Piastri esbanja consistência com McLaren e prova que F1 pode ter campeão digno em 2025
Entre erros e acertos, Oscar Piastri encarou a primeira metade da temporada 2025 da Fórmula 1 com muita maturidade e alcançou um nível de consistência digno de um campeão. No comando do ajustado MCL39 da McLaren, o australiano não se intimidou diante do experiente Lando Norris e provou a todos que, sim, o troféu da categoria pode cair em ótimas mãos mesmo em um ano marcado por uma disputa das mais mornas pelo título
A falta de um embate mais duro contra Lando Norris na briga pelo título em 2025 não precisa, necessariamente, esconder as qualidades que Oscar Piastri possui e a evolução que apresentou em tão pouco tempo na Fórmula 1. Em apenas três temporadas vestindo as cores da McLaren, provou ser um piloto consistente e totalmente preparado para alcançar as vitórias quando as oportunidades apareceram — ainda que, é bom destacar, esteja atravessando uma curva de desenvolvimento que é comum no mais alto nível do esporte, o que significa que cometeu alguns erros que podem custar caro mais à frente.
Claro, o fato de possuir um carro competitivo em mãos ajuda, pois fica mais fácil extrair o máximo de si quando se está ao volante de uma máquina que lhe responde da maneira desejada. E o MCL39 já demonstrou ser adaptável em toda e qualquer situação. Mesmo em circuitos onde as características do traçado podem não o favorecer, a dupla papaia teve as armas necessárias para dificultar a vida dos rivais da Ferrari, Red Bull e Mercedes — que, por outro lado, sofrem mais frequentemente com os respectivos bólidos.
Mas também é preciso ser justo. Ao longo dos 75 anos de história, a categoria já viu muitos profissionais que, a despeito do melhor equipamento, nunca transpareceram qualquer traço de excepcionalidade. Ainda é difícil definir com 100% de certeza quais serão os rumos da carreira do australiano, porém, os dados não escondem a alta capacidade de ser consistente nos mais diversos cenários — além da postura fria e calculista mesmo em momentos em que é superado pelo companheiro de time.
Antes de Andrea Kimi Antonelli sequer estrear na F1, Toto Wolff, chefe da Flechas de Prata, disse que um novato precisa de três anos para se adaptar completamente ao ambiente altamente competitivo do Mundial. Levando à risca o que alguém de tamanha importância no paddock afirma, é fácil perceber que Piastri afastou todas as dúvidas e passou com louvor no teste — não obstante o imenso desafio de disputar um título contra um piloto muito mais experiente e acostumado à equipe na qual está inserido.

Apesar das críticas que recebe — embora algumas sejam justificadas, mas não todas —, Norris mostrou ser um dos mais rápidos do grid atual. O britânico pode ter lá os problemas de lidar com a pressão e de fraquejar em momentos decisivos, mas quando se encontra no melhor estado mental, torna-se um forte oponente. Infelizmente, o fracasso em pelo menos dificultar a vida de Max Verstappen em 2024 acabou por deixá-lo subestimado aos olhos da opinião pública, o que acaba refletindo, de alguma forma, na percepção que existe sobre Oscar.
E embora o #81 tenha naufragado completamente na abertura do certame, quando virou vítima da forte chuva que atingiu Melbourne, cometeu um erro e cruzou a linha de chegada somente na nona posição no GP da Austrália, o que se viu a partir de então foi uma sequência de resultados das mais impressionantes — e que ainda não foi quebrada. Nas últimas 13 corridas, entre a visita à China e o passaporte carimbado na Hungria, Piastri finalizou no pódio em 12 oportunidades, incluindo seis vitórias. E a única vez em que terminou fora do top-3 foi no GP do Canadá, a pista em que a McLaren mais sofreu para encontrar ritmo — e mesmo assim recebeu a bandeira quadriculada em quarto lugar.
A estatística fica ainda mais impressionante quando as corridas sprint são inclusas no cálculo. Nas provas curtas realizadas até aqui, em Xangai, Miami e Spa-Francorchamps, terminou sempre na segunda colocação, atrás de Lewis Hamilton, Norris e Verstappen, respectivamente. Ainda que a recompensa seja pequena, o australiano somou 6 pontos a mais do que o britânico do #4 aos sábados — o equivalente a 66,67% da diferença que atualmente existe entre eles na classificação do Mundial.
Entretanto, a extrema consistência não se resume apenas às corridas. Ao longo da primeira metade de campeonato, a pior posição de largada de Piastri foi o quarto lugar no GP de Miami, quando anotou 1min26s375 no cronômetro — 0s171 mais lento que o tetracampeão da Red Bull, que fez a pole, mas também atrás de Lando e Antonelli. Em todas as outras etapas, porém, classificou-se dentro do top-3, sendo quatro vezes na posição de honra: China (a primeira da carreira), Bahrein, Emília-Romanha e Espanha.

Ou seja, mostrou as credenciais e provou que possui totais condições de ser, sim, um adversário dos mais duros na briga pelo título da F1. Ainda com a patente de novato na McLaren, chegou chutando a porta na briga contra o experiente Norris, que está na equipe desde 2019, e deixou claro para os laranjinhas que não seria apenas um escudeiro para o colega de garagem, assim como foi em determinados momentos de 2024. Na verdade, Andrea Stella e companhia não esperavam realmente por isso.
O time de Woking tem administrado muito bem o ambiente interno e as oportunidades que são dadas aos dois pilotos corrida após corrida. O que aconteceu no GP da Hungria certamente deixou — e com razão — Piastri maluco, mas faz parte do jogo. Ambos sempre foram livres para escolher a estratégia que melhor lhes atendia, e assim foi no GP da Áustria, quando o australiano decidiu ir aos boxes algumas voltas mais tarde que Norris para tentar atacá-lo no fim, e no GP da Bélgica, quando foi a vez do britânico lançar mão dos pneus duros para tentar algo similar — apenas para citar alguns exemplos.
No Hungaroring, a oportunidade caiu no colo de Lando depois de perder duas posições na largada. Totalmente circunstancial. E não tendo nada a perder, o #4 arriscou e saiu beneficiado, ainda que Oscar também tenha recebido da McLaren a oportunidade de superar o companheiro nas voltas finais, quando estava com os pneus mais novos. Claro, o cenário era diferente daquele visto nas primeiras voltas, mas a chance foi dada.
Aliás, para não dizer que só se fala das flores, Budapeste chamou atenção para algo que Piastri ainda precisa melhorar: o ataque para cima dos adversários em momentos de pressão. A tentativa atabalhoada de predominar sobre Norris na volta 69 poderia ter sido pensada com mais cautela e preparada melhor, já que apresentava um ritmo superior na parte final do stint, com a borracha mais fresca. E não foi a primeira vez que isso aconteceu: no Red Bull Ring, sabendo da preferência que o rival teria de entrar nos boxes por estar em primeiro, quase estampou a traseira do coleguinha no contorno da curva 4 — naquela ocasião, recebeu uma advertência dura da McLaren.

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Mas isso não tira o mérito do título caso se torne campeão. Até porque Verstappen, hoje considerado um dos maiores nomes da história do esporte, teve muitos momentos — e piores — no passado, e nem mesmo Norris escapou imune a isso, já que literalmente bateu no australiano em uma tentativa um tanto estranha de ultrapassagem em Montreal. Tudo faz parte do processo de aprendizado, embora, claro, as circunstâncias de estar envolvido na briga pelo troféu mais cobiçado do esporte a motor afetem essas decisões de forma muito mais intensa do que se fosse apenas uma disputa por um pódio qualquer.
Ainda que a derrota em Budapeste tenha sido dolorosa e extremamente importante para o principal rival na briga pelo título, que, por sua vez, cruzou a linha de chegada na primeira colocação em três das últimas quatro oportunidades, Piastri não parece o tipo de piloto que ficaria abatido apenas com isso. E nem mesmo está preocupado. Vale lembrar que, após sair derrotado da Áustria e da Inglaterra, conseguiu uma vitória com autoridade para cima do britânico na Bélgica, com direito a uma ultrapassagem ousada, corajosa e inteligente logo nos metros iniciais da primeira volta sem o safety-car.
Mas a simples capacidade de dar a volta por cima não será o suficiente — Oscar também precisa tirar lições do passado para não repetir alguns vacilos. Na Emília-Romanha, por exemplo, começou da pole-position e se viu atrás de Verstappen logo após as primeiras curvas, enquanto que em Silverstone, no início deste mês, uma atitude completamente boba durante uma das relargadas o fez levar uma punição, vendo uma vitória praticamente certa cair no colo de Norris.

Entretanto, o que dizer do triunfo no GP da Arábia Saudita, quando perfeitamente fechou a porta na cara de Max logo na curva 1 e obrigou o neerlandês a ter de aceitar um amargo segundo lugar pelas ruas de Jedá? Ou até mesmo da etapa em Miami, onde mais uma vez não tomou conhecimento do tetracampeão da Red Bull e dominou amplamente ao longo das 57 voltas no entorno do Hard Rock Stadium? Se existem erros no passado que podem e devem ser tomados como lições, também há amostras de brilhantismo de um piloto que chegou à F1 para se colocar entre os grandes do esporte.
Nessa altura da carreira, ainda dando os primeiros passos, é difícil dizer qual seria o comportamento de Piastri em uma disputa real contra Verstappen, Charles Leclerc e George Russell, por exemplo, caso todos tivessem carros com desempenhos similares durante as 24 provas do calendário. Contudo, isso nem é preciso. O grande vencedor não vive das sombras do que poderia ou não ter sido, mas daquilo que alcançou quando o destino lhe sorriu e lhe entregou as condições ideais para registrar o nome na história.
E no cenário atual, a categoria não poderia pedir um campeão melhor.
Depois do GP da Hungria, a Fórmula 1 volta às pistas apenas após o recesso de verão, entre os dias 29 e 31 de agosto, para o GP dos Países Baixos, em Zandvoort. A McLaren lidera entre os construtores, enquanto Oscar Piastri é o líder do Mundial de Pilotos.
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