Na Garagem: Alonso declarou guerra contra Hamilton e cavou cova na McLaren

Há oito anos aconteceu um dos episódios mais beligerantes da F1 atual. Fernando Alonso e Lewis Hamilton entraram em confronto direto na classificação do GP da Hungria quando o primeiro deliberadamente atrapalhou o segundo. Ali Alonso decretou sua saída do time de Woking, para o qual não se imaginava que um dia voltaria

Quando a F1 chegou na Hungria, para disputar a 11ª de 17 provas em 2007, a tabela mostrava Lewis Hamilton com 70 pontos, Fernando Alonso com 68 e Felipe Massa com 58 pontos. Apesar das três vitórias até então, Kimi Räikkönen somava também dois abandonos, um quinto e um quarto lugares e tinha apenas 52 na tabela. Muitos davam o finlandês como carta fora do baralho na disputa pelo título.
 
Mas um incidente entre Alonso e Hamilton, que poderia ter sido apenas uma briga caseira, acabaria tendo consequências 10 semanas depois, em 21 de outubro, quando foi disputado o GP do Brasil, a última etapa daquele ano. Um incidente causado pela tradição da McLaren em deixar seus pilotos disputarem livremente na pista. Em 1989, essa atitude acabou em acidente entre Ayrton Senna e Alain Prost em Suzuka e com a saída do francês da equipe de Woking.
 
Os dois pilotos da McLaren à época sempre foram fãs declarados de Senna e acabaram repetindo o enredo vivido pelo ídolo de ambos. Hamilton tinha obtido nove pódios — dentre esses, duas vitórias — em suas nove primeiras corridas na F1 e era a sensação do ano. Alonso, contratado a peso de ouro da Renault, sofria com a pressão – estava 14 pontos atrás do companheiro de equipe.
 
Em 2007, a McLaren adotou um revezamento nos treinos para definição do grid. A cada corrida, um piloto teria direito a três voltas rápidas e o outro faria apenas duas voltas. Naquele fim de semana, pelo combinado, Alonso teria a primazia de uma a mais. No entanto, Hamilton resolveu romper o trato — assim como Senna fizera com Prost em 1989 — e decidiu que ele também teria direito a fazer 3 voltas lançadas naquele sábado nublado em Budapeste.
 
Sem a concorrência das Ferrari, mal adaptadas ao traçado húngaro, a briga pela pole ficou entre a dupla da McLaren. Alonso cravou 1min20s133 em sua segunda tentativa e Hamilton respondeu com 1min19s781. O espanhol voltou aos boxes com menos de 3 minutos para o fim da sessão e, após a equipe trocar seus pneus, ficou estranhamente parado no pit-lane. 
Alonso fica parado nos boxes de propósito para prejudicar Hamilton (Foto: Getty Images)
Hamilton entrou nos boxes, e a equipe que ainda digeria o ato de Alonso, mandou o inglês rapidamente à pista. Mas Lewis não cruzou a linha de chegada antes do cronômetro estar zerado e não pôde bater o tempo que o espanhol acabara de fazer, 1min19s674.

Sabendo que o inglês faria outra volta, Alonso ficou parado nos pits de propósito. Sozinho numa equipe simpática a Hamilton, ele só contava com seu fisioterapeuta. Foi ele quem cronometrou o tempo que Fernando deveria segurar os pits para impedir a terceira tentativa do inimigo.
 

A contra-manobra de Alonso para evitar a traição de Hamilton foi imediatamente percebida pelo inglês. Adotado pela McLaren aos 14 anos, o inglês tinha a empolgação dos mecânicos do lado dele — a equipe preferia ver Lewis campeão. Na volta para os boxes, Hamilton explodiu com o chefe Ron Dennis:
 
— Vai se foder, Ron. Nunca mais faça isso comigo.
— Vai se foder você, nunca mais fale assim comigo, Lewis. Cumpra o acordo com Alonso.
Clima tenso na coletiva após a classificação na Hungria (Foto: AP)
Tamanha confusão não ficou dentro de casa. Não bastasse a discussão aos berros no motorhome da McLaren entre Alonso, Hamilton e Ron Dennis após o treino, os comissários chamaram o espanhol para esclarecimentos. A FIA resolveu se meter na briga prateada e puniu Alonso com a perda de cinco posições no grid. Estava criada a maior rivalidade da F1 depois de Senna × Prost. Nas duas ocasiões (1989 e 2007), era Ron Dennis quem gerenciava os gigantescos egos dos pilotos.
 
Hamilton venceu a prova com Räikkönen embutido em sua caixa de câmbio — apenas 0s7 atrás do inglês. Alonso passou Ralf Schumacher e Nico Rosberg, mas ficou encaixotado atrás de Nick Heidfeld, chegando apenas em quarto lugar. Ao sair de Hungaroring, Hamilton estava preocupado apenas com Alonso, 7 pontos atrás. Räikkönen, espectador privilegiado da briga entre eles, estava 20 pontos atrás na tabela.
 
Na Bélgica, a dupla protagonizou a cena mais angustiante do campeonato. Sem se falar desde a Hungria, Alonso e Hamilton desceram a Eau Rouge lado a lado, quase tocando rodas, a 320 km/h. No pitlane, as expressões dos integrantes de todas as equipes falavam por si: a briga dos dois virou quase uma questão de vida e morte. Alheio a tudo isso, bem ao seu estilo, o finlandês venceu em Spa e, ajudado por Massa, trouxe a diferença para Hamilton para apenas 13 pontos.
 
Com seis pódios nas seis últimas etapas, o homem de gelo derreteu a vantagem de Hamilton. O inglês sucumbiu à pressão e marcou 2 pontos no Brasil e atolou na brita na China. Alonso foi segundo em Xangai e terceiro em Interlagos, mas acabou com os mesmos 109 pontos do inglês. Ironicamente, morreram abraçados. Para além da divisão interna, as punições da FIA por espionagem industrial abalaram o clima na equipe de Woking. Räikkönen marcou 26 pontos nas três provas finais e levou o caneco para a terra do Papai Noel.
Alonso fica parado nos boxes de propósito para prejudicar Hamilton (Foto: Reprodução)

Sem clima, Alonso acabou caindo fora da McLaren para voltar à Renault. Era a maior demonstração de força do pupilo Hamilton dentro das amarras da equipe que o criou. Ninguém esperava que o espanhol um dia voltasse a figurar nos boxes com Dennis por perto. Precisou a Honda voltar à F1 para convencer — nem foi preciso tanto — Alonso a deixar a Ferrari, onde ficou cinco anos sem título. Curiosamente, foi na Hungria semanas atrás que Fernando obteve seu melhor resultado no ano, um quinto lugar. 
 

PS – o leitor Rômulo Albarez lembra que 4 de agosto também marca outro fato importante na história da F1. Há 30 anos, no GP da Alemanha de 1985, aconteceria a última vitória de Michelle Alboreto na F1. Com a vitória em Nurburgring, Alboreto liderava o campeonato. Dali em diante, Prost emendaria quatro pódios seguidos e conquistaria seu primeiro título no GP da Europa, em Brands Hatch.

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