F1

Como vão ser os carros da Fórmula 1 a partir de 2021

Pouco a pouco, o esboço do regulamento para a aguardada revolução prevista para a F1 a partir de 2021 vai ganhando forma. O principal foco está na aerodinâmica do desenho do novo carro, que traz conceitos que agradam aos mais saudosistas, mas até mudanças no combustível estão no radar. No fim das contas, o único objetivo é tornar o esporte melhor e mais disputado nesta nova era que está por vir

Grande Prêmio / FERNANDO SILVA, de Sumaré / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba
 Esboço do carro da F1 com o regulamento para a temporada 2021 (Arte: Mark Antar Design)
A temporada 2019 da F1 chega à sua primeira metade dentro de duas semanas em Hockenheim, na Alemanha. Mas os olhos de quem comanda o esporte já estão voltados para o futuro, que nem é tão distante assim. Já há alguns bons meses, a F1 trata como prioridade as mudanças que vai implementar para a tão aguardada revolução no regulamento técnico para 2021. O grande objetivo é, acima de tudo, tornar a categoria mais emocionante e parelha, permitindo mais disputas e uma certa dose de imprevisibilidade. Mas afinal, como vão ser os novos carros da F1 para 2021?
 
Nesta quarta-feira (17), foram divulgados os primeiros esboços do que pode vir a ser o carro da nova F1. Pode vir a ser porque ainda não há a aprovação das equipes, o que só tende a ser sacramentado em outubro, durante reunião do Conselho Mundial da FIA. Aliás, o adiamento sobre a definição do novo regulamento foi acordado entre as equipes e o próprio Liberty Media, dono da F1, para dar mais tempo para que as discussões sobre os novos rumos do esporte estejam bem alinhados.
 
A ideia sobre o novo carro da F1 traz, ao menos no visual, semelhanças com sua irmã norte-americana, a Indy. Conceitualmente, em termos de aerodinâmica, os detalhes do conceito que a principal categoria do esporte a motor tende a implantar agrada aos mais saudosistas e está no efeito-solo, ainda que em moldes bem distintos daquele que foi adotado pela primeira vez na categoria, nos anos 1970.
 
Esta é a principal mudança para que a F1 faça cair por terra o que é hoje, em termos de disputa de pista, seu maior problema: a dificuldade de aproximação dos carros, o que torna mais complicada — até mesmo com a asa móvel, em determinados casos — a realização de ultrapassagens. O horroroso GP da França, que mesmo na esteira dos ótimos GPs da Áustria e da França, segue na retina, é o maior e mais recente exemplo de falta de ação na F1.
Como vem a F1 para 2021? O carro vai compreender uma aerodinâmica mais simples (Foto: Giorgio Piola/Motorsport.com)
Quanto à concepção dos novos carros, a ideia é que o regulamento para 2021 tenha quatro pilares: facilitar as ultrapassagens, diminuir as diferenças entre os carros do grid — abolindo assim as castas que vemos hoje no esporte, ou as chamadas F1 A e F1 B —, entregar carros elegantes e bonitos e reduzir os custos. 
 
Em relação ao último pilar, é preciso salientar que, além da mudança no regulamento técnico, uma outra e mais difícil está por vir e precisa ser costurada: o novo Pacto da Concórdia, documento que rege as relações comerciais da F1 e que tem como ponto cervical o teto de gastos, para que as equipes possam trabalhar com orçamentos menos díspares umas das outras.
 
O objetivo é tornar a aerodinâmica dos novos carros algo mais simples, com a capacidade de que o fluxo de ar seja mais uniforme, limpo e que não prejudique a aproximação do carro que venha logo atrás.
 
Ex-Ferrari e atual diretor-técnico da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), Nikolas Tombazis, explicou como pretende cumprir tal objetivo. “Queremos carros mais próximos para a disputa e mais batalhas. Queremos pneus que permitam disputas sem degradação ou dando apenas um curto intervalo para o outro piloto atacar. São conceitos mais simples que os dos carros atuais por conta de componentes pequenos componentes que foram removidos, especialmente nos sidepods”, explicou o engenheiro grego ao site norte-americano ‘Motorsport.com’. “A asa dianteira foi simplificada, tem um difusor embaixo do carro que liga a parte traseira até a dianteira do carro”, complementou. 
 
A respeito dos pneus, já está decidido que a Pirelli vai entregar à Fórmula 1, a partir de 2021, uma nova configuração, de perfil baixo e 18 polegadas. Outro ponto já definido é a extinção dos cobertores elétricos para a nova era do esporte. Os novos pneus já estão em fase de testes, mas serão colocados à prova, em ritmo de corrida, a partir do ano que vem com a principal categoria de acesso à F1, a F2.
 
De volta à concepção dos carros, os engenheiros da FIA trabalham com a meta de evitar com que o carro que acompanha o da frente perca cerca de 50% de carga aerodinâmica, como agora. Não vai ser possível evitar uma perda, mas o objetivo é que o percentual seja bem menor do que acontece atualmente. A ideia, no fim das contas, é que os novos carros sejam esteticamente mais limpos e sem tantos penduricalhos, como os que o público está acostumado a ver há tempos.
Desenho do projeto do carro de F1 para 2021 (Foto: Giorgio Piola/Motorsport.com)
O que vem aí para a F1 do futuro?
 
  • Um bico mais baixo em relação ao adotado atualmente, como foi usado pela categoria na década de 1990.
  • A ideia é melhorar o fluxo de ar abaixo do carro, ajudando a alimentar melhor os túneis Venturi, que vão gerar o conceito de efeito-solo.
  • Os endplates — aletas laterais — da asa dianteira estão arredondados para ajudar a minimizar o risco de furos de pneu no caso de um toque entre carros, um cenário que tem mais chances de acontecer considerando a asa dianteira mais larga.
  • A aerodinâmica simplificada fica exposta com um bico mais baixo e sem tanto desvios de fluxo de ar.
  • As rodas podem levar tampas, o que ajudaria a administrar melhor o fluxo de ar.
  • Os dutos de refrigeração dos freios vão ser mais simples e influenciar menos na aerodinâmica.
  • As rodas dianteiras estão cobertas com dois defletores que ajudam a direcionar o fluxo de ar desde a roda dianteira até abaixo do assoalho, no lugar de levar o ar para cima, o que causa a indesejável turbulência para os carros que estão atrás.
  • O halo, elemento criado para oferecer maior segurança aos pilotos no cockpit, passa a ser melhor integrado ao desenho geral do carro.
  • O difusor mais alto tende a ser bem mais potente que o difusor dos carros de hoje, o que vai permitir que a maior parte da carga aerodinâmica vai ser criado debaixo do carro.
  • A asa traseira conta com um endplate simples para reduzir o efeito da turbulência e ajuda a desviar o fluxo de ar até acima com um vórtice duplo.
Há um certo temor no paddock de que os novos carros da F1 sejam iguais, o que Ross Brawn e o próprio Tombazis se apressam em dizer o contrário. Na visão dos dirigentes, a expectativa é que a nova F1 tenha modelos mais distintos do que os que aceleram no grid em 2019. É sabido que o órgão regulador do esporte busca meios de padronizar certas peças como direção hidráulica e embreagem, e simplificar outras tantas, além de reduzir a eletrônica e a telemetria e banir as garagens virtuais — onde os engenheiros têm a capacidade de fazer mudanças nos carros de forma remota. 
 
Como vão ser os novos motores?
 
O fã mais saudosista da F1 lamenta até hoje a extinção dos motores aspirados e a entrada das unidades motrizes híbridas, que mudou o DNA do esporte em razão de um novo barulho nas pistas. O famoso ronco dos motores deu lugar a um ruído mais parecido com o de aspirador de pó. Mas a concepção inicial do regulamento para 2021 não compreende os motores como eram até 2013. A era híbrida veio mesmo para ficar.
A turbulência gerada pelo carro da frente prejudica muito as tentativas de ultrapassagem (Foto: Alfa Romeo)
O fato é que a F1 não pode caminhar mais na contramão da indústria automobilística. O futuro é elétrico, está bem claro. A F1 não vai se fundir ou ser a nova Fórmula E, mas precisa liderar o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis, sob pena de perder espaço para a categoria dos carros elétricos. 
 
Cada vez mais, a Fórmula E atrai montadoras. Para a temporada 2019/20, nomes de peso como Mercedes e Porsche vão se unir a Nissan, Audi, DS — grupo PSA, das marcas Citroën-Peugeot —, BMW, Jaguar e Mahindra. A F1 conta com a eterna Ferrari, além da Mercedes, Honda e Renault como fornecedoras de motor, mas não tem a perspectiva, por enquanto, de atrair novas empresas do ramo.
 
A F1 não pode perder as poucas fornecedoras que ainda tem. Portanto, a manutenção do regulamento híbrido pelos próximos anos é o mais provável. A mudança mais sensível que está por vir diz respeito ao combustível usado.
 
 
O que é o eCombustível?
 
Na esteira do desenvolvimento de novas tecnologias sustentáveis e ecológicas, a indústria petrolífera trabalha para diminuir a produção de combustíveis fósseis. Empresas como Audi e Bosch, por exemplo, desenvolvem um combustível sintético, neutro em CO2, e que podem ser usados em motores normais a combustão, mas com menor capacidade de agredir ao meio ambiente.
 
Em meio ao desenvolvimento do novo regulamento em si, há na FIA quem queira adotar um combustível mesclado entre 75% da gasolina, como é usada hoje, a 25% de eCombustível, com o objetivo do percentual de gasolina sintética seja elevado a cada ano até chegar a 100% a partir de 2025.

O maior desafio para o futuro da F1

A redução nos custos é um tema recorrente na Fórmula 1 e, por isso, está entre as prioridades também nas conversas entre as equipes, a FIA e o Liberty Media para compor o livro de regras a partir de 2021. A questão é que o comando da maior das categorias deseja que os times tenham a garantia de competitividade mesmo com menos dinheiro. 
 
Entende-se, portanto, que o grupo trabalhe em estabelecer regras mais severas do ponto de vista financeiro, tendo um teto orçamentário, além da introdução de elementos padronizados. A ideia é também assegurar que a F1 não perca seu DNA de desenvolvimento, mas que também proporcione equilíbrio em prol de uma performance mais igual entre os competidores.
 
Ainda há reservas quanto aos valores do limite de orçamento e como ele vai evoluir ao longo dos anos, especialmente diante do potencial que as grandes equipes ainda têm para gastar.
A missão sobre reduzir custos da F1 pode definir o sucesso ou o fracasso do Liberty Media (Foto: Reprodução)
Entre os principais itens que a F1 pretende tornar padrão estão: os sistemas de freios, a proibição de sistemas de suspensão hidráulica, radiadores, o congelamento dos parâmetros de desenvolvimento da caixa de câmbio. Tudo isso vem sendo amplamente discutido, porque são elementos que, segundo o comando do Mundial, tem potencial para reduzir os gastos. O uso do túnel de vento também é outro ponto que vem sendo alvo de discussões.
 
Os salários dos pilotos e dos principais membros das equipes devem ficar fora do teto orçamentário, além das ações de marketing, segundo Ross Brawn, o diretor-esportivo da F1.
 
De fato, o equilíbrio financeiro é o caminho mais adequado para que a Fórmula 1 seja capaz de criar igualdade de condições entre as equipes. O teto orçamentário, ainda que seja um dos tópicos mais controversos, não pode ser descartado, mas a padronização das peças parece ser um ponto dos mais fortes para anular o abismo técnico que hoje há no Mundial.
 
A FIA, as equipes e o Liberty Media têm até início de outubro para decidir que tipo de F1 o público vai ver a partir de 2021.
 

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