Opinião GP: Imponderável engana, e F1 frustra por deixar claro que vive briga só entre Ferrari e Mercedes

A primeira parte da temporada 2018 da F1 acaba com a Mercedes à frente e com uma boa vantagem. O cenário, porém, não é condizente com o que foi visto nas seis primeiras corridas, que deixaram a entender um certo equilíbrio entre as três primeiras equipes, mas o imponderável, que marcou o início do campeonato, enganou a todos

A F1 VIVE UM campeonato de duas equipes e dois pilotos. E é isso. Há uma distância grande para a terceira colocada e um abismo para o restante do grid. Mas este cenário só começou mesmo a ser desenhado da metade para frente desta primeira parte da temporada, que se encerrou com o GP da Hungria do último domingo. O caso é que as primeiras etapas da temporada 2018 foram marcadas por um elemento que não se vê, mas que está sempre à espreita: o imponderável. Falhas em momentos decisivos, acidentes, safety-car, sorte a azar. Tudo isso aí ajudou a mascarar uma disputa que, agora sabe-se muito bem, se resume a Mercedes e a Ferrari. Para o bem e para o mal. 
 
As duas principais esquadras do Mundial protagonizam, e isso é bem verdade, um duelo eletrizante e tenso. É um grande jogo de tabuleiro mesmo, as jogadas são calculadas e o risco tempera as decisões. Ambas contam com dois pilotos excepcionais e com carros que quase se equivalem – há aí uma ligeira vantagem técnica para os italianos. No caso dos alemães, Lewis Hamilton é quem vem fazendo a balança pender a favor. E tanto é assim que a liderança da tabela de classificação já mudou de mãos entre eles, e somente entre eles, cinco vezes até aqui.
 
Ou seja, não há do que reclamar deste ponto de vista. Afinal, a F1 testemunha a cada corrida uma batalha entre dois tetracampeões – algo inédito em quase 70 anos de história. Há de se aplaudir. E em tempos de velozes redes sociais e vida online, cada aspecto da disputa é visto como em um microscópio, cada acerto é reconhecido e cada erro toma proporções absurdas. É como Hamilton descreveu bem: “É uma pressão de ambos os lados e cabe a nós saber lidar com elas”.
O pódio do GP da Hungria (Foto: LAT/F1)
Até aí, ok. Não é nada mais do que se espera de uma categoria que está no topo do esporte mundial. Rendimento de alto nível e nervos de aço são exigências básicas neste negócio. Só que, apesar da beleza da disputa entre o inglês e Sebastian Vettel, o fim da primeira parte do campeonato deixa um gosto agridoce na boca, como gosta de dizer Fernando Alonso. A F1 começou 2018 com duas vitórias interessantíssimas de Vettel e da Ferrari, que usou a estratégia e a consistência para dar o bote na Mercedes. A Red Bull venceu logo a terceira corrida, enquanto os prateados levaram quatro etapas para subir ao degrau mais alto do pódio, em meio a problemas e confusões relacionadas às táticas. O imponderável vinha fazendo sua parte, na verdade, e pouca gente se deu conta.
 
Em um dado momento, havia uma certeza de que os austríacos entrariam na briga, sim. A vitória de Daniel Ricciardo em Mônaco foi categórica – o australiano já tinha levado na China, enquanto Max Verstappen levou o GP da Áustria. Depois, Vettel ainda venceu em palcos costuma Hamilton mandar – caso de Montreal e Silverstone, por exemplo – , enquanto o britânico se via em apuros no Red Bull Ring.
 
Na tabela, a distância entre eles era quase sempre mínima, com uma Red Bull sempre por perto. Mas aí a Ferrari introduziu um novo motor, enquanto a Mercedes trouxe um pacote aerodinâmico afinado. Nem o acaso deu jeito. E as derrotas de ambos os lados foram por culpa de erros próprios, e isso incluiu problemas técnicos. Os taurinos ficaram, e o campeonato tomou uma forma mais realista, que agora acabou confirmada por essa corrida da Hungria, em que a tensão das jogadas nos boxes superou a ação de pista. 
 
A frustração cresce um pouco mais quando se percebe que a diferença técnica entre as duas primeiras já é bem grande para a terceira colocada e um abismo para o restante do grid. A Renault, agora líder da F1 ‘B’, não tem qualquer chance de avançar dentro dos protocolos atuais. Nem intempéries alteram esse roteiro.

Ou seja, a F1 vive mesmo um duelo somente entre Mercedes e Ferrari, e isso está muito errado.


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