Prefeitura de São Paulo aceita prejuízo de R$ 100 milhões ao ignorar venda de cotas da F1
A Prefeitura de São Paulo possui quatro cotas publicitárias para a etapa da Fórmula 1 em Interlagos. Nos últimos dois anos, porém, abriu mão de vendê-las e, com isso, precisou gastar para cumprir a taxa paga à categoria
O GP de São Paulo de Fórmula 1 é visto pela Prefeitura de São Paulo como um dos maiores impactos econômicos gerados pela cidade, com números divulgados que chegam a R$ 1,64 bilhão ao longo dos três dias de evento no caso de 2023. Mas a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) também deixou de fazer caixa ao não comercializar quatro cotas publicitárias nas últimas duas temporadas que somam cerca de impressionantes R$ 100 milhões.
De acordo com o blog Olhar Olímpico, do jornalista Demétrio Vecchioli, as cotas são parte do acordo assinado no fim de 2020 e foram arquitetadas como solução pelo então governador João Doria (PSDB na época e hoje sem partido) para que a prefeitura não passasse do valor que estava disposta a arcar. Na ocasião, a F1 pediu US$ 25 milhões — pouco mais de R$ 123 milhões na cotação atual — de taxa para realização do evento em São Paulo. O ex-prefeito Bruno Covas (PSDB) — de quem Nunes era vice — aceitou pagar US$ 15 milhões — aproximadamente R$ 74 milhões, atualmente. O restante, segundo o acordo, seria bancado pelo governo estadual, que revenderia as cotas para empresas interessadas em participação na corrida.
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Mas o município abriu mão do negócio e deixou de arrecadar até R$ 100 milhões, que poderiam ser usados para abater parte dos custos que possui com a categoria.
Desta feita, as responsabilidades contratuais do GP de São Paulo estavam a cargo da prefeitura, mas com o compromisso do estado ajudar nas despesas da seguinte maneira: assumir os US$ 10 milhões restantes — cerca de R$ 49 milhões na cotação atual — a cada ano e repassar os valores para a iniciativa privada por meio de quatro cotas publicitárias. Caso não conseguisse chegar aos US$ 10 milhões, ficava com a dívida, garatindo que a prefeitura de fato gastasse um teto de US$ 15 milhões anuais para ter o evento.

Para o primeiro evento do novo contrato, em 2021, o então governador Doria cumpriu o acordo inicial e afirmou que pretendia arrecadar R$ 32 milhões com as quatro cotas e que as dividiria nas categorias Ouro, Prata e Bronze — apesar de todas, por contrato, terem as mesmas propriedades, segundo o blog. A Raizen — empresa do setor de energia renovável e combustíveis — chegou a comprar uma cota ouro no primeiro ano por R$ 10 milhões, enquanto Fortesec e a Fundação 25 de Janeiro (São Paulo Convention & Visitors Bureau) adquiriram as cota Bronze por R$ 4 milhões cada. Assim, no primeiro ano, o estado recuperou pouco menos de 1/3 do valor pago à prefeitura.
Acontece que, desde então, sob a gestão de Ricardo Nunes, a prefeitura deixou de procurar o estado para repassar os cerca de R$ 49 milhões e vender as cotas publicitárias em 2022 e 2023. Segundo apuração do Olhar Olímpico, as administrações tanto de Rodrigo Garcia (PSBD) em 2022 quanto de Tarcísio Freitas (Republicanos) em 2023 — governadores do período — afirmam que não foram procuradas para honrar o acordo traçado em 2020.
Apesar de ter, segundo estipulado pelo contrato, a prerrogativa de organizar ela própria a venda das cotas, a prefeitura sequer colocou à venda por conta própria nos últimos dois anos. Assim, embolsou um prejuízo de US$ 20 milhões — R$ 99 milhões — enquanto a Raizen, parceira de 2021, teve de procurar a F1 diretamente para comprar com ela uma das cotas de publicidade do evento. Acabou fazendo uso dos benefícios das companhias que, porventura, comprassem as cotas: o direito de expor placas de grande visibilidade na cobertura dos boxes e reta de largada, por exemplo, além de 80 ingressos de hospitalidade do Paddock Club VIP, 400 ingressos de arquibancada e um espaço de 800 m² para ativação publicitária na Fan Zone.
O contrato da Prefeitura de São Paulo com a Fórmula 1 foi firmado e possui a empresa privada MC Brazil Motorsports, cujo nome fantasia é Brasil Motorsport, com ‘s’, como promotora do evento. E já rendeu até mesmo um pedido de CPI na Câmara Municipal, com vereadores pedindo investigações sobre o negócio realizado e os motivos para o acordo milionário ter sido feito sem contrapartidas.
Com sede física no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, a empresa acertou o acordo com um valor anual de R$ 20 milhões para a realização do GP de São Paulo de F1 e, além disso, fica com os valores de bilheteria e gerados no paddock ao longo do fim de semana. São coisas que, na prática, nada geram para a prefeitura. Alan Adler, ex-atleta olímpico, é o diretor da MC Brazil Motorsport Holdings e promotor da corrida desde 2020, substituindo o histórico nome de Tamas Rohonyi.
Ao GRANDE PRÊMIO, a Prefeitura de São Paulo afirma que os contratos de patrocínio citados pela reportagem não foram renovados para as últimas edições do evento. Eles também negam que o município teve prejuízos financeiros com a operação.
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