GUIA 2023: Pré-temporada vê Red Bull real, esconde-esconde e flerte com desastre

A Red Bull causou espanto em suas rivais ao longo dos testes coletivos da Fórmula 1 no Bahrein. O RB19 parece ser uma evolução sofisticada do ótimo RB18 e não há como negar a sensação de que os taurinos seguem para um ano de domínio em 2023. Mas a pré-temporada reservou outros cenários e resultados inconclusivos, o que abre a chance de surpresas a partir deste fim de semana

Embora esteja prestes a viver o maior campeonato de sua história, a Fórmula 1 reservou apenas três dias de pré-temporada para as equipes como forma de preparação para 2023. Não à toa os testes coletivos aconteceram no Bahrein, onde neste fim de semana o Mundial dá o pontapé inicial. Foram sessões intensas de atividades que começaram a mostrar que cara a F1 vai ter a partir de 5 de março. E nesse sentido não há como disfarçar: a Red Bull já ocupa o posto de favorita. No entanto, o cenário revelado em Sakhir abriu espaço para outros elementos e algumas surpresas que tendem a apimentar um pouco mais a disputa.

No que diz respeito aos taurinos, é importante destacar o trabalho sofisticado realizado pela equipe de engenharia e aerodinâmica. O projeto assinado por Adrian Newey surpreendeu em muitos aspectos, porque trouxe novos conceitos e uma interpretação mais profunda do regulamento, enquanto grande parte grid buscou no RB18 de 2022 o ponto de partida para tentar um salto de qualidade neste ano.

O foco inicial do novo carro foi aprimorar o fluxo de ar, por isso o RB19 ganhou uma espécie de assoalho duplo. O modelo também apresentou pequenos avanços na parte traseira e na suspensão. Outro elemento importante foi a perda de peso – em 2022, a Red Bull começou o ano muito acima do limite mínimo e brigou com a balança praticamente o campeonato todo. Agora, o RB19 surgiu mais leve. O time perdeu pouco em velocidade de reta porque apostou em um carro capaz de gerar maior downforce. O difusor traseiro chamou a atenção pelo desenho inovar e também contribuiu para esse objetivo da engenharia.

Diante disso, o modelo energético se mostrou rapidamente consistente. A Red Bull chegou ao Bahrein para a pré-temporada com um programa técnico muito específico: inicialmente, perseguiu a meta de acumular quilometragem e foi bem-sucedida. Apenas no primeiro dia, Max Verstappen deu quase 160 voltas. A partir daí, o time investiu em entender o carro para o primeiro fim de semana de corrida. A esquadra se concentrou em sints longos com carga mais alta de combustível, usando os pneus da gama que a Pirelli vai entregar na etapa barenita. Ou seja, o C1, C2 e C3 a alocação mais dura da fabricante italiana para o campeonato.

E aí veio o espanto: Verstappen e Sergio Pérez foram capazes de imprimir um ritmo poderoso entre 0s2 e 0s4 mais rápidos que a Ferrari – equipe que mais se aproximou dos taurinos. A performance em volta única é forte, mas a constância em desempenho de prova falou mais alto. Ao longo dos trabalhos, a equipe enfrentou apenas uma falha técnica – foi durante a tarde do segundo dia.

Pérez ainda foi o responsável por fazer a Red Bull finalizar os testes com o tempo mais rápido. Andando com os C4 e em ritmo de classificação, o mexicano alcançou 1min30s305. O registro foi importante porque colocou a performance dos rivais em perspectiva, uma vez que Ferrari e Mercedes precisaram recorrer ao C5 para tentar tempos mais rápidos. Lewis Hamilton, o dono da segunda melhor marca da pré-temporada, ficou a 0s359 de Pérez, mas usando os compostos mais macios do quadro da Pirelli.

Aliás, a performance geral do carro, o equilíbrio em todos os setores e o melhor entendimento com os pneus fizeram com que o dia final fosse dedicado à estratégia para esse fim de semana. Uma vantagem que coloca a esquadra como favoritaça à vitória neste domingo.

Coube a Verstappen resumir a posição de força da Red Bull. “Acho que a pré-temporada de testes foi muito positiva para nós. O equilíbrio do carro provou ser bom desde o início e, como resultado, foi possível tentar acertos diferentes. É bom, porque assim você aprende muito sobre o carro”, afirmou o bicampeão.

Max Verstappen impressionou nos testes coletivos do Bahrein (Foto: AFP)

“É definitivamente uma melhoria em relação ao ano passado”, ainda destacou o holandês. “Não é apenas confiança, mas também desempenho real. Acho que esses dias de testes foram muito positivos e aprendemos muito. Esperamos começar bem o fim de semana e depois veremos onde terminamos”, acrescentou.

Mas se parece não haver dúvidas sobre as armas da Red Bull para 2023, o mesmo não se pode falar da Ferrari. A equipe vermelha, agora chefiada por Frédéric Vasseur, deixou a pré-temporada com um ar de quem escondeu o jogo lindamente, muito embora às vezes seja difícil de mascarar todas as informações. O caso é que a escuderia tem um carro bem-nascido. A SF-23 é elegante e segue os mesmos parâmetros do último ano, apostando nas ‘barrigas’ acima das entradas de ar, além de um enorme trabalho feito na asa dianteira – curiosamente uma ideia que a Mercedes tentou emplacar no ano passado. O assoalho foi redesenhado, mas é uma evolução das atualizações realizadas no ano passado.

O modelo italiano continua rápido, mas a engenharia procurou corrigir os equívocos de 2022, acreditando também em mudanças na asa traseira, para tentar aperfeiçoar a velocidade de reta, e esse parece ter sido o grande avanço do time. Só que o alerta geral ficou para a diferença notória em termos de ritmo de corrida. A Red Bull é melhor e mais consistente. Mesmo assim, a esquadra entende que as condições do clima e da pista nas diferentes horas do dia tiveram um impacto grande no programa técnico. Daí a insistência de Vasseur em uma espécie de Ferrari paz e amor neste ano.

“Acho que tudo foi bem feito. Tivemos três dias para escanear o carro e fazer todos os testes planejados. Os fins de semana de corrida são uma história completamente diferente e não refletem exatamente o que se vê em sessões como essa”, afirmou o francês ao fim da pré-temporada.

A Ferrari escondeu o jogo na pré-temporada (Foto: Ferrari)

Enquanto os italianos parecem tranquilos, os alemães (e ingleses) da Mercedes estão mais preocupados. A pré-temporada da oito vezes campeã foi bem mais agitada. A equipe apostou novamente no zeropod e em um carro mais estreito, mas promoveu mudanças importantes em áreas fundamentais como o assoalho, a suspensão dianteira, as laterais, entradas de ar e toda a parte traseira. A ideia é que o carro seja capaz de gerar pressão aerodinâmica e que possua maior equilíbrio em curva, além de uma maior velocidade de reta.

Nem tudo funcionou a pleno. Ainda que tenha se livrado dos quiques, o W14 perde em performance para as duas rivais. Estima-se que seja 0s6 mais lento que o RB19, por exemplo. O modelo sofre com o arrasto, mas apresentou algo importante: sabe como lidar bem com os pneus e tem, mesmo assim, um ritmo consistente.

Há uma preocupação com a confiabilidade do conjunto, mas também com as decisões aerodinâmicas. Houve uma brusca queda de rendimento no segundo dia que levou a uma investigação do time. E declarações do chefe Toto Wolff também colocaram um enorme ponto de interrogação em cima do projeto da equipe de Brackley. Isso porque o dirigente já fala em deixar o carro mais parecido com os demais do grid, sendo que a Mercedes tem um conceito muito único, além da consideração de que um grande pacote de atualizações pode ser antecipado.

O fato é que a equipe que dominou a era híbrida da F1 ainda não parece tão segura em relação à própria criação. E isso abriu espaço para uma surpresa da pré-temporada: a Aston Martin. O carro verde foi destaque pela versatilidade do projeto de Dan Fallows. O AMR23 tem clara inspiração na Red Bull, especialmente nas soluções do assoalho e na lateral, mas tem possui elementos da Ferrari, como as ‘barrigas’ acima das entradas de ar, além dos sidepods. O modelo também tem outras inventividades e se mostrou muito rápido.

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A esquadra britânica tentou uma abordagem muito aparecida com a das equipes de ponta. Ou seja, valorizando mais os estudos do ritmo de corrida do que propriamente em tempos de volta. Dentro desse aspecto, o desempenho da Aston Martin chamou a atenção pela consistência, uma vez que o time usou mais os compostos C1, C2 e C3 – que serão novamente utilizados no primeiro GP do ano. Houve problemas de confiabilidade, como a pane elétrica no dia inicial das atividades, com Felipe Drugovich, mas nada muito anormal.

E o que se tira neste momento é que a esquadra de Lawrence Stroll parece reunir todas as peças para um campeonato mais sólido, tendo em Alonso um trunfo de peso, especialmente para o desenvolvimento do carro ao longo do ano. Também vale dizer que o espanhol foi o piloto que mais andou durante os três dias: 270 voltas ao todo. É claro que há de se colocar na balança que o bicampeão teve mais tempo de pista do que o resto, por conta da ausência de Lance Stroll – Drugovich substituiu na manhã do primeiro e do terceiro dia. Já Fernando tomou para si o trabalho no restante do período. Nada mais justo, sendo o piloto mais experiente.

Outro fator é: a performance da marca inglesa também a coloca mais próxima da Mercedes do que do pelotão intermediário, e essa é talvez a notícia mais impactante dos testes.

Na esteira da Aston Martin, está a Alfa Romeo. O C43 impressionou durante a pré-temporada. O modelo tem ritmo de corrida dos mais valentes – nem Alpine e nem McLaren foram capazes de chegar no desempenho dos suíços. A confiabilidade é o único ponto de interrogação. “Está muito melhor do que no ano passado, sim. Ainda há uma tendência de o carro ser um pouco neutro nas curvas de alta velocidade, mas nas de baixa velocidade é estável. Ainda há um pouco de diferença entre elas, mas eu diria que é pelo menos 50% melhor do que no ano passado, o que abre várias opções de acerto do carro para nós”, afirmou Valtteri Bottas após as atividades no Bahrein.

“Estamos muito bem preparados e estou definitivamente mais confiante do que no ano passado, porque os testes do ano passado não foram muito positivos. Sinto que estamos em um bom lugar desta vez”, completou.

A Alfa Romeo trabalhou para melhorar a estabilidade do carro no desenvolvimento da C43 (Foto: Alfa Romeo)

Depois dos primeiros testes, a sensação que se tem é que o bloco intermediário tende a acompanhar uma mudança em seus protagonistas. Isso porque Alpine e McLaren viveram uma pré-temporada que flertou com o desastre, especialmente no caso dos ingleses. A equipe laranja foi a que menos rodou durante os testes. Foram apenas 312 voltas ou 1.688 km. O MCL60 apresentou problemas mecânicos e não parece pronto para a temporada que começa neste fim de semana. Tanto é que o time já fala em atualizações e mudanças.

O modelo britânico parece fraco em ritmo de classificação e é muito irregular em desempenho de corrida. Há ainda um desgaste maior de pneus. Lando Norris até tentou explorar um pouco mais de acerto em stints longos, mas não foi possível diante das falhas. 

“Penso que vamos ver que o meio do pelotão será muito compacto. Isto significa que se não se fizer um trabalho suficientemente bom, mesmo na configuração e maximização do que se tem, poderemos ter dificuldades em passar do Q1”, reconheceu Andrea Stella, o novo chefe da McLaren. “Quando falo de competitividade neste momento, diria que o nosso objetivo ao longo do ano é estar com o carro entres os quatro primeiros. Neste momento, eu diria que não estamos necessariamente ao alcance deste objetivo”, falou.

A Alpine, por outro lado, é um mistério e só será possível conhecê-la a pleno a partir da primeira etapa. Como a rival, a esquadra francesa não impressionou por uma sólida quilometragem. Ao contrário, a A523 obteve a segunda pior marca, com 353 passagens percorridas. É bem verdade que o programa técnico preferiu investir em stints com mais carga de combustível e pneus duros – só que a equipe não conduziu simulação de corrida. E também não impressionou nas tentativas de volta única. Parece que há algum trabalho a ser feito, mas o time se mostrou confiante no acerto de um chassi mais leve e soluções aerodinâmicas interessantes.

A Alpine é o grande mistério da pré-temporada (Foto: Alpine)

Entretanto, após o fim dos testes, a esquadra já considera também implantar também um conjunto grande de atualizações. “Temos um certo nível de confiança, porque claramente não estamos usando o carro em todo o seu potencial”, admitiu Matt Harman, diretor-técnico do time francês. “Fizemos nossa análise, todos sabemos que estamos olhando uns para os outros, e onde estamos. Mas, do nosso ponto de vista, as coisas estão respondendo bem, nossa aerodinâmica está funcionando como esperávamos”, emendou.

E foi mais longe: “Temos uma boa atualização acontecendo e esperamos que isso ajude em nossa busca para nos aproximarmos da terceira posição, se ainda não estivermos lá. E então seguindo em frente com o que aprendemos esta semana para não apenas melhorar o carro para a primeira corrida, mas também com o desenvolvimento.”

Fechando o grid, há de se destacar a AlphaTauri. A equipe caçula dos taurinos levou à pista um carro que parece mais equilibrado que o antecessor e muito veloz – talvez tentando repetir o foguetinho de anos atrás. Chamou a atenção a alta quilometragem e a confiabilidade do AT04: foram 456 voltas ou o equivalente a 2.467 km nos três dias de ensaios. Nyck de Vries foi o segundo piloto com maior número giros: 246, perdendo apenas para Alonso.

O time preferiu longos stints também com alta carga de combustível, mas andou mais com os pneus macios. O ritmo de classificação parece mais forte que em 2022, empurrado por uma interessante velocidade de reta. Porém, não há constância em termos de ritmo de corrida.

O mesmo pode se dizer da Haas. A equipe norte-americana atravessou uma pré-temporada menos turbulenta e mais produtiva, muito pela experiência de sua dupla de pilotos, Kevin Magnussen e Nico Hülkenberg. Mas o carro ainda pede performance em alta velocidade, muito embora se apresente mais competitivo em reta. O desempenho em corrida também segue como uma questão a ser resolvida.

Nyck de Vries obteve a segunda maior quilometragem entre os pilotos (Foto: Peter Fox/Getty Images/Red Bull Content Pool)

E aí vem a Williams. A equipe inglesa terminou as sessões de testes com a segunda maior quilometragem: 2.375 km. Os engenheiros colocaram Alex Albon e Logan Sargeant para trabalhar e ambos ultrapassaram fácil a marca de 200 voltas. Mas o carro tem um déficit sério de performance, especialmente em ritmo de corrida. A performance em classificação também não é das melhores e existe um desgaste grande de pneus. A boa notícia é a confiabilidade.

A largada do GP do Bahrein está marcada para 12h (de Brasília). O GRANDE PRÊMIO traz um guia completo para entender tudo que está em jogo na temporada 2023 da Fórmula 1.

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