Bandeira de gesto histórico de Hamilton em Interlagos era de fã de Verstappen

Fabio Rezende, Leonardo Augusto Mil e Matheus Servello foram os heróis anônimos por trás do gesto inesperado e inesquecível de Lewis Hamilton ao repetir Ayrton Senna e erguer a bandeira do Brasil após vitória no GP de São Paulo. O GRANDE PRÊMIO conta os bastidores desta história

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A vitória de Lewis Hamilton no GP de São Paulo do último domingo (14) já seria incrível por si só em razão da forma como o heptacampeão escalou o pelotão depois de ter largado em décimo e de ter deixado o rival Max Verstappen para trás após disputa polêmica que até hoje divide a opinião do público. Mas o triunfo do maior vencedor da história da Fórmula 1 ganhou contornos ainda mais épicos e inesquecíveis depois de um gesto inesperado e muito caro ao coração do torcedor brasileiro: o piloto pediu que um grupo de fiscais de pista lhe entregasse uma bandeira do Brasil que era agitada naquele momento. Ao empunhar e erguer o pavilhão verde, amarelo, azul e branco, Lewis virou deus em definitivo por aqui e levou milhares — talvez milhões de pessoas — às lágrimas com as lembranças de Ayrton Senna. Mas toda essa história só se tornou possível graças a três amigos e heróis anônimos das pistas, fiscais de pista voluntários e cruciais para a execução de um evento de tamanho porte.

Fabio Rezende, 46 anos, gerente de projetos; Leonardo Augusto Mil, 45, captador de imóveis e o mais veterano dentre os três na F1; e Matheus Servello, 40, analista de sistemas, foram fundamentais, cada um à sua maneira, no emocionante momento que ganhou as telas das TVs, dos celulares e estampou as manchetes das mais importantes publicações do planeta, seja da imprensa especializada em esporte a motor, seja os jornalões impressos ou online em geral. Mas de quem era a bandeira do Brasil que foi parar nas mãos de Hamilton? De quem foi a ideia? Como está sendo a vida dos três fiscais de pista depois da catarse em Interlagos?

O GRANDE PRÊMIO conversou com exclusividade com os três, ainda extasiados com toda a repercussão de um momento que já entrou para a história. “É muito surreal o que aconteceu. Tenho 20 anos de pista e nunca passei por nada parecido”, afirmou Leonardo, que desempenha a função de líder de um dos postos de resgate espalhados por Interlagos nos três dias de atividade do fim de semana. Matheus e Fabio também atuaram, ao lado de outros voluntários, naquele posto localizado à altura da curva do Bico de Pato.

O gesto histórico de Lewis Hamilton ao erguer a bandeira do Brasil (Vídeo: Reprodução/F1 TV)

Dentre todos os cerca de 90 fiscais de pista que atuaram no fim de semana, Fabio era o dono da única bandeira do Brasil. Pela manhã, no dia da corrida, os voluntários que estiveram naquele posto tiraram a foto, ação de praxe em todos os anos de GP, para a lembrança afetiva. Horas depois, durante a parada dos pilotos, acenaram o pavilhão nacional aos competidores. Hamilton, segundo reportou Leo, passou de passagem pelos fiscais — e pela bandeira — instantes antes da largada.

Os amigos fizeram questão de demonstrar muita união e deixaram claro que a história toda só foi possível pela contribuição de cada um deles. “Se não tivesse esse tripé, isso não aconteceria”, contou Fabio, o dono da bandeira. “Trabalhei na área de suprimentos, digamos assim [risos], o Matheus foi quem teve peito para falar assim: ‘Dá aqui que eu faço’”, disse. E o incentivador da entrega do pavilhão a Hamilton foi Leonardo.

Fabio revelou um detalhe curioso e que torna tudo ainda mais incrível. “Eu tava torcendo para o Verstappen”.

Em seguida, Matheus lembrou quando a ideia de entregar a bandeira a Lewis começou a ganhar corpo. “Se o Hamilton passar [o Verstappen], a gente vai entregar a bandeira para ele”. Mas Leonardo lembrou que tudo naquele momento estava no campo da brincadeira. “A gente nunca imaginou que isso poderia acontecer. Mas quando a corrida estava terminando, perguntei ao Fabio: ‘A gente pode mostrar a bandeira a ele?’ Se ele pegar, eu te dou outra”.

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Matheus e Leonardo contaram que Fabio tinha um enorme xodó com a bandeira, dessas de tamanho padrão e que são hasteadas em eventos oficiais e públicos, por exemplo. Tanto que o antigo dono do artigo até aprendeu, no YouTube, sobre como dobrar uma bandeira nacional.

Voluntários, a maioria com enorme experiência no esporte a motor, os fiscais de pista da Fórmula 1 passam por vários dias de treinamento antes do evento propriamente dito no fim de semana. E como em todos os eventos da temporada, no GP de São Paulo os protocolos de segurança por parte da direção de prova foram ainda mais restritos em razão da pandemia, de modo que um gesto como o de domingo depois da corrida, na teoria, não seria permitido pela FIA. Mas tudo foi diferente naquela tarde apoteótica.

A bandeira do Brasil entregue por Matheus Servello no pódio em Interlagos (Foto: Carl de Souza/AFP)

“Por causa dos protocolos de segurança atuais, a gente não podia ir até à beira da pista para aplaudir o piloto, como é feito todo ano. Em razão dos protocolos novos, não foi permitido. A saída do nosso posto é muito grande, passa caminhão ali, então a gente fica ali alinhado, pouco antes do guard-rail. Isso é nítido nas imagens da TV”, explicou Leonardo.

Mas o fato que entrou para a história da Fórmula 1 teve a iniciativa total do heptacampeão logo depois da bandeirada. “Ele veio ali, descendo o Pinheirinho, e deu uma guinada para a esquerda. Naquele momento, acho que ele lembrou que, na hora do desfile, a gente balançou a bandeira para ele. E nisso o Fabio a abriu”, lembrou.

“De repente, a Mercedes para à nossa frente, e o Hamilton começa a dar o sinal, aponta para a bandeira. Falei para o Matheus: ‘Cara, ele tá pedindo, ele tá pedindo a bandeira!’. O Matheus correu, pegou a bandeira da mão do Fabio, que ficou todo travado, e deu na mão do Hamilton”. Em seguida, todos os fiscais perto do acontecimento histórico pularam e comemoravam como se tivessem marcado um gol.

Servello lembrou que a atitude que trouxe ainda mais história ao GP de São Paulo jamais foi calculada. “Foi tão surreal o que a gente fez que ninguém pensou em pedir autorização para a torre de controle para fazer isso. Porque ninguém ia fazer”, disse, sendo complementado por Fabio. “Até porque a gente sabia a resposta: resposta seria não. A gente não pode interagir com o piloto. O Matheus só teve a reação que teve porque o Hamilton insistiu”, riu. “A maior estrela do evento é ele, e a gente jamais poderia negar isso”, acrescentou Leonardo.

O líder dos fiscais naquele posto revelou que a torre de comando da direção de prova o acionou logo depois, mas a própria FIA entendeu que não houve nenhum risco quanto à segurança dos voluntários e aliviou.

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Leonardo ainda revelou um curioso diálogo com Angela Cullen, fisioterapeuta e braço-direito de Hamilton, pouco depois da corrida. A britânica levou o troféu, capacete e também a bandeira que o heptacampeão havia acabado de ganhar.

“Eu me comprometi a dar outra bandeira a ele [Fabio]. No nosso posto, caíram duas peças importantes: uma câmera da Haas e um sensor de cronometragem. Aliás, a Haas colabora bastante para o resgate trabalhar [risos]. E todas as peças que recolhemos temos de devolver para os boxes. E minha obrigação, como líder de posto, foi levar essas peças. Quando retornei, dei de cara com a assessora direta do Hamilton e brinquei: ‘The Brazilian flag is mine (a bandeira brasileira é minha). E ela disse: ‘Sorry’. E foi embora [risos]”.

Heróis anônimos e fundamentais

Muita gente que assiste às corridas, seja ‘in loco’, seja pela televisão, não se dá conta que há muitos profissionais envolvidos em torno do evento, não apenas pilotos, membros das equipes, da torre de cronometragem, comissários e imprensa em geral. A atuação de médicos e fiscais de pista é fundamental para que qualquer corrida possa se desenrolar sem maiores contratempos.

Quem atua como fiscal de pista, além de carregar um grande conhecimento e horas e horas de treinamento, leva no coração também o enorme amor pelo esporte a motor e traz consigo também o sentimento de que cada um que trabalha ao seu lado é crucial para fazer essa engrenagem toda funcionar.

LEWIS HAMILTON; MATHEUS SERVELLO; GP DE SÃO PAULO; F1;
Lewis Hamilton agradeceu a Matheus Servello pelo gesto de lhe entregar a bandeira (Foto: Reprodução/Instagram)

“A equipe de resgate é uma família. A ponto de que tudo o cara precisa, ele tem. Uma oração para um amigo e parente? Combinamos de fazer na mesma hora. Ajudamos os amigos que passam por dificuldades, seja com vaquinha ou rifa…”, comentou Leonardo, o mais experiente do grupo, que atua como fiscal na F1 desde 1998.

Fabio Rezende, apenas no seu segundo ano de Fórmula 1, também fez questão de enfatizar cada função nos postos de resgate: “Todo mundo que está lá é voluntário: desde quem está começando até quem interage com a torre da direção de prova, são mais de 90 pessoas: bombeiros, operador de telehundler [guindaste]… E é um voluntariado de pessoas que gostam, que se gostam e se respeitam. Nós três aqui chegamos no autódromo às 4h e voltamos às 22h, 23h… e tudo isso todos os três dias. Tem médico, empresário, motorista de Uber, tem de tudo”, descreveu.

Leo, por sua vez, reforçou a excelência do time brasileiro. “Sem medo de errar, essa é a melhor equipe de resgate do mundo. Já ganhamos premiações por isso, somos reconhecidos no mundo todo. E os pilotos confiam na gente”, salientou antes de Matheus acrescentar. “O diretor de prova não quer acionar o safety-car. Porque é ruim para a corrida. Então, nosso trabalho precisa ser rápido e discreto. É como juiz de futebol, não tem de aparecer”.

Mas o melhor para todo mundo que atua na função de fiscal de pista é a satisfação por terminar um fim de semana de corrida sem nenhum incidente grave. E ainda melhor quando o reconhecimento vem por parte de alguém do tamanho de Hamilton, que na última terça-feira agradeceu, nos stories do Instagram, ao fiscal que lhe entregou a bandeira, no caso, Matheus.

“Aquela bandeira nunca foi para a Paulista”

Horas após o desfecho do GP de São Paulo e com toda a adrenalina ainda por tudo o que havia acabado de acontecer, Matheus Servello viu na internet manifestações que sugeriam que o ato de entregar a bandeira a Hamilton foi em prol do atual presidente da República. Várias fake news chegaram a circular na internet, mas o analista de sistemas tratou de quebrar qualquer associação.

“Eu vi que algumas pessoas queriam associar nosso ato ao Bolsonaro por conta da bandeira. E quis reforçar que o gesto não teve nenhuma conotação política, nada disso”, reforçou.

Fabio também tratou de rejeitar qualquer tipo de ligação com o bolsonarismo e ressaltou. “Aquela bandeira nunca foi para a Avenida Paulista”.

Lewis Hamilton venceu o GP de São Paulo em Interlagos e se vestiu com a bandeira do Brasil no pódio (Foto: AFP)

“Para a vida toda”

Depois de tudo o que aconteceu no último domingo, é inevitável associar duas imagens semelhantes, separadas por três décadas, desde a celebração de Ayrton Senna pelo triunfo do GP do Brasil de 1991 até a conquista histórica de Hamilton no GP de São Paulo do último domingo.

“Quando faltavam duas ou três voltas para o fim, falei: ‘Matheus, imagina só.  São 30 anos da primeira vitória do Senna em Interlagos. O cara que é fã dele vence, comemora com o gesto igual ao dele e com a bandeira que a gente deu?’. Seria animal. Vou cair duro aqui, já sei disso”, recordou o líder do posto de resgate.

Ainda vai levar algum bom tempo para que os três assimilem tudo o que aconteceu no domingo. Como dizem, a ficha ainda não caiu. Mas a única certeza é que o gesto uniu os três, de alguma forma, para sempre.

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A foto dos fiscais de pista com a bandeira que foi entregue a Hamilton em SP (Foto: Arquivo Pessoal)

“Sempre me falam: ‘Mas você trabalha de graça? Vai trabalhar de graça? Mas quem paga o que a gente viveu? Quem vai poder falar isso, no mundo todo?”, ressaltou o líder do posto na curva do Bico de Pato.

“O caso é que dentro de um grupo de 90 pessoas, 16 postos de resgate, a gente estar lá e tornar possível essa situação é para a vida toda”, contou o dono da bandeira mais famosa do mundo no último domingo.

Por fim, até o ex-dono da bandeira e torcedor de Verstappen se rendeu ao heptacampeão. “O Hamilton tem de ganhar esse ano”.

F1: Hamilton CONQUISTA Brasil + Retratação | Paddock GP #268
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