Fórmula 1 estraga formato da sprint com regulamento falho e pista errada para teste

A Fórmula 1 inaugurou o formato da corrida sprint independente com classificação própria neste sábado (29) no Azerbaijão. Como era esperado, tanto a disputa por posições no grid quanto a prova em si se mostraram problemáticas de diversos pontos. E carece de uma revisão séria e urgente. Ou vai sucumbir. O que seria ótimo

Como desgraça pouca é bobagem, a Fórmula 1 foi capaz de estragar um formato de disputa que já era muito problemático. O teste conduzido no Azerbaijão neste sábado (29) expôs a fragilidade do regulamento e deixou um ar de desleixo que parece dar o tom das decisões tomadas por quem comanda o campeonato e por quem deveria zelar por ele. A corrida sprint independente com uma classificação própria não acrescentou nada ao fim de semana, exceto uma briguinha de trânsito entre Max Verstappen e George Russell, gastos a mais com reparos e muito trabalho para os mecânicos. Assim como o modelo adotado, a escolha da pista também foi desastrosa e vai mascarar uma percepção mais realista.

O primeiro ponto de desacordo com essa sprint é o fato óbvio de que não interfere em nada na corrida de domingo. Inicialmente, quando a F1 pensou nesse recurso, o objetivo era criar uma disputa mais aberta pelas colocações do grid e evitar a terrível previsibilidade do Mundial. Não deu certo, é verdade. Apenas o GP de São Paulo entregou corridas interessantes. Porém, cabia um pouco mais de reflexão sobre o uso desse elemento extra nos fins de semana. Desta vez, ao separar a sprint do GP e promover uma segunda classificação, a razão de ser da prova curta morreu de vez. Mas piora, porque o regulamento especial do formato em Baku tornou tudo mais obtuso.

Relacionadas

A regra impôs a utilização de jogos novos de pneus para a definição extra do grid. E ainda determinou quais compostos deveriam ser usados. Cada piloto tem direito a 12 sets (dois de compostos duros, quatro de médios e seis de macios). Para a classificação da sprint, o regulamento estabeleceu que era preciso utilizar obrigatoriamente pneus médios nas duas primeiras fases, enquanto na parte decisiva as equipes deveriam instalar os macios. Só que, com a classificação de sexta-feira sendo mais importante porque vale para o GP, alguns pilotos utilizaram todos os macios, como foi o caso de Lando Norris — que acabou ficando fora do Q3 deste sábado. Vale dizer que os acidentes durante a decisão da pole do GP do Azerbaijão também tiveram papel fundamental sobre a gerência dos pneus pelas equipes. Portanto, algo sem sentido do ponto de vista esportivo e também levando em conta o caráter experimental do formato.

Ainda, por conta do sistema, a F1 perdeu um treino livre. E na única sessão do fim de semana, as equipes tentaram se preparar para a corrida do domingo. De novo, a questão dos pneus ficou exposta: houve quem usasse mais jogos, como a Ferrari, por exemplo. Dentre as suas adversárias, é a única que tem jogo de duros a menos para a prova de amanhã. Curiosamente, a equipe italiana é a que mais se aproximou da poderosa Red Bull em Baku. Ou seja, a competitividade está comprometida apenas porque ninguém pensou que, se o evento da sprint é independente, então que a escolha dos pneus também deveria ser, assim como a quantidade de jogos disponíveis.

Então, a mensagem que fica é que a F1 não se preparou para esse formato. Não houve uma deliberação plena. A escolha do circuito de Baku também foi igualmente errônea. O traçado azeri é traiçoeiro e chama acidentes — afinal, é uma pista de rua e, como tal, não dá margem para erros. Dessa forma, não é surpresa que muitos pilotos tenham encarado a sprint como um ‘treino com pontos‘ ou uma oportunidade de ‘coletar dados’. A meta foi não correr risco. Então, ora, se não é para correr riscos ou tentar algo diferente, qual é o sentido?

Verstappen definiu bem o cenário: “Gosto de correr, é importante ter entretenimento, mas acho que se todos os carros estiverem próximos o suficiente, é melhor. Parece uma partida de futebol, em que você está vencendo por 3 a 0 e, do nada, muda-se para um jogo zero a zero e começa de novo. Acho isso desnecessário”, ressaltou o bicampeão.

E foi além: “Fiquei entediado durante a classificação de hoje. Pensei ‘meu Deus, mais uma classificação’. Simplesmente não gosto disso. Não é uma corrida adequada e, sim, um jogo que teria mais sucesso em Las Vegas se fossemos ao cassino.”

A impressão de Max é compartilhada por seus rivais. Segundo colocado na sprint deste sábado, Charles Leclerc chamou a atenção para a regra dos pneus. “Cada volta que você faz é muito importante e, com menos preparação, as simulações de corrida são extremamente importantes. Por mim, mudaria a regra dos novos pneus macios no SQ3, foi uma pena não ver Lando [Norris] na pista porque faltou um novo jogo de compostos para poder melhoras esses fins de semana”, disse o monegasco.

Há também uma preocupação de que esteja nos planos da F1 tornar esse formato parte de todo o campeonato. A ideia foi rechaçada pelo vencedor da sprint, Sergio Pérez. “Não queremos que isso se torne um fim de semana padrão. Para os fãs, é importante que vejam como crescemos durante as sessões e é assim que deve permanecer. Se tivermos três ou quatro provas como está e, corrigindo detalhes como o tempo e uso de pneus, pode ser uma boa”, ressaltou o mexicano.

De fato, é isso. O formato fracassou por diversos elementos: da escolha da pista à regra esdrúxula dos pneus. A corrida foi medonha. Mas também é importante colocar aqui o papel da F1, da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e das equipes. Todos concordaram com esse sistema, sem um estudo maior — haja vista que a definição do fim de semana foi aprovada e publicada três dias antes dos carros tomarem as ruas de Baku. Só por isso há algo muito errado. E mais uma vez, a busca pelo espetáculo a qualquer preço pesou mais que o lado esportivo.

▶️ Inscreva-se nos dois canais do GRANDE PRÊMIO no YouTube: GP | GP2
▶️ Conheça o canal do GRANDE PRÊMIO na Twitch clicando aqui!

Ao fim e ao cabo, a Fórmula 1 não precisa de corridas sprints e mais sessões de classificação. São “emoções artificiais”, como bem disse Verstappen. O problema está além disso: ou se aceita que o campeonato possui diferenças técnicas significativas e que é preciso revisá-las, seja por meio de um regulamento mais amplo, seja por limites orçamentários mais severos, ou será difícil de conter o vexame a cada invenção. A receita é simples.

“Apenas descarte tudo. Acho importante voltar ao que tínhamos e garantir que todos os times possam lutar pela vitória, é isso que temos de almejar ao invés de implementar emoções artificiais.”

Corretíssimo o líder do campeonato.

GRANDE PRÊMIO acompanha AO VIVO e EM TEMPO REAL todas as atividades do GP do Azerbaijão de Fórmula 1. No domingo, a largada está marcada para 8h (de Brasília, GMT-3).

Chamada Chefão GP Chamada Chefão GP 🏁 O GRANDE PRÊMIO agora está no Comunidades WhatsApp. Clique aqui para participar e receber as notícias da Fórmula 1 direto no seu celular! Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Teleguiado.

📩 NEWSLETTER GP

Assine e receba notícias exclusivas e bastidores das pistas diretamente no seu e-mail!