Opinião GP: Em ano de reviravoltas, Hamilton tira o melhor de si na hora certa. Errático, Vettel sabe perder

Dez anos após a conquista dramática do primeiro título mundial, em Interlagos, Lewis Hamilton se torna pentacampeão da F1, superando Alain Prost e Sebastian Vettel, e escrevendo seu nome da galeria dos grandes do esporte. Só que a disputa da taça deste ano teve vários capítulos, e a balança pendeu para os dois lados, mas o inglês soube se impor na hora certa. Já o rival Vettel cometeu muitos erros e lutou até o fim, por isso soube reconhecer o trabalho do adversário

NAQUELA TARDE CHUVOSA em São Paulo, dez anos atrás, Lewis Hamilton não tinha a menor ideia do que se transformaria na F1. Não sabia ao certo se todo o esforço feito por seu pai ao longo de sua infância seria vingado, se toda aquela pressão seria recompensada e se teria o respeito de um esporte em que nunca havia visto um negro competir, quanto mais vencer. Aí, veio o título. Dramático, com uma ultrapassagem na volta final, na última curva. E Lewis colocava ali seu nome na história. Ele poderia ter parado ali, dada a complexidade da F1. 
 
Mas havia o melhor por vir. Apenas exigiu paciência. 
 
Foram anos difíceis depois daquele título. A McLaren já não produziu um equipamento que pudesse colocá-lo nas brigas certas. 2009 foi um ano amplamente dominado pela surpreendente Brawn GP. Depois, Hamilton até se atreveu em disputas nos anos seguintes, mas esbarrou na falta de confiabilidade do carro inglês e também em um novo comando: o da Red Bull. Hamilton também teve sua capacidade questionada, devido à sua ‘mania’ de querer viver uma vida também fora da F1. Muitas vezes, é bem verdade, os problemas de fora atrapalharam sua vida profissional, mas ele seguiu. Até tomar talvez a decisão mais importante de sua carreira: a mudança da McLaren — equipe que o acolheu desde a adolescência — para a Mercedes, que retornara ao Mundial em 2010, mas que ainda não apresentava nenhum sinal de que poderia ditar o ritmo no esporte.
 
Foi um passo corajoso. Neste tempo, Hamilton já havia se desligado do comando de seu pai-empresário e buscava, no fundo, liberdade. Encontrou isso e muito mais nas garagens alemãs. A partir da segunda temporada com o #44 a bordo, a Mercedes passou a comandar o campeonato. E Lewis pode retomar seu caminho de vitórias e exibições de gala que seu talento permite. Ainda cometia seus erros, ainda refletia na pista se algo não caminhava bem fora dela, talvez seu maior ponto fraco. Mesmo assim, foi capaz de vencer campeonatos contra um bravo Nico Rosberg — que se recusou a ficar na sombra do companheiro de equipe. O alemão endureceu a disputa, uma vez que só ambos tinham equipado suficiente para isso.
Lewis Hamilton (Foto: AFP)
E Rosberg obteve a vitória em cima de Hamilton, que viveu em 2016 uma temporada bastante irregular e marcada por acidentes e problemas de confiabilidade, além de uma convivência difícil dentro dos boxes da Mercedes. Talvez Lewis precisasse passar por isso para encontrar sua força. E talvez tenha sido aí o momento em que se tornou maior. 
 
Só que não era Nico o adversário que Hamilton precisava. Ainda faltava alguém mais forte, ainda mais duro. E foi aí que entrou Sebastian Vettel. O alemão foi igualmente corajoso ao assinar com a Ferrari, deixando a equipe que o criou e com a qual conquistou seus quatro títulos mundiais. Seb queria repetir Michael Schumacher. Ou seja, a F1 tinha dois rapazes em uma missão.
 
De um lado, Hamilton buscava a revanche pelo ano anterior e queria se impor. De outro, Vettel tinha a tarefa de tirar a equipe italiana da fila. O primeiro ano de disputa entre os dois foi tenso, marcado pela estratégia, mas também pela velocidade e até por um toque polêmico. Lewis saiu vencedor porque errou menos que o rival. Aí, veio 2018.
 
Novamente, Vettel abriu a temporada vencendo e mostrando que seria um osso duro de roer. E a primeira parte do campeonato encantou pelas reviravoltas na liderança da tabela, pela alternância de vitórias e pelas táticas diferentes. Parecia que os dois travariam uma batalha a ponto a ponto até o fim. Mas aí, algo aconteceu.
 
Seb passou a cometer erros demais. Equívocos em momentos decisivos, não conseguia mais tirar vantagem de ter nas mãos um carro melhor e mais equilibrado. Sucumbia à pressão, enfim. Hamilton, por outro lado, aproveitou todas as oportunidades que surgiram e, quando teve o melhor carro nas mãos, venceu. Essa poderia ser a história desse campeonato. Mas há mais.
Sebastian Vettel e Lewis Hamilton (Foto: Reprodução)
Houve dois rapazes com coração aí. Mesmo no auge e sem sofrer qualquer cobrança – depois de crescer no momento certo da temporada e se colocar sem um único erro em toda a jornada até o título -, Lewis usou bem a empatia e pediu respeito ao rival. Reconheceu que enfrentou menos problemas que o adversário e que deseja ainda disputar muitos títulos contra ele. Foi grande ao dizer que Seb é um dos maiores oponentes que já teve. No fim da corrida no México, abraçou Vettel e reconheceu sua grandeza também.
 
O ferrarista, embora desolado, ergueu a cabeça. Cumprimentou o vencedor e toda a sua equipe. Depois, como qualquer ser humano, disse que a derrota doía demais, claro. Apesar dos números desfavoráveis, lutou até o fim. Foi igualmente grande ao reconhecer a pilotagem “soberba” do rival.
 
Embora Vettel não tenha sido o concorrente à altura no fim, a grandeza dele é imensa. E só torna o quinto título de Hamilton ainda mais importante. Afinal, todo grande campeão — e isso a história da F1 mostra bem, como as rivalidades entre Senna e Prost, Schumacher e Alonso e Fangio e Moss — precisa também de um grande adversário. 
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O Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 acontece este ano nos dias 9, 10 e 11 de novembro, no autódromo de Interlagos. Os ingressos para a corrida estão disponíveis no único site oficial do evento: www.gpbrasil.com.br

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