Na Garagem: Budapeste viu Piquet aplicar em Senna maior ultrapassagem da história
Há 29 anos, o mundo assistia a um dos mais incríveis momentos da história da F1. No ano em que o capitalista esporte rompeu a ‘Cortina de Ferro’ e correu pela primeira vez na então socialista Hungria, Nelson Piquet marcava época diante do compatriota e rival Ayrton Senna
O GP da Hungria de 1986, ocorrido em 10 de agosto, é simbólico por muitos motivos. O primeiro deles é a chegada da F1 a um país comunista. O muro de Berlim caiu três anos depois, em outubro de 1989, mas isso não anula a ideia de Bernie Ecclestone em levar a categoria para outros mercados. Já para os húngaros, era a chance de trazer dinheiro de fora para ajudar a combalida economia local.
Para ajudar ainda mais na estreia da pista húngara, presenciada por 200 mil espectadores, o campeonato era um dos melhores da história. Alain Prost, da McLaren, duelava contra Nigel Mansell e Nelson Piquet, da Williams, e Ayrton Senna, da Lotus. Esses quatro pilotos ganharam 11 de 13 títulos entre 1981 e 1993 e fizeram história. Uma foto dos quatro juntos, na mureta em Monza, viraria um ícone de uma era.

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Quando a F1 chegou a Hungaroring, a 11ª etapa de 1986, tudo apontava para o título do inglês da Williams em sua sexta temporada completa na F1. Após acidente no Brasil e quebra do motor em San Marino, Mansell acumulou quatro vitórias e 45 pontos nas sete etapas seguintes. Na vitória em Brands Hatch, Mansell passou Piquet a cinco voltas do fim e levou o público ao delírio. Dez anos após o título de James Hunt, a conquista do título por parte de um piloto inglês tinha ares de realidade.
Nesse mesmo período, Prost somou apenas 22 pontos e quatro pódios, mas sem nenhuma vitória. Sofrendo com o consumo de gasolina, Prost ficou sem combustível na última volta na corrida anterior e perdeu três pontos importantes em um campeonato tão disputado.
Piquet tinha vencido na estreia, fazendo dobradinha brasileira com Senna em Jacarepaguá e liderava o campeonato após a prova de Ímola, mas seus seis pódios em dez etapas não o deixavam próximo de Mansell na tabela. Quebras de motor na Espanha e na Bélgica, aliadas a um acidente nos Estados Unidos colocavam Piquet 13 pontos atrás do companheiro de equipe após a corrida na Alemanha.
Senna era o ‘leão de treino’. Com a pole em Hungaroring, eram seis poles nas 11 primeiras corridas. O carro da Lotus não era tão competitivo nas provas, mas os 1200 cv do motor Renault cantavam alto nos treinos. Senna partia, então, para uma estratégia suicida: fazer uma parada a menos, tentar poupar os pneus e segurar os outros três favoritos no braço.
Esse script funcionou na Hungria. Senna cravou 1min29s450, três décimos mais rápido que Piquet, fazendo dobradinha brasileira na primeira fila. Prost era o terceiro e Mansell fechava a segunda fila. Senna manteve a ponta e Mansell ganhou as posições de Prost e do companheiro. Piquet logo daria o troco e sairia à caça de Senna.
Prost passou Mansell na volta 11 e fez as posições serem idênticas ao grid, mas pararia na volta 23 com um problema elétrico. Piquet passou Senna na volta 11 e ficou à frente da Lotus até a parada nos boxes. Erros da Williams fizeram a Lotus devolver Senna com grande vantagem para Piquet na volta 36. Ambos imprimiam ritmo alucinante, a ponto de dar uma volta em Mansell no giro 47. A primeira vitória na Hungria seria brasileira.
Com melhor equipamento e pneus, Piquet ganhava cerca de dois segundos por volta. Hungaroring era a pista mais travada da F1 depois de Mônaco. O único ponto de ultrapassagem era o grampo no fim da reta. Era preciso pegar o vácuo no curvão, fazer a reta toda colado e tentar colocar de lado na primeira curva. Segundo Martin Brundle, da Tyrrell, “Hungaroring era uma pista de rua sem casas”.

Na volta 53 das 76 voltas previstas, Piquet chegou em Senna e estava embutido na caixa de câmbio da Lotus. Galvão Bueno, nesse momento, criou um dos seus clássicos bordões: “Chegar é uma coisa, passar é outra”. Senna defendia a posição com agressividade, mudando de trajetória na reta e espremendo Piquet nas curvas.
A primeira tentativa de Piquet não deu certo. O brasiliense jogou o carro por dentro na curva 1, mas freou tarde demais e tomou um ‘X’ do paulista. Senna resistiu mais três voltas, mas na abertura da volta 56, Piquet não conseguiria uma mera ultrapassagem. Hungaroring foi palco da maior ultrapassagem da F1 em todos os tempos.
“Tentei passar por dentro, mas acabei escorregando. Na segunda oportunidade, resolvi fazer algo diferente. Ameacei ir por dentro, quando ele (Senna) se mexeu, fui por fora e mantive a linha reta. Freei 40 metros depois do ponto correto, segurei o volante e deixei o carro escorregar nas quatro rodas”, declarou Piquet no documentário “A Era dos Campeões”.
“Foi a coisa mais bonita que eu vi em todo o tempo em que acompanho F1. Foi como dar um looping com um Boeing 747”, disse Jackie Stewart, tricampeão do mundo. Senna minimizou as críticas sobre jogar sujo e quase mandar Piquet para a grama, ainda na reta: “Joguei duro, isso é competição. Aqui a coisa é séria”, disse Senna ao repórter Reginaldo Leme, da TV Globo.
Piquet deu uma resposta digna do seu estilo de entrevista, no mesmo documentário: “Ele me espremeu, eu passei e no meio da curva eu fiz um gesto bacana. Ergui o dedo do meio e mandei ele tomar no cu”. Depois dessa ultrapassagem, Piquet abriu 17s e venceu a prova. O resultado foi a quinta das 11 dobradinhas brasileiras na F1.
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