Opinião GP: Reta final só vale por Interlagos, Mercedes x Ferrari e drama de Pérez

Enfim, a Fórmula 1 entra na reta final da temporada 2023, depois de mais uma vitória avassaladora de Max Verstappen no acidentado GP da Cidade do México. E apesar do resultado natural e de se esperar novos triunfos do holandês no que resta do ano, a fase derradeira ainda reserva, sim, alguns elementos interessantes, como a disputa do vice, o perrengue vivido por Sergio Pérez e o fim de semana do GP de São Paulo, em uma Interlagos que sempre oferece o melhor

O acidentado GP da Cidade do México acompanhou mais uma apresentação avassaladora de Max Verstappen. O terceiro lugar no grid não fez nem cócegas, porque o danado do holandês saltou bem e usou todo o espaço que os carros da Ferrari deixaram para contornar a primeira curva do Hermanos Rodríguez na frente. E apesar do drama de Sergio Pérez e até de uma bandeira vermelha na metade da corrida, Verstappen jamais deixou seu posto de favorito. Portanto, mais um triunfo no bolso, novo recorde e um número que agora o coloca ao lado do ‘professor’ Alain Prost. Quer dizer, nada de muito novo, e isso ainda deve se repetir até o fim da temporada. Mas aí alguém pode perguntar: tem algo que ainda sustente essa reta final de 2023? E a resposta é sim, surpreendentemente.

Antes de falar sobre os fatores que ainda valem na F1, é importante dizer que nada disso tira o brilho de um campeonato impecável que Verstappen faz. Como já citado outras vezes neste espaço, o dono do carro #1 faz jus ao número que carrega e aos números que soma a cada fim de semana de excelência. Dito isso, é atrás de Max que há, de fato, uma briga real e das mais interessantes, ainda que seja pelo vice-campeonato. Mercedes x Ferrari é o melhor que se tem nessa fase derradeira. As duas gigantes do grid, que foram engolidas pela Red Bull, estão separadas por apenas 22 pontos, restando três etapas e uma sprint. É curioso notar, ainda, que ambas marcaram o mesmo número de pontos no México: 27 cada. Por aí, já se percebe que a batalha está muito aberta e imprevisível.

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A prova mexicana apresentou faces diferentes das duas concorrentes. A Ferrari surpreendeu ao assegurar a primeira fila na classificação, enquanto a Mercedes se enrolou completamente, ao ficar longe das posições da ponta. Mas a corrida contou uma história diferente. Os dois carros vermelhos foram facilmente superados por Verstappen praticamente no apagar das luzes — e isso comprometeu decisivamente as chances de Maranello, não só pela derrota na largada, mas pelo toque de Pérez em Charles Leclerc, que danificou a asa da SF-23. A escuderia vermelha ainda tentou se lançar em uma estratégia agressiva para pegar a rival e minimizar o prejuízo, mas não deu certo.

Inicialmente, o ritmo de Leclerc e Carlos Sainz pareceu muito forte com os pneus médios, o que colocou uma pulguinha atrás da orelha dos oponentes. De fato, os ferraristas tinha algo nas mãos na tática de uma única parada.

Sergio Pérez bateu em Charles Leclerc na aproximação da curva 1 (Foto: AFP)

Mas um dos problemas foi realmente a bandeira vermelha, que jogou por terra os planos da Ferrari. Também é verdade que Leclerc e Sainz perderam ritmo na parte complementar da prova, o que deixou um gosto agridoce, depois da primeira fila. Ainda assim, foi o resultado sólido da briga com a Mercedes. 

“Não estamos satisfeitos, não é um bom resultado se olharmos para o grid. Diria, porém, que o fim de semana não foi tão ruim do ponto de vista do ritmo de classificação e o desempenho no primeiro trecho também foi bom, apesar de ter danos na asa dianteira do carro de Leclerc. Conseguimos ficar perto de Verstappen. Mas depois tivemos dificuldades na relargada com os pneus duros. Nossa corrida piorou muito na segunda parte, pelo menos em comparação com outras. Terceiro e quarto lugares não são dramáticos, mas temos de fazer melhor”, reconheceu Frédéric Vasseur após o GP mexicano.

Esse entendimento tem ligação direta com o que fez a Mercedes, especialmente Lewis Hamilton. Partindo do sexto posto do grid, o heptacampeão foi mais cuidadoso nos primeiros metros, mas rapidamente iniciou um stint poderoso. Com os pneus médios, o inglês passou a andar praticamente no desempenho de Verstappen. Aos poucos, se aproximou da Ferrari e acabou superando ambas na combinação de estratégia e bandeira vermelha. Apesar da espantosa queda do ritmo na segunda parte da corrida, quando optou de novo pelos médios, Hamilton se colocou em segundo e por lá ficou até a bandeirada, sem antes cravar a melhor volta da prova. Mas se Lewis brilhou em uma performance consistente, George Russell enfrentou mais problemas e, por pouco, não perdeu o sexto lugar. É algo que preocupa a equipe alemã, apesar do resultado do carro #44.

“O sorriso em nossos rostos é porque o carro foi forte. Quando estávamos de cara para o vento, havia tanta vantagem com o pneu médio que ele conseguiu fazer a volta mais rápida na última volta. Foi a primeira vez que ele [Lewis] disse que o carro era bom de guiar”, afirmou Toto Wolff, o chefão da Mercedes.

Portanto, diante dos pontos fortes e fracos de cada uma, a batalha entre Mercedes e Ferrari vai mesmo se estender até Abu Dhabi. Neste momento, a Mercedes parece ter ligeira vantagem, por conta do ritmo de corrida, que melhorou consideravelmente após a introdução do novo assoalho nos EUA. O problema é que Russell não consegue render como o companheiro de equipe e é aqui que mora a esperança dos italianos, que têm no desempenho em classificação sua maior arma.

Lewis Hamilton e Max Verstappen brilharam no México (Foto: AFP)

Cabe aqui a ressalva: claro que ninguém quer ter a disputa pelo vice como a maior atração de um campeonato, mas esse é o legado não só de uma temporada dominada por uma única equipe, mas principalmente pelo incompetência das demais neste caso. Ainda assim, a disputa é a última cartada da F1 2023.

Há, ainda, um outro elemento que vale acompanhar: o vice-campeonato entre os Pilotos. E aqui envolve um nome que está no olho do furacão. Além da pressão por entregar performance condizente ao carro que guia, Pérez ainda está na briga contra Hamilton pelo segundo lugar no Mundial. A diferença entre os dois é de 20 pontos, e isso é muito responsabilidade do mexicano, que deixou prematuramente seu GP caseiro após um toque com Leclerc logo depois da largada.

O abandono foi um duro golpe, que agrava um pouco mais a crise vivida pelo mexicano em 2023. Isso porque Sergio se lançou em uma largada fabulosa diante de uma torcida entusiasmada, mas o erro de cálculo que o jogou para fora da pista expôs também o peso da pressão a que está submetido. Pérez pareceu chorar depois de deixar a corrida. Foi como se finalmente pudesse externar, sem filtros, aquilo que está passando. Aliás, a entrevista após o incidente também revelou mais sobre o estado de espírito do piloto diante de um autódromo lotado e do desejo de dar a volta por cima.

“Acho que simplesmente não havia espaço para três carros. Foi um incidente total de corrida. Olhando para trás, eu não sei, não deveria dizer isso, mas olhando para trás, deveria ter recuado”, contou à Sky Sports.

“Por outro lado, estou extremamente orgulhoso de mim mesmo, porque dei tudo de mim. Estou muito orgulhoso da minha equipe. Acredito que foi a melhor largada do ano. Estou triste com o resultado final, mas sei que esses coisas podem acontecer e vou voltar forte em São Paulo”, completou.

A Red Bull demonstrou apoio e garantiu que o mexicano segue em 2024, mas há um ar de incerteza pelo paddock. Mas uma coisa é certa: essa reta final terá um peso grande para as decisões de futuro dos taurinos.

Sergio Pérez forçou ultrapassagem por fora em Charles Leclerc e causou um acidente na largada (Vídeo: F1)

Porque o que agrava a situação de Pérez é o fato de que as más performances, os erros e a abissal diferença para Verstappen seguem a cada fim de semana. Não há uma regularidade. E apesar das promessas de melhora e de estudo no simulador, pouca coisa muda. E a diferença para Hamilton segue caindo.

De toda a forma, Sergio terá mais uma chance já neste fim de semana, quando a Fórmula 1 desembarca em São Paulo para a corrida em Interlagos. Como sempre, a Red Bull é favorita, pela histórica temporada que faz, mas o traçado paulistano não tem o costume de obedecer aos padrões, e isso pode ser um fator a favor do mexicano.

Por outro lado, Interlagos é um lugar dos mais especiais para Mercedes e, especialmente, para Hamilton. O circuito em si tende a aceitar melhor as necessidades do W14, sem contar que a única vitória dos alemães em 2022 foi justamente no Brasil. E tem mais: a fase de Lewis deve pesar mais para o desempenho, e isso é um problema que Pérez terá de lidar.

Por fim, a corrida em Interlagos por si só já vale o ingresso. Circuito de verdade, tecnicamente intrigante. A história fala por si também. É a última chance de a Fórmula 1 ter uma prova realmente disputada e decente em 2023.

Fórmula 1 retorna já no próximo fim de semana, entre os dias 3 e 5 de novembro, com o GP de São Paulo, em Interlagos. O GRANDE PRÊMIO cobre ‘in loco’ e com equipe cheia.

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