Stock Car flerta com tragédia ao ignorar alerta dos pilotos sobre segurança
O acidente no TL1 da etapa em Brasília jogou os holofotes na questão da segurança dos novos carros da Stock Car, que não agrada parte dos pilotos do grid. Categoria flerta com o perigo ao ignorar alerta dos competidores
Felipe Fraga, que venceu a corrida sprint e foi segundo colocado na principal, e Nelsinho Piquet, que conquistou um pódio no sábado e levou a melhor no domingo, tiveram atuações brilhantes em Brasília, mas passaram longe de serem os protagonistas do fim de semana da Stock Car. O motivo foi o acidente entre Bruno Baptista e João Paulo de Oliveira, que roubou todos os holofotes e levantou uma questão muito importante acerca da segurança dos novos carros da Stock Car.
Com a Mitsubishi se juntando à dupla Chevrolet e Toyota, a adoção dos SUVs e o novo regulamento dos motores, havia ampla expectativa para o que a categoria preparava. Porém não é exagero dizer que, antes mesmo do início da estreia, em Interlagos, o campeonato estava fadado a ser lembrado pelos motivos errados. A falta de confiabilidade era tamanha que, além de ter de adiar a realização de uma etapa para promover mais testes, a categoria aumentou o número de descartes de resultados de três para cinco, com o objetivo de evitar maiores prejuízos aos pilotos prejudicados nas etapas iniciais. Isso sem falar na desistência de revolução dos motores e confirmação do retorno dos V8 em 2026. Tudo isso coisas que foram aparecendo com o passar dos meses.
E justamente quando as reclamações relacionadas aos problemas dos motores diminuíram — embora a desistência não tenha sido uma resolução —, a discussão sobre a falta de segurança ganhou mais intensidade. Entrou em ebulição, na real. Nos últimos instantes do primeiro grupo no TL1 da etapa na capital federal, JP de Oliveira acertou em ‘T’ o carro de Bruno Baptista. A posição em ‘T’, quando um carro em velocidade acerta frontalmente a lateral de um outro veículo, é tida como a de maior periculosidade para impactos de automóveis. Por causa do acidente, as atividades de pista foram interrompidas por quase quatro horas. Com o impacto, o chassi de Baptista rachou e teve diversas peças quebradas. O piloto chegou a ficar desacordado, apurou o GRANDE PRÊMIO. Dias depois, Bruno confirmou que passou por cirurgia na mão esquerda e sofreu lesões na coluna e na costela. JP, por sua vez, sofreu uma fissura na bacia e um trincado na coluna.
Ao saberem da situação do carro de Bruno, os pilotos cogitaram não correr no fim de semana e organizaram reunião com a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), que posteriormente conversou com as equipes. Num primeiro momento, a Vicar, promotora do campeonato, não estava presente nas conversas. Depois de estabelecido que o fim de semana seguiria em frente, Lincoln Oliveira, CEO da Stock Car, reforçou a confiança na segurança dos carros e disse que a preocupação dos competidores foi fruto da emoção do momento.
“Foi uma batida em ‘T’, que normalmente é bastante perigosa, mas o carro demonstrou ser extremamente seguro e cumpriu seu papel. Prova disso é que os pilotos estão bem. O carro ficou destruído, mas estão intactos, e é assim que ele foi projetado. Esperamos que [os pilotos] voltem o quanto antes. Estamos muito felizes porque estão bem”, disse o CEO da Stock Car em entrevista ao Sportv.
“Os pilotos ficaram emocionados e é comum, no calor do momento, alguém dizer que não vai correr. Mas a prova de que tudo funcionou é que eles estão bem. Não é a primeira vez que ocorre um acidente desse tipo, mas este mostrou que os pilotos saíram bem e estavam protegidos”, finalizou.
De fato, a batida em ‘T’ não deve ser minimizada, mas não é suficiente para relativizar o que aconteceu. De acordo com comunicado da própria Stock Car, João Paulo estava a 133 km/h quando atingiu o carro de Bruno, e o impacto foi suficiente para partir a gaiola de segurança de uma forma que, segundo Adalberto Baptista, pai do piloto, fazia o material parecer inadequado para proteger os competidores. E, sim, 133 km/h é uma velocidade a ser levada em conta, mas está distante do que esse carro pode alcançar. Portanto, as consequências poderiam ter sido ainda maiores.
Além das dúvidas em relação ao material, a abertura do carro continua sendo um problema: a porta do carro guiado por JP de Oliveira ficou emperrada após a batida, segundo apuração do GRANDE PRÊMIO. Esse problema não é novo. Durante a etapa no Velocitta, Hélio Castroneves teve dificuldades para abrir a porta e inalou fumaça depois de a dianteira do carro pegar fogo. Abrir a porta é algo primordial no resgate ou na tentativa de o piloto deixar o carro. Dado o contexto dos últimos dias, é possível presumir que a Stock Car não conseguiu solucionar esse impasse.
A falta de segurança não está apenas na estrutura do carro, mas também nas operações do fim de semana. Ao refletir sobre o acidente, De Oliveira utilizou as redes sociais na terça-feira (2) para apresentar sua versão sobre o ocorrido. O que impressiona no relato, no entanto, é que demorou cerca de 13s entre o momento em que Baptista rodou e o instante em que foi atingido na lateral. Nesse intervalo, não houve bandeira amarela, nem sequer um alerta de rádio.
“13 segundos. Esse foi o intervalo entre o carro do Bruno parar atravessado na pista e o momento em que o atingi. No automobilismo, 13s é muito. Havia tempo para acionar bandeiras amarelas no último setor, para substituir a amarela por vermelha ou até mesmo emitir um alerta via rádio para os pilotos que estavam na pista no momento. Nada foi feito! A segurança falhou na tarefa mais básica: proteger os pilotos”, declarou JP.
“Na imagem onboard, é possível ver um fiscal atrás do guard-rail, olhando para o carro parado, sem levantar a bandeira. Não havia preparo. Não havia câmeras. Não havia comunicação. Não havia protocolo. Não havia segurança. No dia seguinte ao acidente, surgiram ‘medidas urgentes’: foram impostos limites de pista, câmeras de monitoramento, posto de sinalização extra no último setor. Exatamente o que muitos pilotos, inclusive eu, vínhamos solicitando e que até então parecia impossível. Era necessário um acidente grave para que tivéssemos melhorias, infelizmente”, lamentou.
O relato de JP mostra que, além dos carros, a segurança em relação à operação já era algo que preocupava os pilotos e, após a batida, alguns pedidos foram atendidos. Mas será que não há nada a ser revisto na estruturação dos carros? Quando foi questionado pelo sportv no fim de semana em Brasília, Lincoln reforçou que o carro é homologado e que “a homologação está no site da CBA”. Adalberto já confirmou que Bruno não corre mais na Stock Car com os carros atuais.

Em Brasília, Felipe Massa, Rubens Barrichello, Hélio Castroneves, Rafael Suzuki, Ricardo Zonta e Gabriel Casagrande se reuniram para decidir se iriam à pista no TL2, também apurou o GP. Uma categoria do tamanho da Stock Car não precisa de uma tragédia ou debandada para dar mais ouvido aos pilotos e tentar encontrar uma solução para o problema. Como disse JP de Oliveira, o automobilismo brasileiro merece mais do que improviso e descaso. Portanto, cabe à principal categoria do país servir como exemplo de segurança.
A Stock Car retoma as atividades entre 12 e 14 de dezembro com a etapa final em Interlagos. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa da temporada 2025.
▶️ Inscreva-se nos dois canais do GRANDE PRÊMIO no YouTube: GP | GP2
🏁 O GRANDE PRÊMIO agora está no Comunidades WhatsApp. Clique aqui para participar e receber as notícias do GP direto no seu celular!
Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Teleguiado.
📩 NEWSLETTER GP
Assine e receba notícias exclusivas e bastidores das pistas diretamente no seu e-mail!