Indy vive cobertor curto, e México expõe novo fracasso de Miles

Indy confirmou que não vai disputar GP do México em 2026, após praticamente garantir etapa no calendário, em nova marca negativa para gestão de Mark Miles

Depois de tanto alardear, a Indy voltou atrás e confirmou que não vai correr no México em 2026. O episódio é um novo fracasso na gestão de Mark Miles, CEO da Penske Entertainment, e expõe uma situação de cobertor curto da categoria, com recursos limitados para competir com a concorrência para abocanhar os mercados — e frustra, novamente, os fãs.

Uma coisa precisa ser clara e relembrada: a Indy nunca se recuperou da cisão na década de 1990, que separou a categoria em CART e IRL. Quando ambas voltaram a ser uma só — sob nome de IndyCar —, o estrago estava feito: foi a fusão de dois campeonatos que se canibalizaram tanto que estavam praticamente falidos. A categoria sobreviveu do jeito que deu e, sim, conseguiu um salto importante com a chegada da Penske.

Porém, esse avanço com o comando de Roger Penske só é expressivo se comparado com o período prévio à aquisição, com a categoria sofrendo para formar grids volumosos. O novo panorama está anos-luz do que era no período pré-cisão, quando incomodava até a Fórmula 1 e o reinado dela como modalidade mais popular do planeta. Mas a malfadada ideia que gerou a IRL e dividiu a Indy em duas gerou dois campeonatos que, apesar de ter sua base de fãs, se tornou pequena dentro do próprio Estados Unidos — a Nascar se valeu disso e se tornou, de longe, a mais renomada no país.

Explicado esse contexto, se chega a Mark Miles. Antes mesmo de Roger Penske fechar a aquisição em 2020, o dirigente já comandava a Indy desde 2012 — era CEO da Hulman & Company, então proprietária da categoria e do Indianapolis Motor Speedway.

Mark Miles, CEO da Penske Entertainment (Foto: IndyCar)

Traçando um paralelo com o futebol, “time que se ganha, não se mexe”. Porém, apesar dos esforços e das dificuldades em torno da configuração do mercado do automobilismo nos Estados Unidos, dominado pelas categorias da Nascar, o time não estava ganhando. Miles entrou com a missão de revitalizar a Indy e modernizar a estrutura, mas não foi o que aconteceu durante, digamos, a primeira parte da gestão.

Ainda assim, o ex-CEO da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) e presidente do comitê organizador do Super Bowl 2012 em Indianápolis recebeu o voto de confiança de Penske e continuou à frente da Indy. No entanto, essa jornada continua com mais fracassos do que sucessos.

A confirmação da ausência do GP do México na temporada 2026 é um testamento disso. Entre idas e vindas, Miles fala sobre a possibilidade de correr em solo mexicano desde 2016 — e as redes sociais seguem repercutindo declarações do dirigente naquela época.

Essa última iniciativa começou de modo turbulento, após a Nascar ter fechado para correr em 2025 no autódromo Hermanos Rodríguez. Pato O’Ward vociferou contra a organização da Indy e lamentou a lentidão da categoria diante das “diversas oportunidades” que surgiram de ir ao México nos anos anteriores. Como resposta, em entrevista a veículos selecionados dos Estados Unidos, Miles apontou que “talvez Pato não seja tão famoso assim no México” — vale destacar que O’Ward é o piloto mais popular da Indy, com mais seguidores nas redes sociais que a própria categoria.

Pato O’Ward com boné Pato Who (Foto: McLaren)

O incidente, em primeiro momento, gerou uma crise entre O’Ward e Miles. A McLaren, sempre opositora à atual gestão, lançou uma linha de produtos Pato Who? — Pato, quem?, em tradução literal. As pazes vieram meses depois, quando a Indy começou a se movimentar em ir ao México, trazendo o #5 para mais próximo em busca de confirmar a corrida.

Nesse mesmo período, entre as temporadas 2024 e 2025, Indy realizou alguns anúncios que mostraram uma sequência promissora. Veio o novo contrato de transmissão, que mudou da NBC para a FOX e foi muito elogiado; a compra do GP de Long Beach, que chegou a receber ofertas da Nascar; o GP de Arlington, com a expressiva parceria com o Dallas Cowboys e Texas Rangers, populares franquias de futebol americano e beisebol nos Estados Unidos, uma boa solução à perda da etapa no oval do Texas; e a confirmação de um novo carro para 2027, mas que já foi adiado para 2028.

E é aqui que a situação de cobertor curto no lado das finanças fica exposto. Depois desses investimentos e até engatinhar com algumas ações de marketing, a sensação é de que os recursos disponíveis para a Indy expandir são irrisórios perto da Nascar e outras categorias.

O noticiário nos Estados Unidos repercutiu que a dificuldade em acertar o GP do México esbarrou na Nascar, que mesmo sem colocar Hermanos Rodríguez nos calendários de suas categorias para 2026, fez com que a Indy não conseguisse data para correr no fim de março ou começo de abril por lá. E que o Liberty Media, grupo proprietário da F1 e da Live Nation, dona do autódromo, subiu a pedida absurdamente. Por fim, a Indy também viu uma regra da FIFA, que impede grandes eventos em cidades que sediarão a Copa do Mundo de 2026 — que será nos EUA, Canadá e México entre 11 de junho e 19 de julho — sete dias antes e sete depois do evento.

Mark Miles, CEO da Penske Entertainment (Foto: Reprodução)

A Indy até recebeu um investimento volumoso no fim do mês de julho, quando a FOX adquiriu um terço da Penske Entertainment por um valor estimado em US$ 130 milhões (cerca de R$ 695 milhões na cotação atual). Mas uma análise minuciosa indica que este valor ainda é pouco. A Nascar, por exemplo, tem a premiação mínima por etapa na Cup Series de US$ 9.797.935,00 (cerca de R$ 52,5 milhões). Ou seja, em praticamente 13 corridas, a categoria distribui o mesmo foi gasto para comprar um terço da Indy.

Diante disso, qual foi a razão para tanto alarde de que correria no México? Armar a concorrência? O cenário sempre foi desafiador para Miles — é verdade —, mas parece que nunca mudou ao longo dos 13 anos à frente da categoria. O famigerado fortalecimento da Indy no mercado dos Estados Unidos segue lento — e cada vez mais Zak Brown, CEO da McLaren, encontra apoiadores de que falta promoção nas corridas fora de Indianápolis.

Deste modo, a solução tem sido apelar para condições impopulares para fãs e participantes da categoria, como o GP de Thermal, um evento escondido em um condomínio para milionários acompanhar, ou manter uma rodada dupla em Iowa, que sem um parceiro com grana, foi um verdadeiro fracasso de público nessa temporada. Vale destacar que as duas praças pareciam cartas fora do baralho para 2026, mas podem ser repescadas para evitar a diminuição do calendário do próximo ano.

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