Bortoleto vive noviciado padrão na F1 2025, mas salto da Sauber tende a botar pressão

Gabriel Bortoleto vive um 2025 em que ganhou o direito e ser um novato padrão, e assim tem sido, com dores e delícias. É positivo, mas a melhora da Sauber tem condição de acelerar processos

A temporada de estreia de Gabriel Bortoleto na Fórmula 1 chegou à marca oficial na metade há duas semanas, com o GP da Inglaterra. Foi a 12ª das 24 corridas da temporada e cimentou uma janela de observação para aquilo que todos os pilotos, mas sobretudo os novatos, mostraram nos primeiros movimentos enquanto titulares da categoria. No caso de Bortoleto, o campeonato se apresenta como uma curva padrão de piloto estreante, com demonstrações claras do que há de positivo e do que é imperativo que se evolua. Mas há mais coisa boa que ruim na contagem geral até agora.

O mais importante no escopo de uma temporada inicial dum jovem piloto na F1 é entender primeiro qual a base do talento há ali e definir se é o suficiente para partir deste ponto em diante e merecer espaço na categoria. Depois, avaliar honestamente a curva de desenvolvimento tanto no desempenho geral quanto na adaptação às necessidade da equipe e do carro. Nem sempre é fácil, já que grande parte do trabalho é de interno e do qual se sabe pouco. Mas dá para operar avaliações da pista.

No caso de Bortoleto, as notícias boas são mais claras. É verdade que são apenas quatro pontos contra 37 de Nico Hülkenberg e uma corrida no top-10 versus cinco do companheiro de equipe. E, nestes dados, voltaremos em alguns instantes. Mas primeiro voltemos ao início do ano, quando Helmut Marko, consultor da Red Bull, fez comparação entre Gabriel e Isack Hadjar que irritou alguns torcedores mais inebriados pelo verde e o amarelo da bandeira.

“Vejo Gabriel Bortoleto como um piloto de classe B. É um piloto que leva o carro para casa e tende a se manter longe de problemas, mas ganhou o campeonato da Fórmula 3 com apenas uma vitória. Na Fórmula 2, ele teve apenas duas vitórias. Ele é um piloto muito inteligente, tem um sólido domínio da estratégia e do gerenciamento de pneus, mas não vejo essa velocidade pura nele”, apontou.

Gabriel Bortoleto quebrou quase oito anos de jejum do Brasil na F1 ao marcar pontos (Foto: AFP)

Sem sobressaltos biliares, vamos lá. Bortoleto se notabilizou por entender muito bem as corridas e se adaptar àquilo que a realidade pedia de cada corrida. E por isso é interessantíssimo ver que, em ritmo de classificação, Bortoleto e Hülkenberg estão empatados no ranking da comparação direta na temporada, com sete vantagens para cada um em formações de grid [levamos em conta para essa contagem as duas classificações sprint, além das 12 oficiais]. Mais que isso, Gabriel levou a melhor em cinco das últimas sete.

E o que isso quer dizer? Em primeira instância, que há velocidade ali, claramente. Bortoleto consegue acelerar o carro no momento em que apenas o máximo desempenho conta e superar até um veterano de qualidade reconhecida como Hülkenberg, que vive, dá para argumentar, o melhor ano da carreira. Tradicionalmente, é bem verdade, é essa a parte mais fácil de pegar quando alguém chega na primeira divisão que é a F1: a velocidade. E mostra ter.

Mas Hülkenberg tem quase 38 anos, idade que completa exatamente daqui um mês, no dia 19 de agosto, e uma década e meia de experiência na Fórmula 1. Quando a comparação é levada às corridas, é aí que o alemão abre vantagem. Com a especialidade que mostra há tempos, reforçada na retomada da carreira da F1 desde 2023, ‘Hülk’ sabe desenhar bem as estratégias adaptadas ao calor das corridas e preparar o ataque para a parte final. É essa compreensão que o coloca em outro nível em relação ao novato com quem divide a garagem.

Essa era a força maior que Bortoleto mostrava nas categorias-satélite, a compreensão panorâmica das corridas, mas também é aquilo que mais tem dificuldades de ser traduzido num primeiro momento na F1, onde a competição é incomparavelmente mais forte e os carros, mais exigentes. Na Inglaterra, por exemplo, Bortoleto tentou o pulo do gato com alguns outros felinos pingados, mas viu tudo dar errado rapidamente. Hülkenberg seguiu um caminho aparentemente mais cauteloso e soube usar as variáveis da corrida a seu favor. O resultado foi o pódio.

Desde o começo das atualizações que fizeram a Sauber chegar a este meio de campeonato em patamar diferente ao que passou as oito primeiras provas do ano, Bortoleto viu de tudo. O erro da Inglaterra conta parte da história, sim, mas a atuação como guarda-costas de Nico no Canadá, ajudando a proteger os pontos que a Sauber conquistaria, também. Sobretudo a atuação de gala que teve no GP da Áustria, onde ficou entre os dez primeiros colocados em todas as atividades do fim de semana. Terminou a corrida num oitavo lugar um tanto enganoso, porque foi apenas uma estratégia arriscada de Aston Martin e Racing Bulls que fez com que não chegasse no sexto posto, que seria o mais condizente com o ritmo mostrado em Spielberg. Foi o piloto mais rápido fora das principais equipes do grid. E foi agressivo, sem querer negociar muito com o mentor Fernando Alonso nas voltas finais. Não deu para passar, mas ao menos não se escondeu.

Tudo isso enquanto se adapta aos carros da F1, nos quais pouco havia andado antes deste ano. Embora erros, como o da Inglaterra e da Austrália, por exemplo, sejam parte do pacote de apresentação que faz na F1, também dá para apontar que são poucos em condições normais de temperatura e pressão dada a agressividade que demonstra. Um levantamento do portal inglês The Race aponta para um dado interessante na pilotagem do jovem. “[Bortoleto] tem sido impressionante em curvas de alta velocidade e muitas vezes, embora não seja sempre, decida por frear um tanto mais tarde, num estilo mais agressivo nas curvas lentas”. Enquanto isso, Hülkenberg “freia mais cedo para manter a plataforma mecânica do carro na janela certa para o efeito aerodinâmico”.

Gabriel indica estar disposto a testar do seu próprio jeito e também o de Nico. “Quero ser o piloto mais completo possível. Não quero ser alguém que só quer fazer as coisas de um jeito, não acho que seja certo. É preciso de adaptar às condições que se tem”, disse aos ingleses.

Mesmo que com a falta de entendimento ou paciência geral quanto aos resultados totais, grande parte do público da F1 vem dando tempo para Bortoleto operar levando em conta o fato de que, conforme o esperado, tinha o pior carro do grid. Nas primeiras oito corridas da F1 2025, a Sauber só pontuou uma vez, com Hülkenberg, na Austrália, em situação totalmente circunstancial. As coisas mudaram, porém. A partir da Espanha, atualizações voltadas para o rendimento de corrida; duas provas depois, na Áustria, para a classificação. E, assim, como num passe de mágica, a Sauber pontuou em todas as quatro provas mais recentes e saiu de seis para 41 tentos no Mundial de Construtores. Do décimo para o sexto lugar, já pressionando a quinta colocada Williams.

Com a nova realidade e o recém-concebido estado de exposição na zona de pontos, a segunda metade será de mais pressão. Pode ser justa ou não, mas o que importa é que a certa área de escape dada para evoluir vai virar maior gritaria conforme os carros verdes ganharem poder de pontuar constantemente. Bortoleto terá de lidar com isso, um elemento a mais junto a todos os outros pratos que precisa equilibrar no primeiro ano, enquanto novato. Semelhante ao que vive Andrea Kimi Antonelli na Mercedes.

O ponto positivo para ele é, também, que um grande fim de semana será recompensado, muito provavelmente, com boa quantidade de pontos. A recompensa deixa de ser sorrisos e tapinhas nas costas no retorno à fábrica e passar a ser verdadeiro cenário onírico, como aconteceu na Áustria. São as dores e delícias de uma verdadeira temporada de estreante.

Fórmula 1 volta de 25 a 27 de julho em Spa-Francorchamps, que recebe o GP da Bélgica.

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