É hora de F1 virar criativa com formato dos GPs. E sem consultar equipes

Fim de semana com dois dias de atividade? Corrida de classificação? Variações de formato? Tudo isso está na mesa de discussões, mas enfrentando resistência das equipes de ponta. É mais um motivo para FIA e Liberty Media usarem pulso firme e levarem adiante mudanças que só podem fazer bem ao campeonato

Um fã mais ávido sabe de cor o formato do fim de semana de Fórmula 1. Dois treinos livres na sexta-feira, um terceiro no sábado, seguido da classificação, e, no dia seguinte, a corrida. É um formato em uso desde 2006 e que nunca causou problemas. Só que isso não é necessariamente algo bom: com a F1 em busca de formas de evitar a mesmice, talvez tenha chegado a hora de tirar as equipes da zona de conforto com a introdução de novos formatos.
 
Mesmo que sem querer, a F1 pôde sentir isso em Suzuka. Sabendo que as atividades de sábado seriam canceladas ou adiadas, as equipes trataram a sexta-feira de treinos livres como um dia crucial. O segundo treino livre, normalmente morno, rendeu bastante quilometragem. Serviu até mesmo de referencial para um possível grid de largada, caso não fosse possível realizar um treino classificatório na manhã de domingo. As abordagens recorrentes das equipes foram para o espaço, e a classificação trouxe resultados inesperados, vide Sebastian Vettel na pole após domínio completo da Mercedes nos treinos livres.
Mudanças no formato do fim de semana ainda não agradam equipes de ponta (Foto: Mercedes)

Por mais que a Mercedes tenha de fato vencido no domingo, com Valtteri Bottas, ficou nítido como uma variação de formatos pode ser algo positivo. Propostas como a de realizar uma corrida de classificação criam a chance de, dado um acidente, alguém precisar largar mais atrás do que de costume. Paciência. Equipes que tanto dependem de carros que rendem em voltas rápidas – estamos olhando para você, Ferrari – iam precisar se desdobrar para conseguir a melhor posição de largada possível no GP de verdade.

 
Chegamos a sonhar com corridas de classificação já em 2020. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) tinha um projeto desenhado, querendo corridas de classificação nos GPs de França, Bélgica e Rússia. Não por acaso, duas dessas renderam as corridas mais chatas do ano até aqui, o que indica que o formato poderia ser um antídoto contra o rotineiro. Acontece que a medida só seria aprovada para o ano que vem em caso de apoio unânime das equipes – que evidentemente não veio. Afinal, equipes como Mercedes e Ferrari não apoiariam um formato que arrisca prejudicar suas posições de largada, quase certas de serem na primeira ou na segunda fila no formato atual. Pedir o apoio das equipes foi como perguntar aos perus se eles querem que haja Natal este ano.
 
Desse jeito, a F1 só vai conseguir tentar uma mudança em 2021, quando não precisará pedir apoio unânime das equipes. Resta saber o que tal poder vai trazer, já que o plano de alterar o formato da definição do grid ainda não está tão sólido assim. O que se sabe é que a classificação vigente – Q1, Q2 e Q3 – tem futuro ameaçado, já que a FIA tenta desde 2016 encontrar uma nova fórmula, vide a infane classificação ‘mata-mata’ testada nos primeiros dois GPs de 2016.
Suzuka mostrou como um fim de semana encurtado pode ser divertido (Foto: Mercedes)

O que não deve mudar é o formato do resto do fim de semana. Muito por conta das dificuldades do ponto de vista logístico para equipes e categoria, a tendência é de que o futuro próximo siga com GPs de três dias de atividades. Não chega a ser tão ruim, já que uma nova fórmula de classificação bastaria para começar a chacoalhar as coisas. Entretanto, é necessário que a F1 não descarte a ideia por completo. O exemplo da Nascar, que varia o formato das etapas de fim de semana para fim de semana, não pode ser visto como algo impossível ou esdrúxulo.

 
Vai doer para as equipes? Vai, da mesma forma que as tentativas de introduzir teto orçamentário e de padronizar peças. Só que, se FIA e Liberty Media quiserem ter qualquer chance de alcançar sucesso na missão de transformar a F1, é preciso ter um pulso mais firme. Nem sempre é uma boa ficar na expectativa de um apoio das escuderias, seja ele unânime ou não.

 

Paddockast #38
CORRIDAS POLÊMICAS DA F1

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