Endurance
16/06/2017 06:00

Aos 45, Barrichello reaprende como é andar a 340 km/h em Le Mans e se diz envolvido por novo desafio: “Visto a camisa”

"Eu estou empolgado, já liguei, passei informações, falei que a gente precisava de um carro um pouquinho mais lento de reta e melhor de curva. Eu sou assim, quando gosto eu visto a camisa e mergulho!". O recordista de largadas na F1 se envolve dos pés à cabeça em seu novo desafio na carreira. Em Le Mans, Rubens Barrichello aproveita sua experiência até para dar dicas à Dallara de como melhorar o desempenho do chassi
Warm Up / BRUNO VICARIA,  de Cascavel
 Dono de tanta experiência e conquistas, Barrichello entra em Le Mans como um novato (Foto: Jérôme Fouquet)

Com mais de 30 anos de experiência, é bem difícil uma pessoa relatar novidades na carreira, a não ser que ela tenha vontade e interesse pelo novo. E, neste caso, Rubens Barrichello vem se renovando o tempo todo. Depois de passar 19 anos na F1, se aventurar na Indy, competir provas de endurance nos EUA e se estabelecer no Brasil com a Stock Car (e chegando até a competir no Brasileiro de Marcas), Barrichello se colocou na posição de estreante de novo ao encarar o maior desafio de longa duração do planeta: as 24 horas de Le Mans. Tudo em nome do amor pelas corridas.
 
Neste fim de semana, Barrichello competirá pela equipe holandesa Racing Team Nederland, holandesa como o nome já diz, ao lado do decano Jan Lammers (com passagens pela F1) e do gentleman-driver e dono da equipe Frits van Eerd, proprietário da rede de supermercados Jumbo (que patrocina também Max Verstappen na F1). Os três dividirão a condução do conjunto formado pelo chassi Dallara P217 e motor Gibson na divisão LMP2 na luta contra, principalmente, os favoritos carros da Oreca. No combinado dos três treinos classificatórios em Le Mans, o #29 vai largar em 17º na categoria e em 23º no geral.
 
Em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO no fim de semana da etapa de Cascavel da Stock Car, Barrichello disse que precisou desacostumar a cabeça para voltar a andar em alta velocidade, assim como voltar a se acostumar com as dezenas de botões dos protótipos modernos — revivendo, em parte, algumas das situações que ele se cansou de viver na F1.
Rubens Barrichello e o novo desafio: andar a mais de 340 km/h em Le Mans (Foto: José Mário Dias)
"Já estou cinco anos longe de F1 e Indy, então o cérebro demora um pouco para se acostumar aos 340 km/h! Agora, da parte de equipamento e tecnologia, não tem muita surpresa. O problema é decorar os comandos de botões, pois são muitos e tive de parar e ler o manual, mesmo", contou. 
 
O entrosamento com a equipe, inclusive, quase gerou uma pressão extra nos outros pilotos por conta da velocidade de Rubens, mas foi algo gerenciado com tranquilidade pelo piloto, que sabe da importância de uma equipe entrosada e sintonizada em provas desse estilo. 
 
"É muito tranquilo trabalhar com eles. O Jan Lammers é um piloto experiente e super rápido e o Frits, dono da equipe, é um gentlemen-driver, mas apaixonado pelo esporte e por isso tem essa equipe, que na real é super simples. Notei que, ao chegar e fazer um tempo bom, eu os notei pressionados, mas tratei de mostrar que não há competição interna e o objetivo é todos crescerem juntos."
Rubens Barrichello teve a chance de guiar pela primeira vez em Le Mans na última quarta (Foto: Racing Team Nederland/Facebook)
Aliás, Barrichello vestiu a camisa do time de tal forma que se prontificou a dar um feedback do carro para a própria Dallara, que produz e trava uma briga ferrenha com a Oreca. "O Dallara é muito rápido de reta, mas não é tão bom de curva e perdemos cerca de 2s para os Oreca. Eu estou empolgado, já liguei pra Dallara, passei informações, falei que a gente precisava de um carro um pouquinho mais lento de reta e melhor de curva. Eu sou assim, quando gosto eu visto a camisa e mergulho!"
 
A noite, aliás, é um momento bastante aguardado por Barrichello. Afinal, a balada do brasileiro será desviando de carros mais lentos e abrindo passagem para os carros da LMP1 a mais de 300 km/h e em um quase breu, uma vez que a iluminação vem apenas dos faróis dos carros. Nada que assuste Barrichello, no entanto. O piloto, aliás, fez uma analogia sobre outra prova que faz parte da santíssima trindade do automobilismo mundial e onde teve a chance de competir em 2012.
 

"O tráfego em Indianápolis é tão difícil quanto andar de noite em Le Mans. Segundo o Lammers, de noite é mais fácil identificar as situações. Teoricamente a gente anda mais leve, mas pelas condições de pista, pois de noite é frio. Um detalhe legal sobre a condução noturna é que quando precisam de algum ajuste por parte do piloto no carro, se acende uma luz dentro do cockpit para poder se enxergar o painel e o volante", descreve Rubens.
 
Por fim, depois de dez minutos de conversa, Barrichello quase chorou. O assunto? Família, claro. Mais exatamente o primeiro contato do filho Dudu (Eduardo) com os monopostos — na última semana, foi a vez de um carro da F-Vee. "É aquela coisa, chego até a lacrimejar (Nota do repórter: ele realmente lacrimejou). E não fico forçando, ele faz por querer. E, na parte de família, a Silvana determina quando ele pode treinar - tudo depende da escola. Agora o problema é o Fefo (Fernando) que fica me pedindo para andar, mas ele ainda tem 11 anos!", completou.
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