BRB paga R$ 121 milhões em patrocínios que envolvem Bortoleto, Alpine, Stock Car e CBA

Sob mandato de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco que foi preso neste mês, milhões foram destinados a categorias nacionais gerenciadas por Lincoln Oliveira, que também viu o filho Gabriel Bortoleto agraciado em sua trajetória à F1

A presidência de Paulo Henrique Costa no BRB foi bastante generosa com o automobilismo brasileiro durante seu mandato. O comandante do Banco Regional de Brasília entre 2019 e 2025, outrora presente nos camarotes VIP das corridas da Stock Car, hoje preso depois de uma investigação da PF (Polícia Federal) por suas relações com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, abriu as torneiras para patrocínios que somaram mais de R$ 121 milhões de acordo com documentos verificados pelo GRANDE PRÊMIO.

Dentre os beneficiados com a publicidade – e a relação próxima com o ex-presidente do banco – estão a CBA, Confederação Brasileira de Automobilismo; a Vicar, empresa que controla e promove a Stock Car, a F4 Brasil e tem participação no TCR South America; Gabriel Bortoleto, filho de Lincoln Oliveira, o CEO da Vicar e piloto da Audi na F1; e até mesmo a Alpine, equipe da F1, sob o pretexto de um projeto que nunca existiu.

Por ser um banco público, o BRB é obrigado a divulgar um demonstrativo das despesas com propaganda, publicidade, publicações legais e patrocínios em cumprimento ao parágrafo 2º do artigo 22 da Lei Orgânica do Distrito Federal (DF) e ao artigo 4º da Lei Distrital nº 3.184, de 29 de agosto de 2003. A instituição financeira o faz com um balanço trimestral de seus investimentos.

Costa assumiu a presidência do Banco de Brasília em janeiro de 2019. Naquele ano, o banco patrocinou apenas Pedro Cardoso, então piloto da Hot Car na Stock Car. A partir de 2020, Lucas Foresti entrou para o time dos apoiados pelo BRB correndo pela Vogel, enquanto Cardoso ocupou um lugar na R Mattheis. A Stock Car, à época, ainda era gerida por Carlos Col. Naquele ano, a Vicar, controlada pela T4F – Time 4 Fun – foi adquirida pelo Grupo Veloci, um grupo de investimentos. Ali, então, aparecia timidamente que quem passava a controlar a Stock Car era Lincoln Oliveira, como o GRANDE PRÊMIO revelou em setembro de 2020.

A presença da família Bortoleto na Stock Car acontecia, em pista, desde 2018 através da KTF Sports, equipe que tinha no comando Enzo Bortoleto, filho mais velho de Oliveira. Foi esta equipe que, em 2021, com a categoria já nas mãos de Lincoln e Fernando Julianelli como CEO, passou a receber os patrocínios do BRB tendo como dupla Foresti e Cardoso. Concomitantemente, o BRB anunciava em abril que se tornava o banco oficial da categoria. O acordo foi de R$ 4,5 milhões.

Em 2022, o BRB estendeu seus tentáculos para a F4 Brasil, que estreava naquela temporada. Por R$ 2,75 milhões, o banco assumiu os naming rights da categoria de base que compunha o grupo Vicar. A Stock Car recebeu naquela temporada R$ 3,5 milhões.

No mesmo ano, a CBA, presidida por Giovanni Guerra, também entrou no circuito, fechando um contrato até 2024 para que o BRB se tornasse o “patrocinador máster do automobilismo brasileiro”. A parceria acabou sendo renovada por um novo triênio, que vai até 2027. Os dados dos demonstrativos do banco indicam que o apoio à confederação foi de R$ 5.122.222,16 até setembro de 2025.

Giovanni Guerra (presidente da CBA), Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) e Lincoln Oliveira (CEO da Vicar): os negócios multimilionários do automobilismo brasileiro (Foto: Divulgação/Capacete de Ouro)

O BRB foi fincando raízes em tudo que pertencia ao automobilismo brasileiro, seja por pilotos correndo no Endurance Brasil ou categorias como Rally dos Sertões e TCR South America.

Mas em 2023, a relação de Oliveira com Costa passou a contemplar o outro filho do CEO da Vicar. Gabriel Bortoleto recebeu o patrocínio de R$ 524.000 do BRB nas etapas finais da F3, campeonato que venceu. Ao mesmo tempo, Lincoln e o empresário Geraldo Rodrigues, que gerenciou a carreira de Rubens Barrichello na F1 e retornou ao comando da ReUnion Sports Entertainment, articularam um acordo para que o banco se tornasse parceiro exclusivo de serviços financeiros da Alpine na F1, tendo a criação de uma academia de pilotos da equipe em Brasília como vitrine com foco na F4 Brasil, a Alpine Academy, que chegou até a divulgar nas redes sociais tal iniciativa. Os logos do BRB foram vistos nos carros de Pierre Gasly e Esteban Ocon durante o GP de São Paulo. O valor desembolsado pelo BRB foi de R$ 2.374.800.

Os patrocínios foram aumentando gradativamente em 2024 e 2025, com mais pilotos e empresas recebendo os aportes do BRB. Chama a atenção, no entanto, o último investimento a Bortoleto na Fórmula 1, ainda como piloto da Sauber, que consta do demonstrativo publicado pelo banco no terceiro trimestre do ano passado. Só no período entre julho e setembro, a KTF Sports, que intermediou tal patrocínio, recebeu R$ 6.876.000.

Gabriel exibiu o BRB durante o título na F2. Já em 2025, na chegada à F1 pela Sauber, o apoio ficou reduzido ao capacete do piloto, mas as redes sociais do banco ressaltavam com constância a parceria, chamando o brasileiro de “nosso piloto”, como fez depois do melhor resultado de Bortoleto, o sexto lugar no GP da Hungria.

Postagem do BRB no Instagram confirma parceria com Bortoleto em 2025 (Foto: Reprodução)

De acordo com os dados, o período de janeiro de 2019 a setembro de 2025, todo com Costa como presidente, viu a Vicar receber R$ 46.756.236,08, sendo R$ 21.114.284,71 pela Stock Car, R$ 18.083.714,28 pela F4 Brasil, R$ 7.058.237,09 pelo TCR South America e mais R$ 500.000 divididos em duas ativações feitas na Stock Car em um Dia dos Pais e uma Fanzone. Tal montante representa 38,6% do patrocínio que o BRB investiu durante todo o período em automobilismo.

A Alpine recebeu R$ 15.220.914,22, mas os repasses do banco à equipe estranhamente não constam nos demonstrativos desde o segundo trimestre do ano passado. Isso remete à essência da Alpine Academy: não se tem qualquer informação das atividades desta academia de pilotos desde a criação em 2023. Ou seja: na prática, o projeto que foi exaltado por Rodrigues como um “legado para as próximas gerações de pilotos” em uma publicação no LinkedIn nunca saiu do papel e o patrocínio se deu a uma equipe de F1 sem qualquer relação com Bortoleto – que recebeu, desde a F3, R$ 11.283.333,32 até setembro do ano passado.

Durante toda a temporada 2025, o logo do BRB apareceu na asa dianteira dos carros de Gasly, Jack Doohan e Franco Colapinto, inclusive no GP de São Paulo.  

Logo do BRB em carro da Alpine no GP do Brasil em São Paulo de 2025 (Foto: F1)

O jornalista Luís Costa Pinto revelou no ICL Notícias que os contratos de Bortoleto e da Alpine foram negociados diretamente em uma reunião em Brasília entre Lincoln Oliveira e Paulo Henrique Costa tendo como intermediário o então governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB).

No total, o BRB desembolsou exatos R$ 121.186.920,19 destinados a 27 CNPJs distintos, ainda que tivessem finalidades e beneficiados em comum.

2019 – R$ 507.220,00
2020 – R$ 2.679.000,00
2021 – R$ 6.988.000,00
2022 – R$ 12.583.388,93
2023 – R$ 27.992.591,97
2024 – R$ 39.500.545,71
2025 – R$ 30.936.173,98
(9 primeiros meses)
Total – R$ 121.186.920,19 (sem contar último trimestre de 2025 e primeiro trimestre de 2026)

Stock Car recebeu mais de R$ 21 milhões do BRB em patrocínio (Foto: Divulgação/Stock Car)

O GRANDE PRÊMIO solicitou ao BRB, via assessoria, os dados dos investimentos em propaganda e publicidade do último trimestre de 2025 e do primeiro trimestre de 2026, mas não obteve retorno.

Neste fim de semana, o BRB segue divulgando sua marca em Interlagos, que recebe todas as categorias da Vicar – Stock Car, Stock Light, TCR South America e F4 Brasil.

Costa está preso desde 16 de abril como desdobramento de uma das fases da operação Compliance Zero, suspeito por permitir negócios com o Banco Master sem ações ou dinheiro em caixa para honrar tais negociações e por ignorar práticas de governança. As investigações indicam que Costa aceitou um acordo de propina com Daniel Vorcaro, ex-presidente do Master e igualmente encarcerado, que incluem seis imóveis de luxo que somam R$ 146 milhões.

Sob o comando do novo presidente, Nelson Antônio de Souza, o BRB já havia decidido fechar a torneira e reduzir em 60% o investimento em patrocínios esportivos. No Plano Anual de Comunicação, publicado no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF) em fevereiro deste ano, consta que o banco dispensará R$ 50 milhões para a área como um todo.

Sem Paulo Henrique nos autódromos – e considerando fazer delação premiada –, não seria estranho se o BRB também não aparecesse mais bancando as categorias nacionais depois das corridas do domingo. O banco abriu mão de apoiar o estádio Mané Garrincha, que há tempos patrocinava, e estuda fazer o mesmo com o autódromo de Brasília, concedido à instituição em 2022 e que passou por um investimento de mais de R$ 60 milhões, de acordo com informações do Diário Oficial do DF, para ser reformado e receber uma prova da Stock Car apenas e tão somente no fim do ano passado.

O primeiro sinal está dado: já não há camarote do BRB em Interlagos, soube o GRANDE PRÊMIO – impedido de cobrir a Stock Car in loco por determinação de Oliveira.

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