Na Garagem: Primeiro pentacampeão da F1, Fangio morre aos 84 anos na Argentina

Há exatos 25 anos, às 4h10 de 17 de julho de 1995, também numa sexta-feira, o coração de um dos maiores pilotos de todos os tempos parou. Juan Manuel Fangio morreu vítima de insuficiência respiratória e complicações renais e deixou um legado inestimável dentro e fora das pistas, sendo reconhecido até os dias de hoje como o “padrinho da Fórmula 1” e um dos grandes ícones do automobilismo argentino e mundial

Juan Manuel Fangio, primeiro pentacampeão mundial de Fórmula 1 e um dos maiores e melhores pilotos de todos os tempos, se foi há exatos 25 anos. Às 4h10 de 17 de julho de 1995, também numa sexta-feira, o coração do argentino nascido em Balcarce parou de bater após dias internado na clínica Mater Dei, em Buenos Aires. Aos 84 anos, o protagonista de uma das mais incríveis histórias do esporte deixou um legado vitorioso inestimável dentro das pistas.

Reconhecido até os dias de hoje como, para muitos, o melhor dentre os melhores, Fangio é para Lewis Hamilton, hoje a grande estrela do automobilismo e um dos poucos a superá-lo em termos de títulos, além de Michael Schumacher, como o “padrinho da Fórmula 1”.

Juan Manuel se foi sem reconhecer seus dois filhos em vida: Rubén e Oscar tiveram a paternidade oficializada pela justiça argentina há cerca de dois anos e após um processo que compreendeu a exumação do corpo do piloto, enterrado na sua cidade-natal, Balcarce — na província de Buenos Aires —, onde veio ao mundo às 0h10 do dia 24 de junho de 1911, uma quarta-feira.

A comoção pela morte de Fangio ganhou o mundo. Carlos Menem, presidente da Argentina à época, disse que aquele foi “o dia mais triste para o país”, que se despedia “de um dos homens mais extraordinários do esporte mundial”. Stirling Moss, que morreu em 2020 e foi amigo de Fangio, ressaltou que o pentacampeão era um “artista do volante”. Niki Lauda, que se foi no ano passado, sublinhou o caráter de Juan Manuel: “Gentil e sensível, ele fazia parte de uma estirpe de pilotos cavalheiros. Foi o melhor de todos os tempos”, falou o austríaco.

Juan Manuel Fangio entrou para a história como o primeiro pentacampeão da F1 (Foto: Mercedes)

Do sonho no futebol aos títulos na F1

As imagens em preto e branco retratam um passado glorioso do automobilismo argentino e mundial. Nunca um piloto havia emendado tamanha sequência vitoriosa em tão pouco tempo, nem mesmo na época das Grandes Éprouves, a pré-Fórmula 1. Juan Manuel Fangio atingiu o feito histórico de conquistar o título da F1 em cinco oportunidades (1951, pela Alfa Romeo; 1954, por Maserati e Mercedes; 1955, pela Mercedes; 1956, pela Ferrari; e 1957, pela Maserati), sendo quatro delas de maneira consecutiva. Àquela época, os riscos eram extremos, o capacete usado pelos pilotos não era mais que um mero adereço para cobrir a cabeça, e a segurança nas pistas também era bastante estrita. Fangio fez parte daquela geração, a primeira da categoria, como também fizeram pilotos da envergadura de Alberto Ascari, Giuseppe Farina e Stirling Moss.

Os resultados obtidos falam por si. Não houve, em sua geração, e em muitas outras depois, ninguém capaz de chegar perto dos seus recordes: 51 GPs disputados, 24 vitórias, 29 poles e 23 voltas mais rápidas. Fangio é o detentor da maior média de primeiras colocações por corrida (47,06%) e de poles (56,86%) na história da categoria. Nem mesmo Michael Schumacher ou Lewis Hamilton, os dois únicos a superar o argentino em número de títulos mundiais, ostentam percentuais semelhantes. É por essa e por outras tantas razões que o argentino é considerado por muitos como o maior de todos os tempos.

“Não houve igual”. É dessa forma que Sergio Rinland se refere a Fangio. O engenheiro de 69 anos, há mais de quatro décadas vivendo na Inglaterra, tem ampla experiência na Fórmula 1. O argentino passou por equipes como Williams, Brabham, Benetton, Sauber e Arrows. Em entrevista à REVISTA WARM UP, publicação do GRANDE PRÊMIO, Rinland ressaltou o talento de Fangio na preparação dos carros, fazendo valer seu aprendizado como mecânico quando ainda era um adolescente na sua cidade-natal. “Ele não só tinha essa qualidade de pilotar um carro, mas também tinha um dom de mecânico de saber de antemão qual era o melhor carro para disputar uma temporada do ano seguinte”.

Quarto filho do casal de imigrantes italianos Loreto Fangio e Herminia D’Eramo, Juan Manuel recebeu, ainda quando criança, o apelido de ‘El Chueco’ pelo talento que tinha para chutar com a perna esquerda e marcar gols. Sim, o sonho do menino de Balcarce era ser jogador de futebol.

O dom de mecânico ao qual se refere Rinland vem da oportunidade de Fangio ter começado a trabalhar na área quando tinha apenas 11 anos. Em 1922, atuou na concessionária Rugby como mecânico. No ano seguinte, foi contratado como assistente de Raimundo Carlini, com quem aprendeu a dirigir carros e trabalhar no conserto de veículos agrícolas. Com 13 anos, começou a trabalhar em uma concessionária da Ford, sendo orientado por Guillermo Spain, chefe dos mecânicos do estabelecimento. Fangio desenvolveu cada vez mais o apreço pela mecânica e ingressou na agência Studebaker, que era do piloto Miguel Viggiano.

Com 16 anos, comprou seu primeiro carro, pago com o fruto do trabalho. O veículo? Um Overland. Mas o amor pelo futebol ainda era vivo no coração do menino de Balcarce, que também gostava e treinava boxe, outra paixão argentina. Juan Manuel chegou até a fazer parte da seleção da sua cidade-natal.

Mas com o passar dos anos, o desenvolvimento do talento como mecânico e construtor de carros, teve a chance de participar de competições. Primeiro, como navegador; depois, como piloto. As primeiras vitórias vieram no início da década de 1940 e, daí em diante, Fangio converteu-se em sinônimo de glória. Primeiro, na Argentina; depois, no Velho Mundo, a partir de 1948.

Segundo Rinland, o fato de ‘El Maestro’ ter sido campeão com quatro carros diferentes — os títulos de 1954 e 1955 foram conquistados com a mesma Flecha de Prata W196 — tem a ver com a capacidade que Fangio tinha em torná-los melhores no acerto e no desenvolvimento. “Quando correu com Mercedes, não havia melhor carro; quando correu com Maserati, não havia nada melhor que a Maserati; quando ele correu com Lancia-Ferrari, também não havia nada melhor. Ele sabia como melhorar os carros. Os pilotos tinham muito mais influência no desenvolvimento do carro do que agora”, ponderou.

Juan Manuel Fangio fez história com a Flecha de Prata da Mercedes. Dentre tantos outros carros (Foto: Mercedes)

Jornalista argentino que atua há mais de dez anos no automobilismo, Francisco Aure mal se lembra da presença de Gaston Mazzacane, último piloto do país na Fórmula 1, entre 2000 e 2001, mas fala de um dos grandes feitos de Fangio nas pistas como se estivesse vivido naquela época. Questionado pela REVISTA WARM UP sobre o momento mais marcante do pentacampeão, o argentino de 30 anos não tem dúvidas. “Sua vitória em Nürburgring em 1957, quando saiu dos boxes a 1min dos líderes, começou a andar cada vez mais rápido, cravou oito recordes consecutivos de volta e ganhou a corrida”, citou, mencionando a última vitória de Juan Manuel na F1.

Entretanto, tanto Aure quanto Marcelo Vivo, 63 anos, também jornalista, narrador e também comentarista de emissoras com os canais Fox Sports, rejeitam comparações. “Acredito que Fangio foi o melhor da sua época. Mas as comparações são impossíveis. Estamos falando de épocas diferentes”. Marcelo endossa. “Não deve haver comparações. Foram fases muito diferentes, e são pilotos de personalidades diferentes também. Eles não são comparáveis e nem devem ser”.

Um campeão da vida

Ídolos são feitos não apenas por suas conquistas, mas principalmente pelo carisma e pelo caráter demonstrado dentro e fora do esporte. Ainda mais quando se fala de Argentina, de expoentes como Carlos Gardel, Jose Luis Borges e Evita Perón. Segundo Yamila Salinas, jornalista esportiva do Canal 4 da cidade de San Juán, o pentacampeão mundial de F1 encarna bem os valores que o tornam especial. “Ele é o maior piloto que já existiu. Foi grande dentro e fora das pistas porque teve a humildade dos grandes e a grandeza dos humildes”.

Também entrevistado pela REVISTA WARM UP, Facundo Galella, que nasceu na mesma Balcarce natal de Fangio, reforçou o caráter do piloto. “Humildade é a palavra que o representa bem. É ser o melhor sem se sentir o melhor, já diria ele”.

Veterano do jornalismo, Marcelo Vivo teve a oportunidade de conhecer e entrevistar Fangio, o que aconteceu em 1991 em Buenos Aires. “Ele sempre foi muito amável e aberto ao diálogo. Como homem simples, nascido no campo, ele não tinha a frieza das pessoas que vivem nas cidades grandes”, disse o jornalista.

Já depois do encerramento da carreira, Fangio recebeu vários prêmios e homenagens, no país e fora dele. Réplicas em tamanho real e esculpidas em bronze da Flecha de Prata, o Mercedes W196, estão espalhadas pelo mundo: Monte Carlo, Monza, Barcelona, Stuttgart e em Puerto Madero, revitalizado bairro portuário de Buenos Aires. Juan Manuel Fangio também foi nomeado como presidente honorário da Mercedes-Benz na Argentina.

Sergio Rinland também fala com carinho sobre Juan Manuel e lembrou que foi ajudado pelo pentacampeão no começo da carreira. “Fangio sempre foi considerado um ser humano excelente, um embaixador real da Argentina, um embaixador real de empresas como a Mercedes-Benz. Nas décadas de 1960 e 1970, ele ajudou muitos pilotos com conselhos, não só pilotos, mas a nós também. É uma pessoa que, mesmo depois do fim da sua carreira esportiva, seguiu apoiando e ajudando sempre”.

A rural Balcarce respira Juan Manuel Fangio. A administração da cidade construiu um autódromo e o batizou com o nome do lendário piloto em 1974. 14 anos mais tarde, depois de outros cinco de construção, foi inaugurado o Museu Fangio, uma grandiosa obra de oito andares, por meio da prefeitura, que organizou uma comissão para dar sequência aos trabalhos. A maioria dos troféus conquistados pelo argentino e boa parte dos seus carros também estão lá.

Um encontro de oito títulos da F1

Marcelo Vivo teve um raro privilégio há quase 30 anos. O jornalista ficou diante de dois dos maiores pilotos da história e ainda tem na retina as lembranças daquele momento.

“Em 1991, Ayrton Senna esteve algumas horas em Buenos Aires e se encontrou com seu amigo Fangio no hotel Sheraton. Ao me apresentar como jornalista, tentei entrevistar Senna e, para minha surpresa, encontrei os dois juntos e, assim, pude fazer a reportagem”, recordou.

Sempre que voltava do GP da Austrália, Senna fazia uma escala na capital argentina e frequentemente se encontrava com o pentacampeão, lembrado com reverência por Vivo. “Tê-lo conhecido é um tesouro que guardo como o mais importante da minha carreira”.

Rinland, habitué no paddock da F1 entre os anos 1980 e 1990, viveu outro momento especial ao lado de Fangio. “Ele me convidou para almoçar em seu restaurante favorito em um fim de semana de GP. Ele era um personagem que, das poucas vezes que tive a oportunidade de sentar-me com ele, de me reunir com ele, de poder falar com ele, sempre tive esses momentos muito vivos dentro da minha memória”, contou o engenheiro.

Dos herdeiros ao Netflix: legado de Fangio segue bem vivo

Juan Manuel Fangio jamais se casou e tampouco teve filhos reconhecidos em vida. Mas a história começou a mudar a partir de 2015. Em dezembro daquele ano, Oscar ‘Cacho’ Espinoza, filho de Andrea ‘Beba’ Berruet, com quem o pentacampeão teve uma relação de longa data, foi declarado oficialmente como filho de Juan Manuel após exame de DNA, que foi feito depois que o corpo do ex-piloto foi exumado.

Quase dois meses, a justiça de Mar del Plata informou que Rubén Álvarez Vázquez, nascido em Balcarce em 1942, também tem Fangio como pai. A confirmação se deu após um exame de DNA ter apontado positivo para a paternidade do lendário piloto argentino.

A mãe de Rúben, Catalina Basili, morreu em 2012, aos 103 anos. Rubén, um operário de vida simples que vivia na região do balneário de Mar del Plata, sempre ouvia de muita gente que era fisicamente parecido com Fangio. Questionou a mãe e soube, aos 63 anos, que era filo da lenda argentina. 13 anos depois, recebeu da justiça o direito de ser herdeiro do ex-piloto. Rúben Álvarez passou a assinar Rúben Fangio.

Oscar Fangio Ruben Fangio Tatiana Calderón Frédéric Vasseur Sauber Silverstone GP da Inglaterra
Oscar e Ruben Fangio entre Tatiana Calderón e Frédéric Vasseur no fim de semana do GP da Inglaterra (Foto: Sauber)

A exumação do corpo, obtida por meio de intervenção judicial, foi realizada para que fossem efetuados os exames de DNA que confirmaram a paternidade do pentacampeão no caso de Oscar Espinoza, hoje com 80 anos, e também de Rúben, quatro anos mais novo. Espinoza, portanto, foi o primeiro filho de Juan Manuel. Os dois herdaram uma pequena fortuna, avaliada em cerca de US$ 50 milhões (R$ 268 milhões, na cotação atual).

Em 2018, os irmãos Fangio foram convidados pela Sauber — patrocinada pela Alfa Romeo, uma das equipes em que o piloto alcançou o título mundial — para acompanhar, dos boxes, o GP da Inglaterra de Fórmula 1 em Silverstone. A semelhança física de Oscar e Rúben com Juan Manuel é o que mais chamou a atenção.

Em março deste ano, a plataforma de streaming Netflix lançou ‘Fangio – O Rei das Pistas’, documentário que traz imagens inéditas e depoimentos do próprio piloto e de outros grandes nomes da Fórmula 1 como Jackie Stewart, Mika Häkkinen, Alain Prost, Fernando Alonso, Toto Wolff, Nico Rosberg e até de Ayrton Senna, um dos pilotos que o argentino mais admirava, ao lado de Jim Clark.

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