Coluna Parabólica, por Rodrigo Mattar: Um fenômeno chamado Finlândia

Oito finlandeses disputaram GPs de F1, e sete deles conquistaram pelo menos um pódio na categoria máxima do automobilismo mundial. O país, definitivamente, é um fenômeno do esporte

Houve um tempo em que nos acostumamos a ouvir falar que o talento dos brasileiros no automobilismo internacional se devia à água que eles bebiam e os fazia ser campeões em todas as categorias do globo terrestre. Pelo menos, essa era a opinião do tricampeão mundial Jackie Stewart. 

O que o escocês diria, por exemplo, de um país em que água é aquela que passarinho não bebe e que é um fenômeno raro do esporte a motor – principalmente em se tratando de F1? Refiro-me à Finlândia que, mais do que ser a terra de Papai Noel (a lenda diz que o bom velhinho surgiu na Lapônia, que abrange não só aquele país, como também Rússia, Suécia e Noruega), nos oferece um fenômeno poucas vezes visto na história dos esportes motorizados.

Relacionadas

O país de apenas 338 mil km quadrados de extensão territorial e 5,3 milhões de habitantes está nas estatísticas da F1 com números que podem parecer modestos, mas que ao mesmo tempo são impressionantes. Contam-se nos dedos das mãos os representantes finlandeses na F1: são nove no total. Porém, com quatro títulos mundiais conquistados e 46 vitórias de pilotos do país.

O primeiro a ingressar na categoria máxima foi Leo Kinnunen. Fera nas provas de Endurance, tendo sido piloto oficial da Porsche por várias temporadas, ele apareceu na categoria em 1974. Entrou para a história por ter sido o último piloto que usou um capacete ao estilo dos modelos dos anos 60. Fez apenas uma corrida, na Bélgica, em Nivelles. Três anos após, chegou Mikko Kozarowitzky, que vinha de excelentes desempenhos na Fórmula Super Vee europeia. Contudo, carro e equipe não eram grande coisa: Mikko tinha um March 761 particular alinhado pela RAM de John McDonald e seu nome consta apenas dos alfarrábios pela quantidade de ocasiões em que não se classificou para nenhum GP – cinco no total.

Aí veio Keijo Rosberg, ou melhor, Keke Rosberg. Que não é finlandês de nascimento. É sueco. Seu retrospecto no começo da carreira não foi dos mais animadores, porque só guiava “cadeiras elétricas”. Mas o piloto começou a pôr as manguinhas de fora quando guiou na Fittipaldi e, depois de dois anos no time brasileiro, tirou a sorte grande. A Williams enxergou nele qualidades e o contratou. Em 1982, tornou-se o primeiro finlandês campeão mundial de F1. Depois da aposentadoria, radicou-se na Alemanha, montou equipe de automobilismo e teve filho – o hoje líder do Mundial Nico Rosberg. Hoje, Keke é apenas “o pai do Nico” e não o talentoso piloto que nos enchia os olhos nos anos 80.

Keke Rosberg foi o primeiro dos finlandeses a atingir o ponto máximo do esporte a motor (Foto: LAT Photographic)

Mesmo com o título, não houve o que se convenciona chamar de “enxurrada de novos talentos” para invadir o automobilismo como os brasileiros faziam, na esteira dos títulos de Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet – e posteriormente fariam quando veio Ayrton Senna. E enquanto Rosberg se retirava do esporte, três garotos vinham para tentar manter o país no mapa do esporte: Jyrki Jarvilehto, o JJ Lehto, Mika Salo e Mika Häkkinen.

Lehto, mais velho, chegou primeiro ao automobilismo inglês. Com o generoso aporte da Marlboro, em três anos chegou à F1. Estreou na Onyx, fez pódio com o Dallara da Scuderia Italia, foi bem na Sauber, mas não conseguiu ter uma sequência na categoria após um acidente brutal num teste em Silverstone, quando era da Benetton. A carreira do piloto teve uma boa sequência nas provas de Endurance (venceu Le Mans duas vezes) e na Indy, até a aposentadoria, em 2005. Lehto posteriormente se envolveu num acidente seguido de morte, foi preso acusado de homicídio e, depois de julgado, acabou absolvido.

Os “Mikas” Salo e Häkkinen chegaram metendo o pé na porta nos tempos de F3 inglesa, lá por 1990. Enquanto o segundo ganhava a temporada, o primeiro era vice. Mas Salo exagerou na água que passarinho não bebe: com bafo de gambá, foi preso alcoolizado e o RAC cassou-lhe a licença. Enquanto o piloto entrava no limbo, Häkkinen subiu logo para a F1 no ano seguinte. Estreou na Lotus e não demorou a receber uma oferta de Ron Dennis para ser piloto de testes. Virou titular em 1994 e depois seria bicampeão do mundo, aproveitando os maravilhosos carros desenhados por Adrian Newey com motores Mercedes-Benz. Mika deixou a F1 em 2000, chegou a andar no DTM e hoje, esporadicamente, aparece em uma ou outra prova de Grã-Turismo. Seu retrospecto de 161 corridas apresentou 20 vitórias, 26 pole positions, 25 recordes de volta em prova e 51 pódios. Nada mal.

Salo, o do limbo, foi parar no Japão. Corria na Fórmula Nippon quando foi recrutado pela mesma Lotus por onde Hakkinen estreara três anos antes na F1. Da decadente equipe britânica, Salo pulou para a Tyrrell e de lá para times médios, antes de uma curta passagem pela Ferrari, que lhe rendeu dois pódios em 110 presenças na categoria máxima. Depois disso, ele ainda seguiu no esporte e, vez ou outra, ainda é visto em provas de Endurance.

Quando a carreira de Salo e Häkkinen na F1 já tomara outro rumo, chegou outro finlandês com pinta de fenômeno. Kimi Räikkönen foi uma aposta ousada de Peter Sauber, que confiou num então garoto de 20 anos, com 23 provas de F-Renault no currículo, para chegar à F1. O tempo se encarregaria de provar que a aposta fora certeira. Além de rápido, Kimi tornou-se uma personagem folclórica do esporte, mesmo com a excessiva timidez que demonstra – evidentemente quando está sóbrio. Quando se solta, veste-se de macaco em barcos, leva tombos homéricos, se traveste de James Hunt… E tudo isso entremeado por um título mundial conquistado de forma inesperada em 2007 e que o colocou no panteão do esporte. 

Não acabou por aí: Räikkönen se disse “cansado” da categoria e resolveu cair fora ao fim do campeonato de 2009. Andou de Truck Series na Nascar, no WRC, testou Peugeot na Endurance e… voltou. Pela porta da frente, é bom lembrar. Fez ótimos campeonatos pela Lotus, mas parece ter perdido o tesão de guiar, já que o carro da Ferrari é insuficientemente bom para fazê-lo pensar nos bons resultados que alcançou pelo time do carro preto e dourado em 2012 e no ano passado.

Heikki Kövalainen também foi outro que chegou com pinta de fenômeno, após uma passagem de brilho na GP2 Series e derrotar grandes nomes do automobilismo no Race of Champions, um evento que mistura pilotos de asfalto e Rali em provas em circuitos montados em estádios. Kova teve todas as chances do mundo na Renault e na McLaren, mas apagou-se de vez ao mudar para a Lotus que virou Caterham. Pelo menos conseguiu vencer uma corrida e conquistar quatro pódios em 111 participações na F1.

Valtteri Bottas é mais um finlandês que vai escrevendo uma história de sucesso na F1 (Foto: Getty Images)

Como se não bastasse tudo isso, pintou Valtteri Bottas. Campeão da GP3 em 2011, ele foi logo alçado à condição de piloto de testes da Williams – o que causou um mimimi sem precedentes porque o jovem protegido do então dirigente do time britânico Toto Wolff faria diversos treinos de sexta-feira no lugar de Bruno Senna. A pedra no sapato se confirmou: Bottas virou titular, deixou Senna a pé, foi melhor que Pastor Maldonado no ano de estreia e neste ano, seus resultados têm sido superiores aos de Felipe Massa. Não à toa, Bottas soma 55 pontos contra 30 do brasileiro – os números não nos deixam mentir.

E no recente GP da Áustria, Bottas entrou na impressionante estatística finlandesa na F1. Dos oito pilotos que disputaram pelo menos um GP, Valtteri é o sétimo a conquistar um pódio – o 153º de um piloto do país na categoria. Proporcionalmente, são 19,1 pódios por piloto do país.  A título de curiosidade, o Brasil teve 31 nomes na categoria, 288 pódios e a proporção é bem menor que a dos finlandeses – 9,3 pódios por piloto.

A Finlândia mostra que não é só um celeiro de grandes nomes do Rali, feito Markku Alen, Timo Salonen, Hannu Mikkola, Juha Kankkünen, Tomi Makinen, Henri Toivonen, Marcus Grönholm e, principalmente, Ari Vatanen – sem contar Jari-Matti Latvala, Mikko Hirvönen e Juho Hänninen, que ainda continuam em atividade. Outra fera das pistas é Toni Vilander, que conquistou excelentes resultados na Endurance. 

Ou seja: a água que passarinho não bebe, pelo visto, faz muito bem para todos eles.

Chamada Chefão GP Chamada Chefão GP 🏁 O GRANDE PRÊMIO agora está no Comunidades WhatsApp. Clique aqui para participar e receber as notícias da Fórmula 1 direto no seu celular! Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Teleguiado.

📩 NEWSLETTER GP

Assine e receba notícias exclusivas e bastidores das pistas diretamente no seu e-mail!