Mercedes pisca para Verstappen, mas nem resolve louco desconhecimento de si mesma

Nada fez a Mercedes ser citada mais em 2025 que a procura por Max Verstappen. Mas é bom olhar para o próprio umbigo, porque os problemas se repetem

As pistas do calendário da Fórmula 1 ficaram em segundo plano para a Mercedes na temporada 2025 até o momento do recesso do verão europeu. Os momentos em que mais se tratou da companhia alemã até aqui foram aqueles do assédio para ter Max Verstappen, agora ou no futuro. O interesse foi confirmado, a busca, realizada. A relação continua. Com a confirmação de que o tetracampeão segue na Red Bull ao menos para 2026, porém, é hora de olhar para a realidade.

Enquanto a Mercedes sonhava os sonhos mais molhados com Verstappen vestido de suas cores o mais rapidamente possível, é bom tratar dos que estão lá. George Russell vive o melhor ano na Fórmula 1. Dono de uma vitória e seis pódios, ficou entre os cinco primeiros colocados em 11 das 14 provas do ano até aqui. É um desempenho que nem está em par com o que as ex-Flechas Prateadas, já não mais prateadas, podem oferecer.

Do outro lado, Andrea Kimi Antonelli, um novato dos mais jovens de todos os tempos, vivendo os altos e baixos do noviciado. Dois anos atrás, Kimi, pudera, nem sequer fazer parte da escadaria da F1 e corria a FRECA. Com um pódio na temporada, mostrou predicados e questões a resolver, nada mais normal quando se aposta num jovem de 18 anos.

Com relação aos pilotos, em suma, nada a questionar. O questionamento maior está nos processos internos para chegar a algum lugar. Diferente de anos passados, a Mercedes não começou a temporada de maneira sofrida. Embora fosse a única das primeiras quatro colocadas falando de 2026 desde o nascituro de 2025, até tinha carro interessante no começo da trajetória. Melhor que Ferrari aqui, Red Bull ali, tinha a segunda força do grid em determinado tipo de pista. Foi o caso na China, Bahrein e Miami, metade das provas antes de chegar à perna europeia.

Max Verstappen é sonho da Mercedes (Foto: Red Bull Content Pool)

Um pacote de desenvolvimento depois, a Mercedes deu a entender que tinha poder. É verdade que as circunstâncias de temperatura e pressão jogaram a favor no GP do Canadá, mas foi impressionante ver Russell dominar como dominou, com direito a pole-position e vitória, bem como o primeiro pódio de Antonelli na Fórmula 1.

O que parecia início de uma empreitada mais séria em direção ao vice-campeonato mundial de Construtores, com, quem sabe, algumas vitórias, tomou caminho parecido àquele visto após a sequência de sucesso de Áustria, Inglaterra e Bélgica em 2024. A queda. E o ressurgimento de um velho problema que a Mercedes encontra de maneira sucessiva desde 2022.

Foi no GP de Miami de 2022, aquele primeiro ano da era efeito solo, quando a Mercedes vinha de começo de temporada perto do deprimente. De repente, voava nos treinos livres e o carro parou de quicar, algo que atormentava Russell e Lewis Hamilton. Ninguém soube explicar. No dia seguinte, para a classificação, breve ajuste para deixar em ritmo de tomada de tempo, e nunca mais o carro respondeu. Novamente, ninguém tinha explicação.

Desde então, foram vários os momentos em que a Mercedes achou que tinha concluído alguma coisa apenas para perceber que estava redondamente enganada. Ano passado, em meio ao efêmero sucesso na Europa, o chefe Toto Wolff chegou a bradou ‘eureca!’. Mas a maçã que caiu sobre a cabeça estava mais para concussão que epifania. A queda subsequente foi novo gosto amargo.

Toto Wolff e a dificuldade de compreender a própria realidade (Foto: AFP)

O bom começo de 2025 levou a Mercedes a uma conclusão de que precisava mexer na suspensão traseira e instalou a atualização na primeira corrida do Velho Continente, o GP da Emília-Romanha. O rendimento caiu imediatamente. É verdade que o Canadá veio depois disso, mas ali as circunstâncias jogaram dramaticamente a favor. No restante das provas, curiosamente todas na Europa, a Mercedes se viu empurrada como quarta força.

A gota d’água veio no GP da Hungria, que encerrou a fase pré-recesso. Para testar a resposta do carro sem a suspensão estreada em Ímola, voltou a adotar a antiga. O resultado foi cristalino: era melhor retomar a versão inicial indefinidamente. A outra? Foi para a lata do lixo, era irremediável.

Pense nisso por um instante. O tempo entre a primeira ida de um novo componente do túnel de vento à pista é de aproximadamente dois meses. O que quer dizer que a preparação da nova suspensão, os rascunhos iniciais, vieram após os testes de pré-temporada. Depois da estreia, no fim de semana de 18 de maio, mais de dois meses passaram até que a Mercedes resolvesse cortar o fio vermelho.

“Quando fazemos uma suspensão nova, queremos que o carro seja mais rápido”, resumiu Andrew Shovlin, diretor de engenharia da Mercedes.

A atualização da suspensão traseira foi para o espaço (Foto: Mercedes)

“Claramente, algo estava errado. Os pilotos diziam que o carro estava melhor com aquela suspensão em algumas áreas. Porém, na estabilidade das curvas rápidas, e eles estavam precisando carregar muita velocidade nas entradas de curva, não tinham confiança para acelerar o carro como gostariam”, disse.

“Sempre tentamos fazer coisas que melhorem o ritmo do carro, e isso não melhorou. Agora, grande parte do trabalho é entender exatamente os motivos que causaram esse problema. Não é algo óbvio. Se fosse, não teríamos tido essa questão”, resumiu.

Como pode uma equipe tradicional como a Mercedes, com o nível de orçamento que tem, a capacidade de atrair profissionais do mercado e a infraestrutura à disposição, continuar errando tão grosseiramente no desenvolvimento dos projetos? A Mercedes tem o pior time de engenharia entre as principais equipes do grid, e não está perto das demais. Pode até ser que faça nascer um bom carro nos próximos anos, com o conjunto de regras que aparece em 2026, mas será um sofrimento na hora de desenvolvê-lo.

No caso da Aston Martin, Fernando Alonso se mostrou todo contente há algumas semanas, quando o time verde instalou nova asa dianteira e pulou dos últimos lugares na Bélgica para perto das rivais principais na semana seguinte, na Hungria. Afirmou que a equipe já sabe que aquilo que os testes concluem no maquinário novo, a recém-finalizada versão verde do túnel de vento, responde da mesma forma na pista. Na Mercedes, o oposto.

Difícil saber se há defasagem ne infraestrutura ou se falta talento para interpretar os resultados de testes, mas fato é que a Mercedes tem de pensar menos tempo em Verstappen e mais tempo em como entender a si própria. Como compreender os carros que tem e melhorá-los. Ninguém tem fracassado de maneira tão retumbante nesta área nos últimos anos.

Fórmula 1 volta às pistas após o recesso de verão, entre os dias 29 e 31 de agosto, para o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.

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