Vitória de Cassidy em movimento mágico no México traduz futuro que Citroën tanto almeja

Renovada, a Citroën entra na Fórmula E para esquecer o passado inglório como Maserati, virar a página e construir uma trajetória vencedora. Para isso, trouxe Nick Cassidy, que precisou de duas corridas para conquistar a primeira vitória do time — com direito a um movimento genial, daqueles que esclarecem a decisão da montadora de tirá-lo da Jaguar

A renovação completa pela qual a Citroën passou desde a última temporada da Fórmula E tem raízes profundas, da falta de recursos dos antigos controladores do time ao incômodo de um grupo poderoso com resultados tímidos e não condizentes com a grandeza imaginada. De uma edição para outra da categoria, contudo, saiu de cena a Maserati controlada pelo MSG e entrou a montadora francesa, com leme assumido pela Stellantis — que toca o barco a partir de agora. Com Jean-Éric Vergne de um lado, ainda era necessário outro piloto de impacto para ajudar na condução do projeto ao topo — e Nick Cassidy comprovou novamente no eP da Cidade do México os principais motivos para ser o eleito.

Aqui, a contextualização é importante. Na temporada passada, a Maserati fechou o campeonato na nona posição entre 11 equipes, com Jake Hughes e Stoffel Vandoorne ao volante. O belga até venceu uma corrida, com golpe estratégico de mestre em Tóquio, mas ficou nisso. Foram 102 pontos no total, acima apenas de Cupra Kiro (86) e Lola Yamaha (32). A DS Penske, equipe que compartilha o trem de força Stellantis, foi quinta, com 184 tentos.

As dificuldades financeiras colocaram o projeto em risco, e a Stellantis assumiu para revigorar o time. A decisão foi por uma cara nova, na identidade da Citroën, com alguns novos funcionários e a manutenção do chefe Cyril Blais. O carro é essencialmente o mesmo da última temporada, já que a Fórmula E só permite alterações a cada dois anos, período correspondente ao ciclo de homologação.

Essa explicação se faz necessária porque, com o mesmo equipamento, Cassidy abriu a temporada com um terceiro lugar em São Paulo e uma vitória pouquíssimo esperada na Cidade do México. Em duas corridas, Nick tem os mesmos 40 pontos somados por Hughes em toda a temporada passada, na mesma equipe. É uma estatística brutal e, ao mesmo tempo, esclarecedora sobre o motivo de a Stellantis ter ido atrás do neozelandês — não só para a Citroën, mas também para a Peugeot no WEC.

Se a Citroën quer um futuro de vitórias, Cassidy tem a capacidade de buscá-las (Foto: Fórmula E)

O eP da Cidade do México, em particular, foi genial. Largando em 13º, Cassidy aproveitou uma corrida com bem mais ultrapassagens que as edições anteriores para adotar o plano preferido: economizar energia e se manter no bolo, para dar o pé quando puder acelerar até o fim. Foi assim que, ao se colocar em décimo na parte final da corrida, a bateria do carro ainda marcava cerca de 45% — enquanto os rivais giravam na casa de 42%. Parece pouco, mas foi o suficiente para marchar em direção à vitória.

Atropelando o pelotão com as duas ativações do Modo Ataque nas horas certas, Cassidy assumiu a liderança na base da estratégia e do arrojo. Para segurar a Mahindra de Edoardo Mortara, contudo, seria necessário um toque de genialidade. E, mais uma vez, Nick justificou a escolha da Citroën de tirá-lo da Jaguar: em um movimento mágico, desmontou a concorrência na penúltima volta e arrancou urros da torcida presente ao Hermanos Rodríguez.

Tudo aconteceu na entrada do estádio, especificamente na curva 9 do traçado mexicano. Mortara perseguia Cassidy por menos de 0s4 e aproveitava os últimos segundos do Modo Ataque, o que tornaria uma ultrapassagem simples na reaceleração — aproveitando a potência extra e principalmente a tração integral. Foi aí que Nick, vendo Edo colado na traseira, tirou o pé do acelerador na retomada, por apenas um instante, e forçou todos a fazerem o mesmo.

Agora trajado de Citroën, Cassidy já levou a primeira vitória e lidera o campeonato (Foto: Fórmula E)

O pandemônio foi imediato. Mortara perdeu o timing da ultrapassagem e precisou se preocupar com a aproximação de Oliver Rowland, que engoliu Jake Dennis — outro que precisou tirar o pé — na confusão. Ninguém bateu, mas o momento de indecisão geral foi suficiente para Cassidy segurar a margem até o fim do Modo Ataque da Mahindra e cruzar a linha de chegada em primeiro.

Foi o pacote completo: inteligência para executar a estratégia, ousadia para escalar o pelotão e genialidade para executar um movimento técnico — e frio — em momento de absoluta pressão. O simbolismo da contratação de Cassidy passa muito por uma Citroën que quer esquecer o passado fracassado como Maserati e escrever uma nova página, renovada e em patamar acima. Em duas corridas, o neozelandês entregou exatamente isso. Se a equipe abriu a temporada dizendo que pensar em título seria “arrogante”, é melhor começar a cogitar uma nova realidade: com Nick por lá e um bom carro, tudo pode mudar muito em breve.

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