Entre se ajoelhar ou ficar em pé, gesto só mostra quem é quem na Fórmula 1

Fazer um post nas redes sociais e dizer que não é racista para ganhar likes ou mostrar uma aparente consciência social é fácil. Muitos fazem das redes sociais um meio de comunicação institucional. Só que no primeiro momento em que se tem a chance de mostrar para o mundo seu posicionamento, o vazio discurso cai por terra

A esperada abertura da temporada 2020 da Fórmula 1 definitivamente mostrou quem é quem. Não se trata somente da ordem de forças entre as equipes do grid. A questão, desta vez, vai além e diz respeito às manifestações de ontem, pouco antes da largada do GP da Áustria, contra o racismo.

Os olhos do mundo estiveram voltados para Spielberg no último domingo. Afinal, a Fórmula 1 foi a primeira competição de caráter verdadeiramente mundial a voltar às atividades neste período ainda pandêmico em que vivemos. É uma Fórmula 1 nova, que se mostra aberta à inclusão e à diversidade e firma seu posicionamento, finalmente.

Nesta luta, Lewis Hamilton, único piloto preto na história da categoria e um dos maiores de todos os tempos, é o grande líder, cuja voz ecoou muito forte ao longo deste incomum 2020 ao protestar contra as injustiças sociais e a repressão policial, não somente nas redes sociais, mas com atitudes, como ir para as ruas em Londres.

Lewis Hamilton lidera protesto contra o racismo antes do GP da Áustria. Mas houve quem não se ajoelhou (Foto: AFP)

O gesto da tarde de ontem no Red Bull Ring foi histórico. Ao lado de Hamilton, outros 13 pilotos se ajoelharam para protestar e dar o seu recado durante a execução do hino austríaco. São eles: Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo, Romain Grosjean, Valtteri Bottas, Esteban Ocon, Sergio Pérez, Kevin Magnussen, Lance Stroll, Lando Norris, Pierre Gasly, George Russell, Nicholas Latifi e Alexander Albon.

Por outro lado, o gesto de não se ajoelhar e se manter em pé, protagonizado por Kimi Räikkönen, Charles Leclerc, Antonio Giovinazzi, Max Verstappen, Carlos Sainz Jr. e Daniil Kvyat é de uma pequenez atroz.

Chama mais a atenção a não-atitude de dois dos principais nomes da Fórmula 1 atual. Leclerc, pelas redes sociais, disse que “o que importa são fatos e comportamentos em nossa vida cotidiana, em vez de gestos formais que poderiam ser vistos como controversos em alguns países”. Max Verstappen foi na mesma linha. Uma vergonhosa desculpa.

Meses atrás, Hamilton reclamou da postura dos seus colegas de grid na Fórmula 1 e até da Mercedes que, diante do clamor por um mundo mais justo e livre de preconceito, permaneceram inertes e em silêncio. Lewis se disse sozinho na batalha. Depois do manifesto do hexacampeão, pilotos como Norris e o próprio Leclerc se manifestaram por meio das redes sociais contrários ao racismo.

A Mercedes, muito mais que a histórica iniciativa de trocar a tradicional cor prata pelo preto no W11 em 2020 para marcar posição contra o racismo e qualquer tipo de preconceito, se comprometeu a ser mais abrangente e aberta à diversidade nos seus quadros. Um avanço que, ao que parece, vai muito além de somente mudar a pintura dos seus carros.

Charles Leclerc e Max Verstappen se justificaram nas redes sociais sobre ficarem em pé durante manifestação (Foto: AFP)

Fazer um post no Twitter ou no Instagram, subir hashtags e dizer que não é racista, seja para ganhar likes ou para mostrar uma aparente consciência social é mamão com açúcar. Está cheio de pilotos e personalidades que fazem das redes sociais um meio de comunicação institucional. Só que a questão vai mais além quando, no primeiro e talvez único momento em que se tem a chance de mostrar para os olhos do mundo seu posicionamento, o vazio discurso das redes sociais cai por terra diante de uma atitude que só reflete quem é quem de verdade.

Em termos de ação prática, o ato de se ajoelhar pode não mudar muita coisa, mas o que vale mesmo é a mensagem. “No fim das contas, tudo que fizermos não será suficiente. Precisamos sempre fazer mais. Acho que tivemos maior conscientização nessas últimas semanas. O que nós realmente não precisamos é que isso morra por completo, desapareça e fiquemos sem mudanças”, disse Lewis Hamilton.

Para finalizar, fique com as palavras sempre corretas de Angela Davis. “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

Texto originalmente publicado na Newsletter GP nesta segunda-feira. Assine (no rodapé da home do GRANDE PRÊMIO) para receber.

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