Rali

Na Garagem: Al-Attiyah comove com ajuda a brasileiras vítimas de incêndio no Sertões

A dupla formada pela pilota Helena Deyama e a navegadora Joseane Koerich enfrentou um drama no Rali dos Sertões de 2009, quando um incêndio destruiu o carro, uma Mitsubishi Pajero TR4. Estava praticamente tudo perdido. Mas competidores se uniram para arrecadar fundos e amenizar o prejuízo. Nasser Al-Attiyah foi além e fez uma doação de US$ 20 mil em 4 de julho, em Natal

Grande Prêmio / FERNANDO SILVA, de Sumaré
Principal competição off-road do Brasil, o Rali dos Sertões reuniu, em 2009, o esquadrão da Volkswagen nos carros. A montadora alemã vivia o início de um projeto vitorioso no Dakar, que passava a ser disputado na América do Sul a partir daquele ano, e o Brasil, com a disputa do Sertões no meio da temporada, servia como uma espécie de laboratório para o desenvolvimento do Race Touareg. Carlos Sainz, bicampeão mundial de rali, e Nasser Al-Attiyah eram as grandes estrelas do grid. E foi de Nasser, príncipe do Catar, o grande gesto da prova naquele ano. Que não teve nenhuma relação direta com seu resultado no Sertões como segundo colocado, logo atrás de Sainz.
 
Enquanto Carlos — pai do atual piloto de F1 na McLaren — e Al-Attiyah contavam com uma estrutura digna de equipe de F1 na Volkswagen, boa parte dos pilotos do Sertões corria com recursos bem menores na comparação com a esquadra alemã. Dentre nomes importantes do off-road nacional, como os irmãos André e Jean Azevedo, e Reinado Varela, estavam também grandes competidoras, verdadeiras guerreiras. Em seu décimo Sertões, Helena Deyama, dona de vários títulos no off-road, pilotava uma Mitsubishi Pajero TR4 ao lado da navegadora Joseane Koerich.
 
Na sétima especial da competição, entre Barra, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, a dupla enfrentou um vazamento de combustível que resultou em um incêndio devastador e que destruiu a Pajero, encerrando o sonho de Helena e Joseane terminarem o Sertões quando restavam três dias para o fim. As duas competidoras, por sorte, escaparam ilesas, mas perderam tudo o que levavam ali, até mesmo documentos e dinheiro. Helena e Joseane não conseguiram segurar o choro.
Joseane Koerich e Helena Deyama desoladas frente ao carro consumido pelo fogo (Foto: David Santos Jr./Webventure)
Mesmo desoladas, Helena e Joseane seguiram com a caravana do Sertões até o destino final naquela temporada, Natal. Na cerimônia de premiação e encerramento do rali, realizada em 4 de julho daquele ano, Reinaldo Varela organizou uma rifa de um jogo de pneus, cujo dinheiro seria revertido a Helena e Joseane. O vencedor foi o diretor de prova, o português Jaime Santos, que não tinha condições de levar os pneus para seu país. 
 
Então, foi feito um leilão dos pneus, que valiam cerca de R$ 3 mil. Nasser se antecipou e fez uma doação de US$ 20 mil [R$ 41,8 mil na cotação da época] para ajudar as brasileiras a adquirir um novo carro. A atitude de Al-Attiyah levou novamente Helena e Joseane às lágrimas. Daquela vez, porém, era um choro de alegria.
 
Designer gráfica formada em Artes Plásticas, Helena Deyama recordou ao GRANDE PRÊMIO os momentos de tensão, drama e incerteza com o incêndio que destruiu seu carro, a comoção com as demonstrações de solidariedade, o reencontro com Nasser Al-Attiyah no Dakar e a luta para seguir competindo nos dias de hoje.
O que sobrou do carro de Helena Deyama (Foto: David Santos Jr./Webventure)
“Eu nem acredito que já se passaram dez anos. Lembro de tudo o que passei como se fosse na semana passada. A começar pela hora do incêndio, aquela coisa de você pensar sobre por que aquilo estava acontecendo comigo, o que tinha feito para merecer isso, sabe? Graças a Deus não nos machucamos, abracei a Josi lá na hora, chorei muito, chorei tanto que soluçava e não conseguia falar. Quando me acalmei, lembro que depois os nativos chegaram para nos dar água, ficamos em uma sombra — estava muito calor —, e aí achei que era um sinal de Deus para parar, para parar de fazer ralis. Sou uma pessoa de classe média, simples, não tinha condições, e todo esporte a motor é muito caro. E eu consegui correr nos ralis e me manter por muito tempo... 2009 era meu décimo Sertões, e isso para mim era uma conquista muito grande, pela dificuldade em conseguir patrocínio, dinheiro... e sempre todo dinheiro que ganhava trabalhando gastava no rali [risos]”, contou.
 
“E quando aquilo aconteceu, tinha acabado de trocar minha L200, que estava velhinha e não era mais competitiva, por aquela TR4. Estava pagando, tinha até dezembro para pagar as prestações do carro. E aí pensei: ‘Acabou, né?’. Deu perda total, não tinha seguro. Ia pagar o carro e parar de correr nos ralis, não tinha condições...”.

“Quando chegamos ao parque de apoio, na volta, imediatamente a comunidade do rali se uniu para nos ajudar, inclusive foi ideia do Reinaldo Varela, que corria na mesma equipe, que inventou uma rifa na hora, anunciou a rifa no briefing da noite, e todo mundo contribuiu com o que era possível. E aquilo foi muito emocionante para mim. Então pensei que, com toda essa ajuda dos meus amigos, não podia desistir, tinha de continuar. Fiquei surpresa com o apoio de todo mundo... Além do carro, havia perdido os documentos, dinheiro, não tinha nem como voltar para casa”, lembrou Deyama.
 
“O dia da premiação foi o sorteio da rifa. E o que rifamos foram os pneus reservas que estavam no caminhão de apoio, foi a única coisa que sobrou do carro. A pessoa sorteada foi o Jaime Santos, que vinha de Lisboa para ser diretor de prova do rali. Mas ele não podia levar os pneus. E aí o locutor do rali começou um leilão... O leilão já estava em R$ 2 mil quando o Nasser veio e perguntou o que estava acontecendo. Contaram para ele que era um leilão para ajudar a Helena. O Edu Bampi [navegador] anunciou no microfone que o Nasser queria doar US$ 20 mil. Foi uma grande festa! Lembro da cena como se fosse um conto de fadas, e foi mesmo um conto de fadas do rali porque foi um príncipe que me ajudou. Chorei muito quando o carro virou cinza e chorei ainda mais pelo gesto. E hoje conto essa história e meus olhos se enchem de lágrimas”, se emociona Helena.
 
O único desejo de Nasser era que Helena e Josi Koerich continuassem competindo. “Lembro que ele me dizia: ‘Não tem nada que agradecer, só quero que você continue correndo nos ralis’. Que cara, esse! Que coração!”, recorda.
Joseane Koerich; Nasser Al-Attiyah e Helena Deyama na premiação do Sertões 2009 (Foto: Donizetti Castilho)
Helena conseguiu quitar as parcelas que restavam para pagar o carro que foi consumido pelo incêndio e, com o dinheiro da doação feita por Al-Attiyah, pagou boa parte de um novo carro, uma Mitsubishi L200 RS, que foi batizada de ‘Príncipe’ justamente em homenagem a Al-Attiyah.
 
Ao longo da década, Nasser se consolidou como um dos grandes nomes do rali cross-country e conquistou nada menos que três títulos do Dakar: 2011, pela Volkswagen, 2015, pela Mini, e em janeiro deste ano, ainda na América do Sul, com a Toyota. Al-Attiyah também alcançou outro grande feito no esporte ao tornar-se medalhista olímpico, obtendo o bronze no tiro Skeet nos Jogos de Londres, em 2012.
Helena Deyama, Joseane Koerich e o 'Príncipe' no Sertões de 2010 (Foto: Marcelo Maragni)
Como era o desejo de Al-Attiyah, Helena Deyama continuou nos ralis e competiu entre 2010 e 2013 com o ‘Príncipe’. E trilhou uma carreira vitoriosa. Mas não foi nada fácil.
 
“As coisas foram ficando cada vez mais difíceis. Com a crise, a Goodyear suspendeu todos os patrocínios, como os que tínhamos à época... Em 2014, comecei a andar de UTV graças ao apoio da Polaris, e essa foi a salvação, porque era difícil trocar de carro. Por outro lado, acabei me dedicando ao automobilismo, comecei a dar cursos, comecei a trabalhar em eventos corporativos de segurança no trânsito, passei a trabalhar com marcas como Jaguar, Land Rover, Volvo, Audi... Então Deus não faz as coisas à toa, me esforço muito para continuar no esporte, mas tenho conseguido trabalhar com automobilismo e ainda fazer os ralis”, explicou.
 
Helena e Joseane voltaram a formar a consagrada dupla em várias outras provas. Foi assim também no Rali dos Sertões do ano passado. Pilota e navegadora fizeram a prova de UTV e terminaram no pódio, em quinto lugar na categoria, superando inclusive nomes consagrados como Leandro Torres e Lourival Roldan, a primeira dupla brasileira campeã do Rali Dakar, também de UTV, em 2017.
Helena Deyama e Joseane Koerich no pódio do Sertões de 2018 (Foto: Marcelo Machado de Melo/Fotop)
“No ano passado ganhei dois campeonatos brasileiros baja e tinha o sonho de correr o Rali dos Sertões, de UTV, e consegui realizar. De novo, foi a duras penas, porque não consegui patrocínio, e corremos quase tirando tudo do bolso. Só não posso dizer que foi sem patrocínio nenhum porque tive o apoio da Academia Bio Ritmo, que me apoia há quase dez anos, que é onde faço minha preparação física, fui conseguindo uma ajuda aqui e ali, meu primo me deu ajuda no motorhome, consegui carona para meu UTV [risos]... e mesmo sem dinheiro de patrocínio, consegui, realizei”, destacou.
 
Enquanto luta para conseguir patrocínio e disputar o Rali dos Sertões em 2019, Helena Deyama olha para trás, vê os mais de 20 anos de conquistas nas trilhas do Brasil, e se mostra feliz por tudo o que alcançou e por conseguir demonstrar seu amor pelo esporte, como uma verdadeira guerreira. Uma história que foi prolongada até os dias de hoje também pela presença nela de um príncipe, Nasser Al-Attiyah.
Paddockast #23
Lágimas em Le Mans



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