Don Diego Armando Maradona vive, pois jamais teve medo da morte

Este texto talvez não seja sequer bom. Mas Maradona não precisa de homenagens boas - ele precisa de homenagens que transcrevam o sentimento que criou: o que importa é que venha da alma

Acredito que o ano era 2004: a primeira vez que me vi dentro de uma igreja. Não tenho religião, mas naquele dia eu precisei entrar naquele tempo em Santos. Meu vizinho de infância, que na verdade foi meu avô postiço, tinha sua vida celebrada na missa de sétimo dia, e eu jamais ficaria fora. Em determinado momento, o padre perguntou: “Quem aqui tem medo da morte?”. E eu, 14 anos, quis pagar de corajoso. A igreja toda levantou a mão. Eu não. Mas eu sabia que era mentira. Eu tenho pavor da morte.

Provavelmente por isso eu respeito quem é, de fato, destemido. Quem vive como se o medo fosse um sentimento facilmente combatido, um rival que sequer deveria ser tratado assim, de tão tranquilamente derrotado. Por isso admiro quem levantou a mão naquela noite, naquela igreja, mas não por ter, de fato, medo da morte – e, sim, por saber que a morte é o fim da vitória sobre o medo. A partir dela, a partida acaba: você perde, mesmo que estivesse goleando até ali.

Mas há um tipo raro: aquele que estará para sempre vivo. Aquele que, mesmo quando o fim inevitável chega, criou, produziu, encantou, alegrou tanto e a tantos, que jamais aceitaremos sua partida. A marca é tamanha que não adianta dizer que seu corpo não mais existe: sua alma, sua história, os sentimentos resultantes de sua existência terrena impedem que ele inexista.

Ninguém está mais vivo que Don Diego Armando Maradona.

Maradona, vivíssimo (foto: Reprodução)

O medo daquele menino de 14 anos é o mesmo desse cara de 30 que escreve estas palavras com a alma partida: morrer e não realizar tudo que seus ídolos mostraram que é possível. Não ter a chance de entregar ao mundo a enormidade que aqueles que admira conseguiram. De não ser capaz de fazer o que quiser consigo mesmo, sem pensar nas consequências e nos olhares atravessados de outros medrosos.

Maradona viveu como quis e jamais partirá, pois tudo que entregou guardamos conosco. A loucura, a genialidade, a inocência, a coragem, os dribles, a visão política, os gols, a naturalidade de toda e qualquer ação.

Que menino não sonha em ser jogador de futebol? Que menino não sonha em vestir a camisa do time do coração? Que menino não sonha em jogar uma Copa do Mundo? Que menino não sonha em ganhá-la?

Que menino não sonha em ser amado por todos?

Pibe de Oro (Foto: Reprodução)

Maradona não teve medo de sair driblando um dois, Deus (ele mesmo?) sabe quantos ingleses em 1986. Não teve medo de usar a mão, nem de jogar a culpa em Deus (de novo, personificado nele). Não teve medo de pisar em Batista, contra o Brasil, em 1982. Não teve medo de avisar que toda Nápoles estava com ele e sua Argentina, contra a Itália dona da casa, em 1990. Não teve medo de gritar para a câmera, completamente alterado, após um golaço contra a Grécia, em 1994. Não teve medo de sorrir quando, no mesmo ano, foi tirado de campo de mãos dadas por uma enfermeira. Não teve medo de engordar, de emagrecer, de parar, de voltar, de jogar onde quis.

Não teve medo de ser amigo de Fidel, de amar Che, de ser do povo. De se juntar aos seus nas arquibancadas da Copa do Mundo, da Copa Davis, de ser apenas mais um argentino em meio a tantos, igual a todos, amado por estes e retribuindo o amor ali, tocando a pele e o coração de cada um.

Maradona não teve medo de ser especial enquanto comum. Não teve medo de, mesmo sabendo que poderia olhar para todos de cima, ficar no mesmo nível, lado a lado, olhando no olho, vivendo como um qualquer. Viveu do jeito que quis, sem arrependimento, sem medo de ser feliz.

Ganhou uma religião e, acredite, mesmo que você jamais tenha encontrado uma Igreja Maradoniana, é adepto por tabela. Consome os cultos no Youtube, na televisão, relembrando cada lance e tentando entender como suas pernas corriam daquele jeito e, especificamente a esquerda, produzia milagre atrás de milagre, aos olhos de todos, sem que ninguém pudesse explicá-los.

Maradona foi alma. Sentimento. Vitória. Derrota. Lágrimas. Riscos. Sorrisos. Gritos. Gols. Dribles. Emoção. Carinho. Povo. Cada palavra citada, sua mente lembrará de um momento. É essa sua marca. Maradona foi Maradona.

Talvez eu não tenha medo da morte. Tenha medo de não ser um Maradona. Por mim, tudo bem: ninguém jamais será. Posso dormir tranquilo, como ele desde esta quarta: Maradona fez tudo que podia, e vai em paz.

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