Em uma época muito diferente dos tempos atuais, a temporada inaugural da Fórmula 1, realizada no longínquo ano de 1950, ficou marcada na história por causa das características próprias do automobilismo daquela época. Os carros simples do período pré-guerra e a presença ilustre da família real mostram o glamour de um esporte que arrasta uma multidão de apaixonados há 75 anos

Considerada a categoria mais importante do automobilismo mundial, a Fórmula 1 está completando nada menos que 75 anos de história nesta terça-feira, 13 de maio. Ao longo das sete décadas e meia de existência, nomes importantes como Ayrton Senna, Michael Schumacher, Alain Prost, Juan Manuel Fangio, Lewis Hamilton, Max Verstappen, Jackie Stewart, Jack Brabham, Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi, Niki Lauda e Alberto Ascari, além de tantos outros, desfilaram pelas pistas ao redor do globo.

Ainda que os pilotos sejam frequentemente alçados ao mais alto nível de protagonismo dentro do esporte, as equipes, claro, também escreveram capítulos interessantes e marcaram gerações. Embora a Ferrari obtenha o direito de se sentar no trono de maior símbolo do Mundial, ao lado de McLaren e Williams no posto de lendárias, é impossível ignorar o legado de uma Brabham, Cooper, Brawn GP e Benetton — ou até da simpática Jordan.

Em homenagem aos ícones que deixaram uma pegada nas lembranças de cada pessoa apaixonada pela Fórmula 1, o GRANDE PRÊMIO preparou um 10+ especial para comemorar esta data. De olho no longínquo ano de 1950, separamos dez curiosidades sobre a primeira temporada da história.

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A Fórmula 1 foi oficialmente criada pela FIA em 1950 (Foto: Mercedes)

Origem e nome alternativo

De nada adianta abordar outros aspectos da categoria se não falarmos do princípio de todas as coisas. Antes de ser oficialmente criada pela Federação Internacional de Automobilismo em 1950, há quem considere o ano de 1901 como o surgimento do campeonato — quando Le Mans sediou o GP da França. Na verdade, até 1949, diversas corridas foram disputadas ao redor da Europa, em países como França, Itália, Bélgica, Inglaterra, Alemanha, Mônaco e Espanha.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a FIA então decidiu elaborar um campeonato com as principais provas do continente e que contasse com as maiores fabricantes de carros daquela época, o que incluía nomes como Alfa Romeo, Ferrari, Maserati e Mercedes. A ideia do nome ‘fórmula’ era criar uma categoria em que os carros seriam limitados por um conjunto de regras técnicas, que garantiria a competitividade entre os participantes e incentivaria a inovação tecnológica.

Embora o campeonato tenha sido nomeado como ‘Fórmula A‘ por algumas pessoas lá no início, o número ‘1’ acabou se tornando a escolha oficial porque representava a importância da categoria na hierarquia do automobilismo mundial. Sendo assim, a primeira prova da história aconteceu no dia 10 de abril de 1950, quando Juan Manuel Fangio, com a Maserati, subiu ao degrau mais alto do pódio na comuna de Pau, na França — embora a primeira corrida realmente considerada nos livros do Mundial seja datada de 13 de maio, em Silverstone, com Nino Farina vencendo o GP da Inglaterra a bordo da Alfa Romeo.

Alfa Romeo modelo 158 (Foto: Reprodução / Motorsport Magazine)

Carros do período pré-guerra

Ao contrário do que acontece nos dias de hoje, onde as equipes desenvolvem carros novos todos os anos — e ainda investem pesado em atualizações durante a temporada —, a situação naquela época era totalmente diferente. Por causa da Segunda Guerra Mundial, que freou completamente o desenvolvimento da indústria automobilística, os carros da Fórmula 1 da temporada de 1950 respeitavam os padrões pré-guerra: eixos rígidos e motor na parte dianteira.

Para se ter uma ideia, a Cooper foi considerada a grande inovadora por ter alinhado no GP de Mônaco, a segunda prova daquele certame, o primeiro carro de motor traseiro da categoria — o que influenciou todas as outras equipes a fazerem o mesmo. Novamente, devido às dificuldades do período de extrema tensão no continente, permitiu-se a participação de carros com motores superpressurizados até 1,5 litro ou aspirados de 4,5 litros.

O modelo Alfa Romeo 158, também conhecido como Alfetta, que venceu seis das sete corridas e ajudou Giuseppe Farina na conquista do título em 1950, foi fabricado em 1938. E ainda que o bólido tenha sido ligeiramente atualizado, não deixou de ser do período pré-guerra.

Largada do GP da Inglaterra de 1950 (Foto: Reprodução)

Grid com alta média de idade

Se pilotos quarentões como Fernando Alonso e Lewis Hamilton são considerados exceções em um grid rejuvenescido da temporada 2025, em 1950 era muito comum ter competidores mais velhos participando da categoria. Para se ter uma ideia, o britânico Geoffrey Croslley era o caçula, com 29 anos de idade, enquanto o italiano Luigi Fagioli (51), o monegasco Louis Chiron (50) e o francês Philippe Étancelin (53) eram os mais velhos.

Campeão daquela temporada, Farina tinha 43 anos de idade, ao mesmo tempo que Fangio, que se tornaria um dos grandes nomes do esporte, completava 38. Como resultado, a média de idade do grid que escreveu a primeira página da história da Fórmula 1 era de 39 anos.

Para fins comparativos, o grupo da temporada 2025 possui uma média de idade de 27 anos. A estreia de cinco novatos ajudou a colocar esse número mais para baixo, mas era impensável ter jovens de 18, 19 ou 20 anos — como é o caso de Andrea Kimi Antonelli, Oliver Bearman e Gabriel Bortoleto, por exemplo — competindo naquela época.

Pódio do GP da Inglaterra de 1950 (Foto: Reprodução)

As 500 Milhas de Indianápolis faziam parte do calendário

Em 1950, quando o campeonato de Fórmula 1 foi oficialmente criado, decidiu-se pela inclusão das 500 Milhas de Indianápolis, que já eram disputadas desde 1911, no calendário da categoria. A prova fez parte do Mundial por 11 temporadas e continha um formato de pontuação diferente.

Como a Europa era o berço da categoria, a FIA tinha intenção de criar uma competição mais globalizada e, por isso, incluiu os Estados Unidos na lista de destinos. E apesar de a intenção ser das melhores, não deu muito certo, já que equipes e pilotos europeus costumavam não participar por duas razões: primeiro porque era muito custoso cruzar o oceano até chegar à América do Norte, uma aventura que as partes consideravam que não valia a pena; e segundo porque era muito complexo ajustar os carros para as características específicas do circuito oval, considerando a questão do desgaste dos pneus e suspensão.

Em 1950, o norte-americano Johnnie Parson foi o grande vencedor da prova — única da qual participou naquele ano —, que ainda viu Lee Wallard, Troy Ruttman, Bill Vukovich, Bob Sweikert, Pat Flaherty, Sam Hanks, Jimmy Bryan, Rodger Ward e Jim Rathmann subirem no degrau mais alto do pódio nas edições seguintes.

As cores eram escolhidas de acordo com a nacionalidade das equipes (Foto: Forix)

As cores dos carros eram padronizadas de acordo com os países

Já parou para pensar por que o carro da Ferrari é vermelho, ou a Mercedes é prata, por exemplo? Lá nos primórdios do automobilismo, as cores dos carros eram definidas pelos países de origem das equipes ou fabricantes — e não foi diferente na Fórmula 1 de 1950. O objetivo era facilitar a identificação das equipes em competições internacionais.

Desta forma, o vermelho ficou definido para os times italianos, o azul ficou para os franceses, o verde para os ingleses, o amarelo para os belgas e o branco para os norte-americanos. Na verdade, o branco foi utilizado pelos alemães até 1930, quando as empresas locais deixaram de pintar os carros para torná-los um pouco mais leves. Desta forma, os bólidos acabaram competindo com a lataria exposta e ganharam o apelido de Flechas de Prata.

No entanto, com o passar do tempo e o aumento da importância do marketing e da publicidade, as cores dos carros passaram a ser influenciadas pelas marcas que patrocinavam as equipes, em vez das cores nacionais. Apesar disso, algumas equipes adotaram a pintura que era utilizada como um símbolo da marca, e o time de Maranello talvez seja o maior exemplo disso.

Giuseppe Farina (Foto: X/Silverstone)

Ausência da Ferrari na corrida inaugural

Apesar de ter se tornado a maior equipe da história da Fórmula 1, com 15 títulos do Mundial de Pilotos, 16 de Construtores, 248 vitórias e 10.418 pontos conquistados ao longo dos 75 anos de competição, a Ferrari foi ausência na corrida inaugural da categoria, o GP da Inglaterra de 1950. A equipe optou por não participar por tensões envolvendo a organização do evento e, principalmente, questões financeiras.

Naquela época, as equipes negociavam diretamente com os organizadores o valor a ser pago pela participação. A Ferrari era uma das que mais procuravam valorizar o passe, já que tinha um nome a zelar, e boa parte das receitas vinha destas premiações. E quando recebeu a proposta para alinhar em Silverstone, Enzo Ferrari não ficou muito feliz com o que foi oferecido e tentou negociar, mas acabou decidindo mesmo por competir só a partir da segunda etapa, em Mônaco.

Alberto Ascari (Foto: Forix)

Presença de convidados majestosos

Mas se a escuderia italiana não fez questão de comparecer ao evento de abertura da Fórmula 1, algumas presenças ilustres, dentre os estimados 200 mil espectadores, decidiram acompanhar de perto todas as emoções do GP da Inglaterra de 1950.

Além do Rei George VI, as princesas Elizabeth (que veio a se tornar rainha) e Margareth e os convidados Lord e Lady Mountbatten assistiram de perto à ação na pista de Silverstone. A presença real foi um marco na história da F1, destacando a categoria como um evento de grande importância nacional e internacional.

Até os dias de hoje, 75 anos depois, esta continua sendo a única vez que um monarca reinante compareceu a uma prova de automobilismo na Inglaterra.

Príncipe Bira foi um dos personagens ilustres da F1 nos anos 1950 (Foto: Rainer Nyberg)

Participantes ilustres

Bastante apropriado para uma corrida acompanhada de perto pela realeza, a lista de inscritos tinha um sabor distintamente aristocrático. Entre os 21 pilotos que se inscreveram para participar da temporada estava Birabongse Bhanutej Bhanubandh, mais conhecido como Príncipe Bira, membro da família real tailandesa e um notável competidor — o único do Sudeste Asiático na Fórmula 1 até que Alex Yoong, da Malásia, juntou-se à Minardi em 2001. Além dele, o Barão Emmanuel de Graffenried, da Suíça, que venceu a edição de 1949 do GP da Inglaterra, ainda na era pré-Mundial.

Mas existia de tudo no grid: de Louis Rosier, executivo do esporte a motor, a Leslie Johnson, que fazia corrida em montanhas. Bob Gerard era empresário, assim como Joe Kelly, enquanto Johnny Claes era trompetista e Joe Fry fazia parte de uma família conhecidíssima na Inglaterra pela fábrica de chocolate que tinham.

Trecho do livro de regras da F1 em 1950 (Foto: Reprodução)

Regulamento sucinto para participação nas corridas

Muito diferente do que acontece nos dias de hoje, onde o regulamento da F1 é significativamente mais extenso e detalhado, abrangendo áreas esportivas, técnicas, financeiras, ambientais e comportamentais, o livro de regras da primeira temporada, lá em 1950, era muito mais simples.

Ainda nos estágios iniciais da competição, os carros daquela época eram essencialmente versões modificadas de modelos pré-guerra, com poucas especificações técnicas detalhadas. Por isso, como pode ser visto na imagem acima — que ilustra apenas um trecho das regras, vale deixar claro —, para estarem habilitados, os bólidos deveriam seguir algumas exigências simples da FIA: ter quatro rodas, atender a um limite de potência, possuir “algum tipo de proteção entre o motor e o assento do piloto” e ter dois retrovisores.

Vale lembrar também que não existia limite mínimo de peso, o que permitia uma liberdade maior por parte das equipes na idealização dos projetos.

Stirling Moss não foi autorizado a participar da primeira corrida de F1 (Foto: AFP)

Barrado logo na primeira corrida

Considerado o maior piloto da história a nunca ter conquistado um título da F1, com um total de 16 vitórias em 66 corridas disputadas (aproveitamento de 24,24%), Stirling Moss até tentou, mas não foi autorizado a participar da primeira corrida da temporada 1950, já que o HWM que pilotava, com especificações de F2, acabou sendo rejeitado. Desta forma, o britânico, que foi vice-campeão de maneira consecutiva entre 1955 e 1958, só começou a competir mesmo na categoria em 1951.

Com então 20 anos de idade, o que restou a ele foi correr em uma das provas de apoio das 500cc. A bordo de um Cooper Mk IV com motor JAP, Moss teve um desempenho notável e venceu com folga a bateria classificatória, mas teve de se contentar com o segundo lugar depois de sofrer com uma falha no pistão e precisar completar a corrida com potência reduzida. O vencedor foi Frank Aikens, membro do exército que se envolveu com a organização do local para o evento.

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