GUIA 2023: FIA recua na tentativa de reatar relação estremecida com Fórmula 1

Em uma verdadeira briga de gigantes, FIA tem ano desafiador pela frente para recuperar parte do prestígio arranhado após recentes brigas com pilotos e a chefia da Fórmula 1

Em outubro de 1974, o Zaire (atual República Democrática do Congo) foi palco de uma das maiores lutas de boxe de todos os tempos, entre dois campeões do mundo: George Foreman e Muhammad Ali. Após oito rounds de uma batalha ferrenha, amplamente dominada por Foreman, Ali aproveitou o cansaço do adversário e o levou à lona. Com isso, unificou três cinturões – que seriam mantidos pelos três anos seguintes. A referência da lendária luta pode parecer estranha dentro do cenário político que envolve a Fórmula 1. Mas explica-se: a mais importante categoria do esporte a motor é palco de uma batalha igualmente épica – ainda que, lamentavelmente, fora das pistas.

De um lado, a Federação Internacional do Automóvel (FIA); do outro, a F1 no papel do Liberty Media, o detentor dos direitos comerciais do Mundial. Neste momento, as duas das principais figuras do automobilismo estão longe de um entendimento.

E, assim como no embate entre Ali e Foreman, vencedor e perdedor foram claramente identificados. Enquanto o grupo de empresas que gerencia a Fórmula 1 parece mais fortalecido, a entidade máxima do automobilismo precisa se recuperar de muitos ferimentos, alguns adquiridos bem recentemente. Derrota, aliás, que pouquíssimas vezes sofreu em uma história já centenária.

Desde que a nova gestão assumiu a FIA, em dezembro de 2021, a relação com a Fórmula 1 tem se deteriorado. A decisão de trocar Michael Masi por dois diretores de prova não funcionou. Mais tarde, as medidas que aprofundaram a fiscalização de joias usadas por pilotos também gerou polêmica, sem falar em uma diretiva técnica sem a participação das equipes – a ação foi feita para tentar minimizar o porpoising dos carros, mas boa parte do grid não concordou. Ainda, fala-se de certa irritação do Liberty Media na demora da entidade em publicar o regulamento dos motores para 2026, some-se a isso o fato de que o órgão que rege o campeonato publicar, sem qualquer acordo, o calendário da temporada.

Como se tudo isso não bastasse, em dezembro passado, a FIA cavou um pouco mais fundo e instalou um novo ponto de divergência. À época, a federação, por meio de uma atualização do Código Desportivo Internacional, proibiu pilotos de manifestações “políticas, religiosas e pessoais” sem autorização.

Presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem se tornou uma figura central no embate da entidade com a Fórmula 1 (Foto: Mark Thompson/Getty Images/Red Bull Content Pool)

Por razões lógicas, o assunto caiu como uma bomba na comunidade de pilotos das categorias geridas pela FIA. Em especial, logicamente, os de Fórmula 1, causando veloz repúdio por parte de gente como Max Verstappen, Sergio Pérez, Valtteri Bottas, Lando Norris e Sebastian Vettel, que pendurou o capacete ao término da temporada 2022.

Contudo, a grande voz contra a FIA segue sendo a de Lewis Hamilton. Figura central de protestos contra o racisamo no esporte, no qual os pilotos se ajoelhavam antes das largadas, além de ações pontuais, como no GP da Toscana de 2020, quando usou uma camiseta com a frase ‘Prenda os policiais que mataram Breonna Taylor’.

Assim que o carro da Mercedes foi apresentado ao mundo, Hamilton não perdeu tempo e garantiu que não pretende parar os protestos ou manifestações. “Nada vai me parar”, assegurou o heptacampeão. “O esporte ainda tem a responsabilidade de sempre falar sobre as coisas, de criar consciência sobre tópicos importantes, especialmente porque estamos viajando para lugares diferentes”, completou.

Logicamente, para a FIA, a postura do britânico e de colegas sempre pareceu algo comercialmente ameaçador, sobretudo em um período no qual o calendário passou a ter GPs na Arábia Saudita e Catar, países que, continuamente, são acusados de violações aos direitos humanos.

Mas o time dos pilotos ganhou um considerável reforço: a própria F1, que por meio do CEO, Stefano Domenicali, assegurou que não permitirá à FIA “colocar mordaça” nos pilotos.

Não há dúvidas de que, como em uma luta de boxe, a FIA ‘sentiu o golpe’. E em 18 de fevereiro passado, deu um sinal de um pequeno recuo, detalhando o controverso artigo 12.2.1.n. do Código Desportivo Internacional.

Embora alguns pontos ainda possam parecer razoavelmente nebulosos, se trata de um passo à frente para a comunidade de pilotos, que, diferentemente de outras épocas, parece mais organizada e engajada como um grupo na busca por uma causa. E essa é uma força da qual a entidade tem de temer.

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Domenicali garantiu: a F1 não vai permitir mordaças aos pilotos (Foto: F1)

Ainda há mais por trás da queda de braço

Quem acredita que a questão dos pilotos é o único ponto da queda de braço entre FIA e F1 engana-se. Ainda em janeiro, ambos trocaram farpas após o presidente da federação, Mohammed Ben Sulayem, classificar como exorbitante a proposta de compra da Fórmula 1 – entende-se que o fundo da Arábia Saudita sondou o Liberty Media em um negócio estimado em US$ 20 bilhões (R$ 104 bilhões, na cotação atual).

“Como responsável pelo automobilismo, a FIA, como organização sem fins lucrativos, é cautelosa sobre o suposto valor inflacionado posto sobre a F1”, escreveu o cartola em seu perfil no Twitter.

Logo, se a relação entre FIA e o grupo americano já andava estremecida por conta da polêmica dos pilotos, desmoronou de vez. Isso porque o Liberty Media enviou uma carta à entidade, pedindo uma retratação e não pouco em ameaças. Foi o movimento mais forte visto até momento na crise entre os dois lados da maior categoria do esporte a motor.

Alguns dias depois, a FIA anunciou o afastamento do presidente dos assuntos relacionados à Fórmula 1. Tal posto passou às mãos de Nikolas Tombazis.

Mais do que uma escolha lógica sob o ponto de vista hierárquico – como chefe de assuntos técnicos para monopostos da federação, o grego dispõe de “bom trânsito” entre pilotos e equipes, tendo trabalhado por Manor, Benetton, McLaren e Ferrari, inclusive no mesmo período em que Domenicali.

Em outras palavras, esse parece um claro sinal de uma tentativa de reaproximação com os americanos responsáveis pela promoção da F1.

E quais são os desafios da FIA para 2023?

Não há dúvidas que a Fórmula 1 vive um instante mágico sob o ponto de vista da popularidade e do marketing. Em linhas gerais, nunca foi um produto tão valioso.

Muito mais do que a proposta de US$ 20 bilhões para a compra do campeonato, a audiência das provas está em alta ao redor do mundo. Apenas em 2021, a audiência acumulada na TV alcançou 1,5 bilhão de telespectadores, um acréscimo de 4% em relação ao ano anterior.

Ou seja, em apenas 12 meses, 70,3 milhões de pessoas a mais passaram a acompanhar o campeonato.

Além disso, a F1 tem conquistado cada vez um mercado desejado há décadas: o dos Estados Unidos. Não à toa, neste ano, contará com nada menos que três etapas: Miami, em 7 de maio, Austin, em 22 de outubro, e Las Vegas, em 18 de novembro.

GP de Las Vegas pretende se manter na F1 até ao menos 2032 (Foto: Reprodução)

Diante de um cenário como esses, a FIA, mesmo com o espectro não comercial, sabe que deve prestigiar aquela que é a grande categoria do esporte a motor mundial. Nesse sentido, a escala de Tombazis como interlocutor entre a federação e o Mundial terá um papel essencial para o processo de paz.

Ao mesmo tempo, a FIA também se vê na corda bamba com os pilotos. Em tempos em que ganharam posição de influenciadores, cerceá-los, mesmo que sob defesa de regulamentos, pode render uma antipatia da qual já precisa combater.

E, em meio a esse cenário, a Fórmula 1 inicia a 74ª temporada da história, com o GP do Bahrein. Um período que, para a FIA, se assemelha àquela pausa entre rounds de uma luta de boxe. Um tempo para reavaliar direcionamentos, mudar estratégia e não ser nocauteada pela arrogância.

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