Audi sente dor do crescimento na F1 2026 após florescer fugaz com pontos em estreia
Na Austrália, Gabriel Bortoleto beliscou o Q3, um resultado e tanto para a Audi, mas a quebra antes mesmo de chegar aos boxes na classificação expôs que o florescer era, na verdade, enganoso
Se alguém dissesse ainda no ano passado que a Audi teria ao final dos três primeiros GPs da temporada 2026 da Fórmula 1 dois pontos anotados no Mundial de Construtores, certamente seria encarado como um resultado e tanto para uma equipe que aceitou o desafio de construir a própria unidade de potência do zero dentro de um regulamento totalmente novo. De fato, há muito o que comemorar, considerando que o resultado foi conquistado ainda na etapa de abertura, na Austrália, graças ao nono lugar de Gabriel Bortoleto, mas o gosto sentido é muito mais amargo do que se imagina.
Depois de uma pré-temporada em que mal andou na primeira semana por problemas de confiabilidade, a Audi alcançou ainda no Bahrein uma interessante linha evolutiva que a levou direto para o meio do pelotão nos treinos em Melbourne. Na classificação, eis que Bortoleto conseguiu beliscar o Q3, só que a inesperada quebra quando se dirigia aos boxes não apenas tirou dele a chance de brigar por uma posição ainda melhor no top-10, como expôs que o florescer era, na verdade, enganoso. E o desafio agora é evitar que o destino seja o mesmo da bela Palmeira Talipot, cujas flores que se abrem a cada 70 anos indicam que o fim está próximo.

Na China, na sprint, a Audi se viu às voltas com problemas no motor do carro de Nico Hülkenberg. Bortoleto até cruzou a linha de chegada na 13ª posição, mas na corrida de domingo, foi o brasileiro que teve de lidar com a impossibilidade de sequer largar. Tudo isso depois de uma classificação que colocou Gabriel como o melhor do resto no Q1 e Hülkenberg em 11º no Q2.
No Japão, a história se repetiu, novamente colocando Bortoleto nos holofotes pela segunda ida ao Q3 com a Audi em três classificações disputadas, um feito e tanto para uma equipe nova, espólio da Sauber à parte. Foi quando o apagar das luzes escancarou o problema crônico em largadas que fez os dois carros despencarem para o fim do pelotão. Nem o safety-car, que recolocou o brasileiro na luta por pontos, foi suficiente para impedir mais um resultado desanimador.
Chega a ser contraditório, na verdade, considerando que a Audi demonstra força para brigar por muito mais, porém falta potência, e o atual regulamento infelizmente deposita sobre o motor parcela vital na performance final do carro. Mesmo que o desempenho em volta rápida teime em dizer o contrário, a Audi não parece muito longe da Williams, que também sofre de longa lista de problemas. Não por acaso as duas estão empatadas em pontos e, no momento, à frente apenas da Cadillac, que luta para fazer um carro que não se desmanche na pista, e Aston Martin, que só conseguiu concluir uma corrida com um único carro até aqui.
Há, contudo, um lado positivo a ser analisado em meio ao conturbado início, e ele reside justamente em, primeiro, a Audi saber exatamente o que precisa melhorar. Não significa, claro, que seja fácil, mas traz o norte necessário para que haja foco no preparo de atualizações para as próximas etapas.

“Como mencionei antes, acredito que a maior parte da nossa desvantagem reside no motor e na falta de velocidade nas retas. Podemos usar a energia para compensar, mas quando as baterias se esgotam, não resta muita coisa. Portanto, precisamos analisar os dados com cuidado para não chegarmos a uma conclusão precipitada. Mas em termos de energia total, a forma como a utilizamos e a velocidade nas retas não é o nosso ponto forte no momento”, disse Binotto durante a passagem da F1 pelo Japão.
“Então, se você usar toda a energia e, de alguma forma, descarregar as baterias, ficará vulnerável a ultrapassagens. Isso faz parte do nosso processo de aprendizado nessas corridas de edição limitada. Precisamos analisar os dados com o piloto, entender a melhor forma de mitigar, não apenas resolver, mas minimizar essas situações, e então veremos o que é possível para o futuro próximo”, completou a explicação.
A esperança da Audi, na realidade, reside na mesma coisa que faz a Ferrari crer que ainda é possível desafiar a Mercedes: a concessão que vai permitir de uma a duas atualizações nos motores, a depender da posição da montadora em relação à melhor unidade de potência do grid. É nítido que grande parte dos problemas que são vistos nas equipes que estão abaixo da Mercedes está no motor, portanto torna-se urgente o uso do chamado ADUO (em tradução livre, Oportunidades Adicionais de Desenvolvimento e Atualizações) em 2026 e 2027.
Agora, não há como ignorar a crise interna que pegou a todos de surpresa através da repentina saída de Jonathan Wheatley do posto de chefe de equipe. O britânico era visto como a adição mais significativa do projeto da Audi rumo à F1, sobretudo por ter no currículo o carimbo da Red Bull, equipe pela qual atuou por duas décadas como diretor-esportivo. Wheatley, aliás, era muito mais que um mero coadjuvante no pit-wall dos austríacos — foi ele, por exemplo, que pressionou o então diretor de corridas da F1, Michael Masi, a liberar os retardatários entre Lewis Hamilton e Max Verstappen na polêmica decisão do título de 2021, em Abu Dhabi. Força política, portanto, não faltava, e isso é sempre importante para quem escolhe jogar o jogo da F1.

Acontece que isso também trouxe o outro lado, que é quando uma figura desse porte não se encaixa na visão do time. Aí não tem jeito, alguém tem de ceder, e Binotto levou a queda de braço, assumindo o comando do barco. Uma perda e tanto, sem dúvida, mas não tão sentida quanto se imaginava, vide a curiosa declaração de Hülkenberg ao dizer que a saída de Wheatley resolvia um “problema fundamental” na Audi.
Em suma, o golpe foi sentido, mas a marca das quatro argolas ainda tem fôlego para levar a luta até o último round em pleno combate. Não será fácil, mas há também o alento de ser apenas o primeiro ano de um novo ciclo de regras. De certa forma, está difícil para todo mundo.
A Fórmula 1 agora entra em hiato após a suspensão dos GPs do Bahrein e da Arábia Saudita e retorna de 1º a 3 de maio com o GP de Miami.
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