Opinião GP: Interlagos salva reta final da F1 2022 com ajuda providencial da Mercedes
O GP de São Paulo foi realmente um alívio nesses derradeiros momentos da F1 2022. Não bastasse a classificação com chuva e a histórica pole de Kevin Magnussen, o fim de semana brasileiro da F1 ainda confirmou a recuperação da Mercedes – que proporcionou um resgate de 2021. De fato, não dá para reclamar. Vida longa a Interlagos
INTERLAGOS TEM MESMO UM TOQUE DE MAGIA. Em uma temporada já decidida e irritantemente longa e previsível, o GP de São Paulo foi um bálsamo. O fim de semana brasileiro da Fórmula 1 reservou muitos dos melhores momentos do campeonato, além de marcas que vão entrar para sempre no imaginário dos torcedores. E se por um lado é ponto pacífico que o circuito paulistano não pode jamais deixar o calendário, também é justo dizer que boa parte da diversão vista neste domingo se deu pelo enorme salto de qualidade da Mercedes – que enfim pôde sair do zero em 2022 e celebrar a primeira vitória, com direito a dobradinha.
A performance da esquadra oito vezes campeã foi uma surpresa. É claro que havia alguma expectativa após o desempenho apresentado nos EUA e no México, muito embalado por uma combinação de fatores: o último grande pacote de atualizações levado para Austin, além da alta altitude da Cidade do México, que impactou diretamente no arrasto aerodinâmico que tanto incomoda o W13. Acontece que Interlagos acabou por juntar esses elementos de maneira surpreendente, mas foi também o delicado acerto do carro prata que fez a diferença. A equipe alemã pouco sofreu com a mudança de temperatura, encarou pouco desgaste de pneus e ainda foi capaz de lidar melhor com o downforce nos trechos mais seletivos do traçado. Mas é possível listar outros pontos para explicar a conquista alemã.
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Enquanto a Mercedes cumpriu de forma perfeita todas as fases do fim de semana, a rival Red Bull encarou a primeira derrota desde o GP da Áustria, no início de julho. O caso é que os taurinos tiveram grandes dificuldades para fazer os pneus funcionarem na janela correta – a degradação do composto médio, de fato, foi inesperada, especialmente porque o time não conseguiu tirar proveito da instabilidade no clima ao longo dos dias em São Paulo.
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“Estávamos muito lentos. Tivemos os mesmos problemas no domingo e no sábado. O carro estava saindo de frente, e isso afetou demais os pneus, então foi difícil atacar”, reclamou Max Verstappen.
Além disso, outra coisa que também intrigou os rivais dos energéticos: a extrema velocidade final do RB18 não foi tão decisiva quanto em outros momentos da temporada. Então, por um lado mais técnico, a queda de rendimento também abriu caminho para a Mercedes, que, de fato, como previu George Russell foi capaz de ser perfeita em seu melhor dia em 2022.
“A vitória só vem se tivermos o melhor dia e fizermos tudo certo e nossos adversários tiverem um dia ruim e cometerem erros.” Dito e feito. E com direito a uma apresentação de gala do jovem inglês.
“O ano tem sido uma longa jornada. Que [belo] resultado hoje ao colocar os dois carros lá em cima. Além disso, vitória brilhante para George também. Estou absolutamente satisfeito”, afirmou Andrew Shovlin, que fez liderou o time no lugar do chefe Toto Wolff.
“Não mudamos nada, é literalmente o mesmo carro que tivemos semana passada, em Austin [quando houve a última atualização da temporada]. Parece funcionar muito bem aqui, acho que as corridas sprint oferecem um desafio real e queríamos apenas preparar os carros, algo em que engenheiros e pilotos fizeram um trabalho brilhante”, seguiu.
Como se não bastasse tudo isso, o surpreendente desempenho da equipe alemã ainda rendeu outra grande história: provou que a rivalidade entre Verstappen e Lewis Hamilton segue muito forte. Enquanto Russell controlava a corrida desde a liderança, Hamilton tentava se aproximar do colega de equipe. Já Max vinha escalando o pelotão.
Após o período de safety-car, os dois campeões entraram juntos no S do Senna. Verstappen mergulhou por dentro na segunda perna, mas Hamilton endureceu a disputa. O toque foi inevitável. O incidente prejudicou a corrida de ambos – Max precisou de um pit-stop extra, enquanto Lewis teve de reajustar o carro.
As palavras dos dois no pós-corrida ainda deixaram claro que ainda há negócios inacabados. Sobre a manobra do oponente, o heptacampeão disse: “Sabemos como ele é [nessas situações]. Já o holandês disparou: “Não tinha a intenção de deixar espaço.”
Quer dizer, após essa performance genuína, se a Mercedes for capaz de ampliar a evolução do projeto de 2023, a chance de uma reedição da temporada 2021 será uma realidade. E não deixa de ser emblemático que tudo isso tenha começado no Brasil.
Há ainda mais um fator a tirar do GP de São Paulo: a possibilidade de um duelo interno na Mercedes. Impecável, George não deixou brechas para uma aproximação de Hamilton, mas, no fim da prova, quando o último SC saiu da frente do pelotão, o britânico consultou a equipe sobre o aconteceria. E até se surpreendeu com a resposta de que ambos estavam livres para brigar. No final, nem houve uma disputa, mas foi o bastante para acender uma luz. “Sei o quão rápido Lewis pode ser, então tive que fazer dez voltas de classificação seguidas e permanecer absolutamente impecável”, explicou o vencedor.

A temporada para a Mercedes ainda tem um último desafio: bater a Ferrari pelo vice-campeonato. É uma tarefa árdua, porque a diferença é de expressivos 19 pontos. No entanto, a cor mais quente nesse momento é o prata.
Por fim, é importante destacar que a rodada brasileira também rendeu episódios valiosos, como a emocionante pole de Kevin Magnussen, as tretas internas na Alpine e, especialmente, na Red Bull – Verstappen se furtou a entregar posição para Sergio Pérez, e isso colocou fogo nos boxes taurinos. As cenas dos próximos capítulos também devem ajudar a elevar a nota desta temporada que careceu de boas histórias. Sorte da F1 que ainda há Interlagos.
A F1 encerra a temporada com o GP de Abu Dhabi já na semana que vem, entre os dias 18 e 20 de novembro.
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