Bahrein testa Bortoleto e novatos e prova que caminho de aprendizado na F1 será longo
Com direito a esquisitices, os testes coletivos no Bahrein ofereceram a cada um dos novatos do grid da Fórmula 1 pequenas pílulas do que virá por aí nas 24 corridas da temporada 2025, mas é sempre importante lembrar que Gabriel Bortoleto e companhia só precisam de uma coisa: tempo
O Bahrein abriu as portas para a temporada 2025 da Fórmula 1 e trouxe muito mais esquisitices do que de costume, é verdade, mas ainda que os fatores extrapista tenham tentado roubar a atenção das equipes do grid, as seis sessões que aconteceram na última semana foram especialmente importantes para cinco pilotos que já tiveram alguns pequenos spoilers do que deve vir por aí já na Austrália, etapa de abertura do campeonato. Por essa mesma razão que Gabriel Bortoleto, Andrea Kimi Antonelli, Jack Doohan, Isack Hadjar e Oliver Bearman buscaram adquirir o máximo de quilometragem, ainda que tudo que se tente analisar agora seja muito circunstancial até a primeira classificação.
Claro que ainda há nessa lista Liam Lawson, mas as 11 corridas realizadas por ele em 2023 e 2024 de certa forma o colocam em um patamar, digamos, intermediário na comparação com os demais novatos. O mesmo, aliás, poderia ser aplicado a Bearman, que disputou três GPs no ano passado — um deles com a Ferrari, o que certamente rendeu o carimbo no passaporte para a F1 —, mas isso é absolutamente nada perto do que uma temporada inteira na maior categoria do automobilismo mundial pode proporcionar.
E ela oferece de tudo: desafios, lições, erros, acertos, experiência. Os próprios testes coletivos no Bahrein já trouxeram a cada um dos jovens que debutam na F1 2025 a intensidade que inunda um fim de semana de corrida. A imprevisibilidade também deu o ar da graça no apagão no primeiro dia e na chuva no segundo, enquanto Bortoleto e companhia cumpriam o cronograma de seus respectivos times, sempre sob o olhar atento dos companheiros já veteranos.
Gabriel viveu a concretização de um sonho, agora para valer. Dividiu o trabalho da Sauber com o competente Nico Hülkenberg, adição mais que necessária para a base em Hinwil em 2025, ano importante de transição até a chegada da Audi, em 2026. Foi tudo incrível, um feito a ser celebrado, mas a realidade já bateu sem dó nem piedade no dia final das atividades em Sakhir. Primeiro, um vazamento hidráulico que tomou muito tempo na sexta-feira. Depois, ao retornar à pista para mais um stint, danificou o assoalho.
“Com certeza terei problemas na F1, porque é muito diferente, tem muitas coisas, mas espero tentar minimizá-los o máximo possível e me adaptar rapidamente”, disse Bortoleto ao site Planet.F1 durante os testes coletivos. Ele ainda lembrou que passou pelo mesmo na F2, mas que confia na rápida adaptação.
No caso de Antonelli, apesar do peso sempre presente de substituir Lewis Hamilton na Mercedes, já é possível dizer que a cobrança será muito maior sobre o outro carro prateado, o de George Russell, do que o dele. Mas foi interessante observar do que o italiano, tido como um verdadeiro fenômeno do esporte a motor depois de varrer categorias de base por onde passou, poderá ser capaz de fazer. Líder no primeiro dia, pela manhã, e presente entre os três mais rápidos no seguinte, ficou nítido que Kimi é, de fato, um piloto muito rápido.
Lógico que testes coletivos não devem jamais ser analisados sob a ótica crua da tabela de tempos. Isso, na verdade, é o que menos importa, porém tem a sua parcela de significância, ainda mais quando se trata de um piloto tão jovem quanto Antonelli. Mas não se enganem: foi possível notar que ele padecerá dos mesmos problemas vistos no início da F2, no ano passado, até pegar a manha e ter consistência. O entendimento dos pneus será mais uma vez o ponto chave, e as fritadas aqui e ali deixaram claro que será preciso cuidar com muito carinho dessa parte. Mesmo assim, nada que o tempo adequado não resolva.
“Obviamente, ainda temos algum trabalho a fazer para entender o carro e os pneus. Mas, no geral, acho que fizemos um bom trabalho. Na noite passada, completei uma distância de corrida de uma vez só e foi muito legal. Foi um teste positivo”, declarou depois do último dia no Bahrein.
Do lado de Doohan, acontece exatamente o contrário quando o assunto é pressão — aliás, um pequeno parêntese para o trailer da nova temporada de Drive to Survive, a série documental da Netflix sobre a F1, e a ameaçadora frase de Flavio Briatore dizendo que o controla por completo. Só que, no fundo, é bem por aí, e não é preciso assistir a nenhum capítulo do seriado para saber que Jack depende somente de si para sobreviver.
A boa notícia é que a Alpine mostrou alguma direção certa quanto ao ritmo. Pierre Gasly, o experiente da dupla, mostrou-se satisfeito por ao menos o carro fazer o básico que se espera para que haja desenvolvimento: responder aos comandos dados no volante. Doohan também se disse feliz por ter passado pelos três dias ileso a problemas, ainda que, claro, não tenha ficado imune às escapadas aqui e ali, porém sem algo realmente comprometedor.
“Três dias tranquilos, sem problemas, e o carro funcionou bem a semana toda, o que nos permitiu fazer muitas voltas e percorrer bastante quilometragem. Coletamos muitos dados valiosos e, do ponto de vista pessoal, adquiri alguns conhecimentos úteis para aplicar na Austrália, na primeira corrida. As condições estiveram variadas a semana toda, mas isso é bom para nos colocar à prova”, avaliou o jovem.
Hadjar também não comprometeu e fez o que era para ser feito nas sessões em que participou: deu voltas na pista. A Racing Bulls foi a terceira no ranking de quilometragem adquirida, perdendo apenas para Haas e Mercedes, e o francês celebrou o fato de ter realizado uma simulação de corrida de 57 voltas pela primeira vez na carreira. “Fomos bem em long runs, mas ainda há trabalho a fazer no stint curto para extrair o máximo do carro em volta única”, pontuou. Hadjar é, sem dúvida, dos estreantes que mais merecem atenção, pois é em quem a Red Bull aposta para o futuro, muito mais que o próprio Lawson.
Por fim, Bearman é o que talvez tenha mais razões para se preocupar, já que a Haas, que foi uma das gratas surpresas da ‘F1 B’ em 2024, pareceu andar para trás no meio do deserto. Do nada, o carro dele se desmanchou, com a cobertura do motor ficando pelo meio do caminho no dia 3, problema que tomou um tempo precioso na busca por quilometragem. Fazendo uma comparação muito superficial, passa a sensação de uma inglória briga contra a Sauber na rabeira da fila, ao menos no começo da temporada.
“Estou me sentindo confiante e confortável e tentamos algumas coisas que funcionaram. É difícil dizer onde estamos, não fizemos muito trabalho com pouco combustível, mas acho que o carro está se saindo bem — só não quero atrair azar falando isso”, disse Bearman depois do encerramento da pré-temporada.
As respostas começarão a ser dadas a partir de 14 de março, nos treinos livres em Melbourne, mas é sempre importante lembrar que todos eles possuem o benefício da dúvida pelo ano de estreia. E a primeira corrida ser num circuito com características urbanas, que costuma ser traiçoeiro até com os cascudos, pode passar falsas impressões de ordem de forças ou mesmo sobre o que esperar dali em diante. No mais, a única coisa que agora interessa para cada um é isso: tempo de aprendizado.
A Fórmula 1 agora retorna dos dias 14 a 16 de março para o GP da Austrália, etapa de abertura da temporada 2025. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO e EM TEMPO REAL.
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