Mercedes é pedra no sapato de McLaren e Red Bull, mas chuva vira tempero em Silverstone

O clima instável em Silverstone tornou a classificação da F1 em um drama. E como um bom roteiro, deixou o melhor para o final, com a pole de George Russell em uma impressionante dobradinha com Lewis Hamilton. Atuação convincente de ambos, que agora se tornam uma dor de cabeça para as rivais McLaren e Red Bull, que aparecem na sequência. Mas é a chuva prevista para o domingo que pode tornar tudo ainda mais saboroso

Que dia para ser inglês, não? Além da dramática classificação da seleção da Inglaterra para a semifinal da Eurocopa 2024, Silverstone também foi palco de festa pouco antes. George Russell acertou a performance nos instantes finais do Q3, para cravar a pole-position em casa, e não só isso, porque Lewis Hamilton vai dividir a fila de honra com o companheiro de Mercedes, depois de registrar uma marca apenas 0s171 pior. Ainda tem Lando Norris, que colocou a McLaren na terceira colocação, formando a trinca de súditos do Rei Charles III. Isso tudo, diga-se, sem a presença da chuva. De fato, a Mercedes confirmou a evolução já notada nas últimas etapas e vira agora uma pedra no sapato não só da Ferrari, mas também das duas ponteiras. E o domingo parece reservar mais.

A verdade é que a Mercedes já ensaiava o bote desde cedo. Russell e Hamilton lideraram o terceiro treino livre que foi marcado por pista molhada e esse desempenho seguiu durante a primeira parte da classificação, em que o heptacampeão comandou com uma folga de 0s5. Parecia ali que as Flechas de Prata só possuíam algo a mais em condições adversas. Essa sensação foi corroborada pela fase seguinte, quando o asfalto secou completamente. Norris acabou como mais rápido, ainda que Russell não tenha ficado tão distante. Então, veio o Q3 e a surpresa. O W15 tinha realmente uma carta na manga. Imediatamente, a dupla da equipe alemã surgiu na ponta e de lá não mais saiu. Nos minutos derradeiros, Hamilton ainda tentou roubar a primeira posição, mas o dono do carro #63 atacou melhor o segundo setor do circuito e ficou com aquela que é a sua terceira pole da carreira.

“Que sensação espetacular. No começo do ano não imaginava conquistar uma pole aqui e com Lewis em segundo e Lando em terceiro. É incrível. Muito disso graças a esses fãs também, que nos dão tanta energia”, descreveu um emocionado Russell.

O time octacampeão do mundo surpreendeu com uma alta performance em volta única, resultado também de um bom entendimento do comportamento dos pneus em um clima mais frio — o traçado de Silverstone registrou uma das menores temperaturas da temporada, na casa de 13ºC no asfalto. Além disso, as recentes atualizações ampliaram o desempenho, na medida em que melhoraram o ritmo em curvas de alta velocidade, antes calcanhar de Aquiles da Mercedes. E isso é crucial em uma pista tão rápida.

“Vivemos como em uma montanha-russa nos últimos meses e tem sido muito difícil. Agora, chegar em Silverstone e terminar na primeira fila é uma grande recompensa para todos em Brackley”, afirmou o chefe Toto Wolff, se referindo ao trabalho na fábrica da Mercedes. “Apesar do resultado, hoje não conta muito. Temos de fazer nosso trabalho amanhã. Lando Norris parecia incrivelmente rápido com a McLaren.”

“Manter Lando atrás será uma tarefa difícil. A corrida de amanhã poderá ser determinada pela degradação dos pneus”, emendou o dirigente austríaco.

A visão de Wolff é interessante até certo ponto, porque a McLaren está muito rápida, mas o desgaste não deve ser tão excessivo como em outras pistas, justamente por conta do frio. E a esquadra da estrela terá de fazer um trabalho impecável se quiser converter a primeira fila em vitória. Em condições de pista seca, o W15 não tem o ritmo mais consistente, embora seja um desempenho forte. Está poucos décimos atrás do carro laranja e da Red Bull — esta última é especialmente melhor com os pneus médios. Portanto, será uma batalha estratégia. A escolha do composto e o momento do pit-stop terão um peso maior.

Chefe da McLaren, Andrea Stella tem uma percepção semelhante. “Não creio que o desgaste dos pneus desempenhe um papel tão importante aqui em Silverstone. Na minha opinião, não seremos capazes de explorar a nossa vantagem em termos de degradação aqui”, explicou o italiano, que tem outros temores. “A Mercedes entendeu o que precisa fazer com seu carro para melhorar. Eles não são apenas rápidos em uma determinada pista, eles mostram um ritmo honesto.”

George Russell puxa a trinca inglesa em Silverstone (Foto: McLaren)

E dentro desse cenário ainda há a Red Bull. Max Verstappen enfrentou problemas na classificação, principalmente depois da escapada de pista no Q1, que danificou demais o assoalho do RB20. O incidente tirou um pouco da habitual confiança, mas também há uma preocupação nas garagens taurinas com relação ao desempenho dos pneus macios, e isso, sim, pode ser uma dor de cabeça, além do remendo da peça avariada — a equipe austríaca não possui um assoalho atualizado sobressalente, então terá de usar uma versão antiga se não puder reparar.

“Introduzimos uma atualização que somou seis pontos (downforce), e isso foi cerca de 0s5. O assoalho será reparado ou será instalado um outro, e se conseguirmos converter esses pontos a tempo, estaremos entre os primeiros”, garantiu o consultor da Red Bull, Helmut Marko.

Portanto, não dá para descartar o neerlandês da briga, porque há também outro elemento: o tricampeão, quarto no grid, vai dividir a segunda fila com Norris. E isso por si já é motivo o bastante para ficar de olho na largada do GP da Inglaterra.

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Max Verstappen teve o assoalho do carro danificado na classificação (Foto: Red Bull Content Pool)

Importante destacar aqui também a posição de Nico Hülkenberg, em sexto, logo atrás de Oscar Piastri. As atualizações parrudas da Haas surtiram o efeito esperado, e o alemão pode se tornar um elemento surpresa também nesse grupo da frente, dependendo deste começo de corrida. Afinal, quem não se lembra da estratégia inicialmente genial da equipe americana no Canadá?

É claro que tudo isso leva em conta o fato de a corrida ser disputada com pista seca. E nesse sentido, ritmo e estratégia se aproximam. A corrida deve ser de uma única parada, numa combinação que pode ser de macios-médios, macios-duros ou, em um caso mais extremo, médios-duros. Agora, se a previsão do tempo se confirmar, a história tende a ser muito diferente, o que abre um leque de possibilidades, porque diante da intempérie as decisões do pit-wall ganham ainda mais força.

Neste momento, os serviços meteorológicos apontam para uma chance de 70% de precipitação ao longo do dia. De maneira mais aprofundada, a chuva deve parar em torno de uma hora antes da largada, para retornar na parte final da corrida. Ainda assim, a possibilidade de piso molhado para as primeiras voltas é grande, se as temperaturas seguirem baixas.

De toda a forma, o GP da Inglaterra se desenha um clássico e abre também uma oportunidade ouro para Russell. Depois dos erros vividos no Canadá, chegou a hora da redenção.

GRANDE PRÊMIO acompanha AO VIVO e EM TEMPO REAL todas as atividades do GP da Inglaterra de Fórmula 1 e transmite classificação e corrida em segunda tela, em parceria com a Voz do Esporte, na GPTV, o canal do GP no Youtube. Além disso, debate tudo que aconteceu na pista com o Briefing após treinos livres e classificação, além de antes e depois da corrida. No domingo, os pilotos largam para a corrida em Silverstone a partir das 11h (de Brasília, GMT-3).

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