GUIA 2025: Fórmula 1 inicia com muito barulho e pouca ação em embate FIA × pilotos

Não pode falar palavrão, senão é arriscado perder até pontos no campeonato, diz o Código Esportivo Internacional da FIA, mas enquanto os pilotos manifestam descontentamento aos microfones da imprensa, é muito difícil crer que alguém, de fato, vai peitar a entidade e ligar o "foda-se" na Fórmula 1

Se tem uma coisa que a gestão de Mohammed Ben Sulayem à frente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) mais fez nos últimos meses foi ganhar manchetes pelas coisas mais banais possíveis e com zero relação ao esporte, sobretudo a Fórmula 1. Desde o frenesi causado em 2022 por conta de piercings e cuecas (!) até a gota d’água dos palavrões, o relacionamento entre os pilotos e a federação foi ficando cada vez mais dicotômico, mas engana-se quem acredita que 2025 vai trazer uma versão mais proletária dos competidores, munidos de protestos e ações que realmente obriguem a FIA a rever algumas normas recentes incluídas no código esportivo.

A constatação pode parecer um pouco precoce, já que a F1, por exemplo, começa para valer neste fim de semana, mas é a impressão que deixa desde que a primeira declaração oficial da Associação dos Pilotos de Grand Prix (GPDA), presidida por Alexander Wurz e dirigida por George Russell, após a homologação das punições ao palavrão foi que “o melhor a se fazer era não xingar”. Enquanto isso, o estilo ditatorial de Ben Sulayem vai ganhando cada vez mais força.

Tudo começou no fim de janeiro, quando a FIA divulgou mudanças no código esportivo internacional (ISC, sigla em inglês), com parâmetros mais duros com relação a conduta e postura. Os exemplos do que seriam má conduta aparecem no artigo 12.2.1 do código esportivo. Uma multa de € 10 mil (R$ 62 mil, na cotação atual) na primeira incidência está fixada para “uso de palavras, ações ou escrita que causem lesão moral ou perda para a FIA, seus órgãos e executivos, mais especificamente sobre o interesse do esporte a motor e nos valores defendidos pela Federação”, “má conduta”, “demonstrações políticas e religiosas”, “desrespeito a instruções sobre a participação de cerimônias oficiais”.

Para a F1, os valores das infrações podem quadruplicar, chegando a € 40 mil (R$ 247 mil). Uma segunda incidência renderá uma multa de € 80 mil e suspensão de um mês, enquanto uma terceira resultará em multa de € 120 mil (R$ 742 mil) e dedução de pontos no campeonato.

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Mohammed Ben Sulayem é o presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) (Foto: AFP)

A multa até vai, mas se for levado em conta que o calendário da F1 possui meses com corridas em praticamente todos os fins de semana, trata-se de uma punição desmedida e que traria interferência direta no campeonato, o que deveria acontecer somente em reação a atitudes antidesportivas.

É claro que, do lado dos pilotos, há o intuito de pregar uma união “como nunca”, já que a gestão da FIA só contribui para isso — ano passado, por exemplo, praticamente virou meme ver Lewis Hamilton afirmando à imprensa que, se fosse Max Verstappen, um dos grandes rivais que tem na pista, não prestaria o serviço comunitário imposto por proferir um simples “fodido” para se referir ao pobre RB20. Quem além do presidente da federação que rege o esporte seria capaz de unir óleo e água assim?

Nesse ponto, Russell tem razão ao defender a união dos pilotos, mas é preciso muito mais do que simples palavras aos microfones do jornalistas. Ali, o embate FIA × pilotos vai continuar existindo, mas sem uma atitude, serão somente aspas do tipo “lamento”, “absurdo”, “revoltante”, só que sem a revolta propriamente dita. Porque isso não é do feitio de nenhum deles.

Aliás, é de um, sim, e ele fez isso quando foi escolhido para ser bode expiatório da patacoada: Verstappen. A atitude depois do GP de Singapura ao dar respostas vazias aos jornalistas dentro da sala de imprensa da FIA — eles são obrigados a cumprirem tal agenda — e atendê-los do lado de fora deveria ter sido adotada pelos demais colegas. Isso seria uma resposta e tanto à mordaça imposta por Sulayem, mas o próprio neerlandês esticou o protesto por pouco tempo.

Agora, a união atual sugerida por Russell também pode ser vista sob outro prisma: a de que os pilotos, na verdade, estão sozinhos, portanto dificilmente se rebelariam contra uma normativa da FIA sem o respaldo de suas respectivas equipes. George mesmo teve de engolir o chefe da Mercedes, Toto Wolff, dizer que parar com os palavrões “será positivo”.

É aquilo, ninguém quer se indispor com ninguém, muito menos com a pessoa que manda e desmanda no órgão que regula o esporte. Portanto, o melhor a se fazer é treinar o cérebro para soltar um “sai da frente, seu bobão” para todos ficarem felizes.

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