Red Bull se vê em desafio da vida para acertar carro com objetivo único: segurar Verstappen
Se a Red Bull tem duas poles, uma vitória e dois segundos lugares na temporada 2025 da Fórmula 1, agradeça totalmente a Max Verstappen, que é a pessoa que impede a equipe de brigar no meio do pelotão. Mas isso é muito pouco, e sem um carro competitivo, o neerlandês até não se importaria de tirar uma folga prolongada para curtir o nascimento do primeiro filho
Esqueçam o Mundial de Pilotos ou de Construtores de 2025 no que diz respeito puramente aos títulos. Nesse momento, não são essas conquistas em si que vão mover a Red Bull nas próximas semanas em busca de melhorias capazes de transformar o RB21 em um carro vencedor. Daqui para frente, e com um prazo bem mais curto que o esperado, os taurinos terão de fazer das tripas coração para entregar nas mãos de Max Verstappen um equipamento que o convença de que ali ainda é o melhor lugar para se estar no grid da Fórmula 1. E é justamente por ser esse o principal objetivo da cúpula liderada por Christian Horner que tudo se torna ainda mais desafiador — e preocupante.
Não é exagero, portanto, dizer que a Red Bull nunca se viu diante de um obstáculo tão difícil de ser transposto, e Verstappen tem créditos de sobra para se colocar em tal posição. Ora, sejamos francos: com o carro atual que possui na temporada, estaria isolada como quarta força, à frente da chamada ‘F1 B’ com alguma folga, porém distante de ser considerada ameaça real a Ferrari e Mercedes. Se o RB21 conquistou duas pole-positions, uma vitória e dois segundos lugares em cinco corridas realizadas no ano, é por mérito total de Max.
A questão, no entanto, é que os problemas da Red Bull são bem mais graves, e isso falando puramente do carro — os bastidores também perecem, mas ainda não a ponto de serem decisivos em uma saída de Verstappen da equipe. Tudo começou no momento em que Adrian Newey decidiu deixar o barco em meio ao escândalo que colocou Horner no olho do furacão ao ser acusado de conduta inapropriada por uma funcionária. O caso não deu em nada, já que o chefe foi inocentado, porém balançou a peça que deu início ao efeito dominó dentro da equipe.
Newey se afastou do trabalho na F1 no ano passado, ainda em Miami, e, coincidência ou não, a Red Bull começou a ver a performance do antes versátil carro cair consideravelmente. As atualizações já não respondiam mais, e Verstappen começou a sentir o controle do RB20 escapar das suas mãos, cada vez mais instável nas entradas de curvas e sensível aos ataques nas zebras.

Veio, então, o RB21, “o primeiro carro sem Newey“, enfatizou Horner, mas ainda havia, sim, o apuro técnico dele ali, pois se tratava de uma evolução do modelo anterior, que teve a assinatura do engenheiro britânico. E sem ele nas garagens para destrinchar a engenhoca, a Red Bull se deparou com um dos piores problemas que uma equipe pode ter no desenvolvimento de um projeto: o erro de correlação.
Hoje em dia, um carro de Fórmula 1 é todo criado nos túneis de vento e também conta com a dinâmica de fluidos computacional (CFD, do inglês) como ferramenta crucial para entender o comportamento do fluxo de ar, essencial para o trabalho aerodinâmico. Além disso, os pilotos passam horas e horas em simuladores, já que os testes físicos são limitados à pré-temporada, portanto é a forma de levar para a ‘pista’ os dados obtidos no processo de desenvolvimento na fábrica.
O erro de correlação acontece quando os resultados fornecidos pelo simulador não são vistos na prática. Em outras palavras, a equipe acredita ter encontrado uma linha de evolução e espera um resultado x, mas quando o piloto coloca o carro para valer em ação, a telemetria mostra um dado y.
Este foi exatamente o drama que a Mercedes viveu assim que o regulamento atual, com a volta o efeito-solo, passou a valer na categoria, em 2022. Certa de que havia feito a mudança do século com o famigerado ‘zeropod’ por causa do que túnel de vento havia mostrado, penou por longas três temporadas até finalmente ter nas mãos um projeto muito mais estável e moldável, que hoje a coloca à frente da Red Bull como segunda força.
“Nosso túnel de vento é uma relíquia da década de 1940 e foi construído pelo exército. Embora tenha sido modificado várias vezes, ainda tem a desvantagem de ser muito longo e ter tubos de concreto visíveis. Quando está frio ou quente do lado de fora, é difícil atingir as temperaturas necessárias”, explicou recentemente Helmut Marko.
“O novo túnel de vento está em construção e deve ficar pronto em 2026. Os erros de correlação que mencionei às vezes eram muito irritantes no ano passado e temos trabalhado neles. Mas não sabemos exatamente onde ele está”, continuou o consultor.

A situação da Red Bull é, sim, dramática, pois é um problema que demanda tempo. No Japão, por exemplo, a equipe deslocou o piloto de testes Rudy van Buren para o simulador antes de virar o carro “ao contrário” para dar a Verstappen a chance de brigar por pole e vitória. Deu certo, porém o mesmo não aconteceu na etapa seguinte, no Bahrein.
Sakhir, que é a pista oficial dos testes coletivos, aliás, eclodiu nova crise porque escancarou a diferença de performance entre Red Bull e as rivais diretas, Ferrari e Mercedes, uma vez que a McLaren está bem descolada à frente. Como se não bastasse o carro, a equipe abusou dos erros nos boxes, e Verstappen foi somente sexto colocado. Nem mesmo os pontos de Yuki Tsunoda foram suficientes para evitar reuniões emergenciais e discussões acaloradas flagradas no paddock.
Veio, contudo, de Marko a declaração mais alarmante, ao dizer que “precisa haver melhorias em um futuro próximo, para que Max tenha um carro com o qual possa vencer”. Muito se especula que uma das cláusulas que liberam Verstappen do contrato atual está condicionada à performance do RB21. Ele poderia, portanto, deixar a equipe taurina se chegasse a determinado ponto do campeonato abaixo do segundo lugar. É o terceiro atualmente, ainda que a desvantagem seja pouca (87 contra 99 do líder Oscar Piastri).
Só que o prognóstico está longe de ser favorável, principalmente com os dois pilotos da McLaren dominando este começo de temporada. Há, todavia, pequena luz no fim do túnel com a diretiva técnica que entrará em vigor no GP da Espanha para regular a flexão das asas dianteiras. Muitos acreditam que este será um ponto de virada no campeonato, porém de nada vai adiantar se a Red Bull continuar perdida no entendimento do próprio trabalho.
E sem um carro vencedor, Verstappen não se importaria até de tirar uma folga prolongada para curtir com tempo de qualidade o nascimento do primeiro filho.
A Fórmula 1 volta de 2 a 4 de maio em Miami, primeira corrida da temporada 2025 nos Estados Unidos.
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