Com estrutura perfeita, Mercedes é imune a instabilidades. Ao contrário da Ferrari

A Mercedes perdeu seu chefe de motores, mas tem tudo para evitar turbulências nesse momento de transição. É que a equipe trata mudanças como algo positivo e necessário. A Ferrari traz outra cultura: a de queimar profissionais e criar crises desnecessárias

Um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio. A frase famosa do filósofo Heráclito pode ser utilizada nos mais diversos contextos, sempre destacando as mudanças. O rio não será o mesmo na segunda visita, muito menos o homem. Nós não seguimos os mesmos, muito menos nossos parentes, amigos e conhecidos. E organizações. É sabendo da necessidade de mudar que a Mercedes mantém uma estrutura sólida na Fórmula 1, mesmo em momentos de incerteza, para se firmar cada vez mais como a força mais dominante da história do automobilismo.

Essa análise vem das mudanças anunciadas pela Mercedes no começo da semana. Andy Cowell deixou o posto de chefe da divisão de motores de alta performance, com trabalho vinculado ao da F1. Poderia ser um baque, já que a escuderia alemã começou a se tornar dominante em 2014 justamente por conta de uma unidade de potência amplamente superior. Só que os prateados preferem ver as mudanças como um processo natural, que não deve ser necessariamente temido. Nas palavras do chefe Toto Wolff, “uma equipe vencedora é uma organização dinâmica, que a mudança é natural para o desenvolvimento de qualquer companhia”.

Capitaneada por Toto Wolff, a Mercedes virou a equipe perfeita (Foto: Mercedes)

O que isso quer dizer? Que a Mercedes sabe que é necessário fazer mudanças. Ross Brawn saiu ao fim de 2013, mas o sucesso viria de qualquer jeito. Paddy Lowe era visto como figura chave, mas saiu em 2016 em mudança também sem solavancos. Nem mesmo a morte de Niki Lauda no meio de 2019 tirou os prateados dos trilhos. Sempre que foi necessário, alguém apareceu no lugar e se tornou o substituto necessário. Mudar não virou algo temível, a ser evitado a qualquer custo. Virou parte de uma rotina para seguir em frente.

Quem não parece entender isso é a Ferrari. Não por não fazer mudanças – já foram inúmeras ao longo dos últimos seis anos –, mas por não saber como. Stefano Domenicali, Marco Mattiacci e Maurizio Arrivabene viraram chefes de equipe e depois saíram, sempre sem motivos muito claros. Era a mudança apenas pela mudança, como um time de futebol na zona de rebaixamento que contrata o Celso Roth com três rodadas para o fim do Brasileirão.

Isso fica ainda mais claro quando olhamos a performance de Mattia Binotto como chefão de Maranello: o dirigente não faz um trabalho necessariamente ruim, mas não faz valer a mudança até aqui. E pelo motivo mais óbvio do mundo: a esquadra não completou uma década sem título por falta de um bom líder, e sim por uma estrutura inteira que está simplesmente combalida. Por tabela, temos um cenário em que a mudança é algo a ser temido pela Ferrari. Se está mudando, é porque as coisas estão erradas. Se estão erradas, é porque há uma crise grave. Parece impossível para a escuderia imaginar uma aposta contínua nos mesmos profissionais ao longo de um período superior a três anos. No box ao lado, a Red Bull segue com Christian Horner como comandante desde 2005, mesmo com anos ruins na era híbrida. E parece a decisão certa.

O sucesso da Ferrari é limitado pela bagunça interna (Foto: Ferrari)

Voltemos a olhar para a Mercedes. Os rumores de que Wolff considera deixar a chefia ganham força e podem virar realidade já para 2021. Alguns mais apressados já fazem festa, imaginando que isso representaria o fim do domínio prateado e criaria uma nova variável no campeonato. É óbvio que uma mudança de chefe de equipe não é pouca coisa, mas suas consequências são superestimadas. Do jeito que a esquadra já se portou no passado, é difícil crer que o castelo de areia se desmancharia por completo.

Quem quer que seja o próximo chefe da Mercedes, independente de quando isso aconteça, vai encontrar uma estrutura que simplesmente funciona. Os problemas, quaisquer que sejam, ainda serão encarados de uma forma mais proativa do que em Maranello. É assim que deve ser, sem dedos apontados ou medos. Da mesma forma que ninguém deve temer o tal segundo banho no mesmo rio.

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