

Um ano e sete meses depois do caso, lá está Larson levantando o título. Uma campanha marcante, temporada de dez vitórias, uma das mais dominantes dos últimos tempos na categoria. Tem quem pinte como uma volta por cima, uma superação, mas não é.

As portas foram fechadas para Larson por conta do racismo, mas acabaram abertas em uma posição de privilégio. Pela Ganassi, Kyle dificilmente teria uma chance de título. Depois do maior erro da carreira, a maior equipe da Nascar abriu as portas para o piloto. No fim, tudo isso o fez cair para cima, sair de toda a situação em vantagem.

O que Kyle fez para se redimir do que fez? O arrependimento é apenas em entrevistas para a imprensa? Tudo isso é de bom tamanho para quem cometeu um ato criminoso? Por que a Nascar aceitou tão fácil esta segunda chance, e em uma posição ainda melhor do que estava antes do crime? Por que não ajudar financeiramente jovens pilotos pretos que nunca ganham uma porta digna no esporte a motor?

Quantas portas foram abertas pela Hendrick e por outras equipes para pilotos negros na Nascar? Quantos tiveram os sonhos podados ainda na infância e na adolescência, sequer tendo a chance de poder desenvolver a possibilidade de virar um piloto?

Talvez Kyle realmente entenda o tamanho do erro que cometeu, e talvez realmente tenha evoluído de lá para cá. No fim, a Hendrick não levou nada disso em conta na hora de o colocar novamente em uma posição de privilégio, uma oportunidade que muitos sequer sonharam em ter. Em uma comunidade que ainda batalha para ganhar espaço no esporte a motor, ver o racismo premiado é um gigante balde de decepção.

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