Ferrari trabalha bem na SF-23 e tem potencial, mas esbarra em erros de pilotos e gerência 

A Ferrari vive um começo de temporada aquém do esperado. Ainda assim, o carro é melhor do que parece e o problema maior está nas garagens. Charles Leclerc e Carlos Sainz teimam em erros, enquanto a chefia se vê às voltas com uma irritante querela com a FIA

Impressiona como a vida da Ferrari virou do avesso em um prazo de apenas 12 meses na Fórmula 1. Depois de renunciar ao campeonato de 2021 como forma de preparação para a revolução que a F1 atravessou em 2022, o time vermelho acertou o projeto inicialmente e levou à pista um modelo rápido e consistente. Venceu duas das três primeiras corridas e, nesse mesmo período do ano, liderava a tabela com Charles Leclerc. Não dá para dizer onde exatamente a equipe tomou um caminho errado, mas é fato que esse rumo acabou por tirar qualquer chance de título na temporada passada. Em 2023, a escuderia reiterou as ideias colocadas em prática no começo do regulamento e tentou aperfeiçoá-las, só que, neste momento, é evidente que algo está novamente fora da rota.

E isso se torna mais claro diante do cenário do campeonato: a Ferrari é a quarta colocada no Mundial, com somente 26 pontos. Não foi ao pódio ainda e vê sua dupla de pilotos longe da ponta, com Carlos Sainz em quinto e Charles Leclerc apenas na décima posição. É muito pouco, para um time que vislumbrava a revanche para cima da Red Bullque comanda a classificação sem opositores. O ponto aqui é que a esquadra de Maranello parece lidar com muitas variações ao mesmo tempo, embora não tenha nas mãos um carro realmente problemático, como é o caso da rival Mercedes. Dá para dizer que as questões mais delicadas dos italianos estão mais voltadas para as garagens do que propriamente para a máquina.

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Isso porque a SF-23 é um carro muito melhor do que parece, especialmente depois das intervenções feitas durante o GP da Austrália. É bem verdade que a equipe enfrentou problemas no Bahrein e na Arábia Saudita. O desgaste acentuado dos pneus é algo preocupante, assim como a confiabilidade, que falhou miseravelmente, forçando abandonos e trocas de peças da unidade de potência, o que já ocasionou punições. Acontece que os engenheiros foram capazes de interpretar melhor esse carro e conseguiram alguns avanços em Melbourne. Não ficou claro onde o time mexeu, de fato, uma vez que não levou atualizações. Mas entende-se que houve uma compreensão maior do acerto geral, em termos de chassi e de outras partes mecânicas.

Apesar da classificação ter deixado a desejar, o ritmo de corrida foi muito forte no Albert Park. A Ferrari tirou proveito de um asfalto menos agressivo e soube como acertar a SF-23 para trabalhar bem com ambos os compostos. Sainz imprimiu um desempenho consistente, mesmo com a falta de sorte do pit-stop antes da primeira bandeira vermelha. O espanhol caiu para 11º, mas foi capaz de escalar o pelotão. Em pouco menos de 15 voltas, já figurava em quarto, não muito distante de Lewis Hamilton e Fernando Alonso, que também tentavam um embate. É correto dizer que os tempos de volta foram muito parecidos, em alguns momentos melhores até, do que dos rivais. E isso é uma prova da qualidade do carro vermelho.

“Tomamos uma direção de desenvolvimento diferente em Melbourne, que melhorou o equilíbrio do carro e, portanto, o uso dos pneus. Valeu a pena, ainda que o resultado tenha sido frustrante no fim”, reconhecei o chefe ferrarista, Frédéric Vasseur. “O ritmo estava bom, depois Carlos teve azar na primeira bandeira vermelha e tivemos que fazer um pit-stop extra. Mas, apesar de tudo, ele conseguiu se recuperar, usou muito bem os pneus e, no final, ficou perto do Alonso. Foi uma boa prova e a direção que tomamos para o desenvolvimento é provavelmente a certa. Agora temos que confirmar tudo em Baku”, completou.

A Ferrari não pretende levar nada muito ousado para o Azerbaijão e com razão. O próprio Vasseur confirmou que não tem como objetivo mudar o carro, porque as condições da pista devem favorecer a equipe, do ponto de vista da performance em linha reta. Além disso, o dirigente também apontou a corrida sprint como um ponto importante. Será a primeira experiência com o formato em Baku, e isso desencoraja qualquer teste de novas peças, também porque a programação deve limar dois treinos livres.

Mas a escuderia prepara mudanças acentuadas no carro. Muito embora tenha mostrado otimismo após a corrida em Melbourne, Vasseur se mostrou preocupado com a diferença para a Red Bull. E diante disso, o chefão já projeta uma antecipação das novidades. A ideia é implementar alterações e atualizações em Miami, Ímola e Barcelona. No entanto, o time não trabalha com a possibilidade de uma versão B da SF-23, como a Mercedes deve fazer com seu W14. A real é que a Ferrari, de fato, não precisa. “Os engenheiros ainda veem muito potencial neste carro. Faz sentido desenvolvê-lo ainda mais.”

Frédéric Vasseur encara temporada 2023 com otimismo (Foto: Ferrari)

“Há sempre um plano de desenvolvimento antes do início da temporada, mas, ao mesmo tempo, há espaço para mudanças dependendo das necessidades do carro. Agimos muito rapidamente, com as mudanças em Melbourne. Mas não podemos mudar maciçamente o plano, há restrições orçamentárias, mas conseguimos acelerar o processo, algumas inovações originalmente planejadas para Barcelona vão chegar antes, em Ímola”, explicou o francês.

Portanto, e correndo o risco de queimar a língua, é possível dizer que a Ferrari acerta ao trabalhar de forma mais cautelosa, uma vez que entendeu o potencial do carro. Mas há outros aspectos que não acompanham esse movimento. E um deles está na dupla de pilotos. Leclerc e Sainz ainda cometem erros que ajudam a tirar o foco dos italianos. Na Austrália mesmo houve problemas na classificação e também na corrida – ações que foram decisivas para a posição do time na hierarquia de forças.

Uma das razões pela qual as colocações de largada foram abaixo do esperado teve a ver com os pilotos. O madrilenho errou em freadas em sua volta rápida, enquanto o monegasco não cumpriu a estratégia definida pela equipe e acabou tentando o giro final sem uma volta de aquecimento apropriada. Já na corrida, Charles se mostrou afobado e ficou fora antes mesmo de completar a primeira volta. Carlos, por outro lado, se jogou como se não houvesse amanhã na relargada final. Acertou Alonso e perdeu pontos preciosos, depois de uma prova tecnicamente espetacular. Tudo isso só no fim de semana australiano, mas há outros exemplos.

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“Tenho um bom relacionamento com Charles e tenho certeza disso. Então, quando conversamos acaloradamente, alguns minutos depois de sair do carro, tanto Charles quanto Carlos não podem estar felizes, e devo acrescentar que ficaria muito frustrado se os visse relaxados e felizes neste momento. O início de temporada não foi o que queríamos, houve o abandono no Bahrein, a punição em Jedá e novo abandono em Melbourne, que, com certeza, não estava nos planos, mas a motivação está intacta”, assegurou o chefe.

Ainda que Vasseur cumpra seu papel e defenda a motivação de seus pilotos, com palavras inspiradoras para Leclerc e a defesa de Sainz na punição aplicada pelos comissários em Melbourne, é preciso que eles coloquem a cabeça no lugar e que o ambiente dentro das garagens permita isso. Foram erros assim que colocaram tudo a perder em 2022, quando o carro ferrarista ainda mandava na Fórmula 1. O cenário pode se tornar sombrio quando ainda se busca um posto destaque.

E como se não fosse o bastante, há ainda a intenção de apelar da punição de Sainz na Austrália. A Ferrari acredita ter um fato novo para apresentar e convencer os comissários de que a forma como se deu a sanção não está correta. Porém, diante do caso, parece uma empreitada difícil, não só pela culpa do piloto, mas também pela maneira como a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) age nesses casos. Mais uma vez, é uma briga vazia e que só serve para desviar daquilo que realmente importa – algo que a Ferrari não pode se dar ao luxo.

Fórmula 1 entrou em um recesso forçado de quatro semanas, por conta do cancelamento do GP da China, e retoma a temporada 2023 entre os dias 28 e 30 de abril, com o GP do Azerbaijão, nas ruas de Baku.

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