Arquivos do DEOPS revelam que Senna foi ‘fichado’ por ameaça de sequestro do Comando Vermelho

Ameaça de sequestro no fim de 1990 levou Departamento Especial de Ordem Política e Social a fichar Ayrton Senna, que não era considerado ameaça ao regime militar – ainda que a ditadura já tivesse acabado na prática havia cinco anos

A abertura dos arquivos dos tempos da ditadura – e pós – ao público revelou nesta segunda-feira (1) que Ayrton Senna foi uma quase 2 milhões de personalidades fichadas pelo DEOPS – Departamento Especial de Ordem Política e Social –, órgão criado na década de 20 do século passado para “prevenir e reprimir delitos considerados de ordem política e social contra a segurança do Estado”.

 
Ainda que o DEOPS tenha sido extinto oficialmente em 1983 e a ditadura tenha acabado no Brasil em 1985, a instituição continuou atuando e fazendo suas vigílias no território brasileiro. O piloto foi ‘fichado’ por causa das ameaças de sequestro sofridas pelo Comando Vermelho no fim de 1990.
Ayrton Senna foi 'fichado' pelo DEOPS em 1990 (Foto: Reprodução Arquivo 'O Estado de S.Paulo')

O plano para atacar Senna ou um familiar seu veio à tona depois de o brasileiro ter ganhado seu segundo título na F1 em cima de Alain Prost naquele GP do Japão em que houve a vingança pelo ocorrido no ano anterior – Ayrton bateu propositalmente no rival francês na primeira curva da corrida, devolvendo o acidente provocado por Prost em 1989.
 

As duas referências a Senna no DEOPS dão-se por duas reportagens feitas pelos jornais ‘O Estado de S.Paulo’ e ‘Folha de S.Paulo’. A edição de 11 de novembro de 1990 do ‘Estado’ informa que a polícia civil e militar paulistas estavam protegendo Ayrton e sua família 24 horas por dia, com uma base na frente de sua então casa na Av. Nova Cantareira, zona norte de São Paulo, diante da descoberta do plano da organização criminosa. Sem participar de manifestações contra o governo ou de passeatas, Senna não era visto como uma ameaça ao regime militar. Quatro dias depois, a ‘Folha’ relatou a tensão vivida pelos entes com a possibilidade de sequestro.
Reportagem que indica o plano de sequestro de Ayrton Senna (Foto: Reprodução Arquivo 'O Estado de S.Paulo')
 
O Comando Vermelho, conhecido pelas siglas CV ou CVRL – de Rogério Lemgruber –, foi uma das facções criminosas mais conhecidas e poderosas do Brasil. Nasceu nos presídios de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, em 1979, e até hoje tem suas ramificações, uma delas o PCC – Primeiro Comando da Capital. Curiosamente, Senna tinha uma mansão na cidade onde o CV foi criado e era lá que o piloto era esperado para que o sequestro pudesse ser consumado.

A partir de hoje, fichas, prontuários e dossiês de pessoas investigadas pelo DEOPS estão à disposição na internet pelo Arquivo do Estado de SP. 

Colaboraram Fernando Silva, de Sumaré, e Fagner Morais, de São Paulo

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