Rápido e racional, Dovizioso devolve protagonismo à Ducati, mas deixa dúvida: é candidato real ao título da MotoGP?
Dez anos após Casey Stoner conquistar o primeiro ― e único ― título da Ducati na MotoGP, Andrea Dovizioso devolveu o protagonismo da fábrica de Bolonha. Dono do maior número de vitórias nas primeiras 12 etapas da temporada 2017, o italiano retomou a liderança do Mundial, mas nem todo mundo se convenceu das chances reais do italiano na disputa com alguns dos tradicionais ‘aliens’ do esporte
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Rápido, racional e lúcido. Foram essas as três palavras que Claudio Domenicali, diretor-executivo da Ducati, usou para descrever Andrea Dovizioso após o maiúsculo triunfo no GP da Áustria. Mas elas podem muito bem descrever a performance do #4 como um todo.
Aos 31 anos, o italiano de Forlimpopoli, no nordeste do país, conseguiu tomar para si o protagonismo de uma Ducati que tinha em Jorge Lorenzo sua maior esperança de voltar ao olimpo do Mundial. Enquanto o #99 segue sua luta para se entender com a Desmosedici, Dovizioso aproveita a experiência acumulada ao longo dos últimos cinco anos para fazer frente às gigantes asiáticas e seu esquadrão de ‘aliens’.
Mas não foi só Lorenzo quem perdeu o papel principal para Dovizioso. Passadas as 12 primeiras etapas do calendário, o campeão de 2004 das 125cc lidera um campeonato que, ainda na fase de testes coletivos, parecia destinado a um dominante Maverick Viñales.

Andrea Dovizioso devolveu o protagonismo da Ducati na MotoGP (Foto: Michelin)
O universo, entretanto, preparou uma história diferente para 2017. Completados 2/3 da temporada, já foram cinco mudanças na liderança da disputa, com Viñales, Valentino Rossi, Dovizioso e Marc Márquez se revezando em turnos no topo da tabela de pontos.
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Em um ano marcado pelo imprevisível, a liderança de Dovizioso tem sim relação com os revezes da concorrência, mas, mais do que isso, é fruto do trabalho da Ducati e da inteligência e do talento do #4.
Até aqui, Dovizioso venceu quatro vezes, contra os três triunfos de Viñales e Márquez e as vitórias de Dani Pedrosa e Rossi. E todas essas vitórias vieram em situações diferentes. Na primeira delas, na Itália, Andrea teve de enfrentar as duas Yamaha. Na Catalunha, o #4 precisou escalar o pelotão, mas ficou com o topo do pódio após superar Pedrosa. Já na Áustria, o triunfo maior, resultante de um confronto com Márquez até a última curva. Em Silverstone, mais uma evidência do bom trabalho do italiano com os pneus.
Desde a introdução do software padrão no ano passado, o controle do desgaste dos pneus deixou de ser feito especificamente por meio eletrônico, com o piloto ficando incumbido de sentir essa deterioração e ajustar sua pilotagem conforme a necessidade. Sem o software proprietário, o piloto tem de saber ‘ler’ o pneu e acelerar de acordo com a situação. E é aí que mora o grande trunfo de Dovizioso.
Até aqui, o #4 tem sido impecável neste quesito. Ao contrário da Bridgestone, a Michelin oferece escolhas mais variadas e poucos óbvias. O pneu macio, por exemplo, nem sempre é carta fora do trabalho quando se trata de fazer uma corrida toda no calor. A borracha branca traseira foi utilizada por Andrea no triunfo do Red Bull Ring e no segundo lugar de Viñales em Silverstone, por exemplo.
Além disso, a Ducati foi a fábrica que menos percalços enfrentou ao longo do ano. A Honda começou 2017 ainda sofrendo com a aceleração da RC213V, enquanto a Yamaha se tornou uma moto para lá de irregular com o passar das corridas. A Desmosedici, por outro lado, conseguiu um nível de performance mais estável.
Em um ano marcado pela imprevisibilidade, o fato de as três principais montadoras estarem empatadas com quatro vitórias cada é mais um indício da enorme competitividade da MotoGP.
Em um grid tão disputado, a liderança de Dovizioso após 2/3 da temporada não pode ser classificada como um blefe. É real. Dez anos após Casey Stoner conquistar o primeiro ― e único ― título da Ducati na MotoGP, a casa de Borgo Panigale está de volta ao páreo e com chances legitimas de alcançar o bicampeonato.
Depois de muito minimizar suas chances de título, Dovizioso, enfim, se convenceu de que pode brigar.
“Agora sinto que eu, definitivamente, entrei na briga pelo campeonato”, disse Dovizioso. “Até aqui, eu fazia parte dela, mas sempre com uma dúvida de que cedo ou tarde eu ficaria para traz”, seguiu.
“[Como nós] nunca lutamos pelo campeonato, nossos rivais achavam que não podíamos lutar até o final”, observou. “Mas vencer uma corrida muito diferente, numa pista difícil, sem ser o mais rápido no treino… Agora eles vão nos considerar 100% na luta”, apostou.
Fato. Mais experiente entre os candidatos ao título, Rossi avaliou que chegou a hora de Andrea.
“Depois de tantos anos sem vencer, eu disse a ele que parece que agora ele pegou o gosto”, comentou Rossi. “Me surpreende um pouco, mas ele sempre foi muito dedicado ao trabalho dele e também talentoso, então parece que a hora dele chegou”, avaliou.
Com 183 pontos, Dovizioso tem a menor pontuação de um líder de MotoGP passadas as 12 primeiras etapas do ano. Com três abandonos, Márquez vem nove pontos atrás e com apenas quatro a menos que Viñales, o terceiro. Rossi aparece em quarto, com Pedrosa fechando um top-5 separado por 35 pontos.
“O campeonato é longo. Estou convencido de que até Dani está completamente aberto, porque toda corrida pode mudar tudo”, opinou Dovizioso. “Veja o que aconteceu com Marc. Nas últimas corridas ele construiu uma vantagem e parecia que era o mais rápido, mas domingo ele teve azar. Isso é algo que pode acontecer, então está completamente aberto”, garantiu.
“Mas nós falamos demais de campeonato. Não acho que seja o momento certo”, observou. “Todos têm de dar 100% e tentar conseguir o máximo, porque a diferença de pontos é muito pequena. Seis corridas são muitos pontos, então ainda temos de pensar corrida a corrida”, defendeu.
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