Problema da Red Bull não está no motor: RB16 é mais complexo do que aparenta

Com a Ferrari fora de combate, coube a Red Bull o posto de adversária principal da Mercedes. Mas o time austríaco não parece páreo para os alemães e encontra dificuldades até em pistas em que costumava vencer. Acontece que o RB16, embora agressivo, é muito mais complicado do que a equipe imaginava

O indisfarçável desagrado de Max Verstappen na temporada 2020 pode até ter como alvo o desempenho do motor Honda, que não acompanha a força da Mercedes e ainda enfrenta falhas de confiabilidade, mas a verdade é que o RB16 também não está entre as melhores concepções idealizadas pela Red Bull na Fórmula 1 – ao menos nos últimos anos. A esquadra austríaca, que tem em suas garagens o gênio Adrian Newey, apresentou um projeto tão inovador quanto complexo. E parece que aí está o problema. Mais de uma vez neste ano, o chefe Christian Horner definiu o carro como difícil e chegou a falar em anomalias, sempre acrescentando que só o holandês consegue entender e tirar o melhor da máquina. O dirigente não está errado, e os resultados da dupla de pilotos falam por si. Acontece que a equipe dos energéticos é a segunda força do grid, mas não parece capaz de oferecer a resistência que alardeava, e isso se deve aos rumos tomados no desenvolvido deste modelo.

Ainda na pré-temporada, que parece ter sido realizada em outra vida, dado o impacto da pandemia, a Red Bull colocou na pista de Barcelona um carro veloz e de linhas aerodinâmicas mais agressivas. A princípio, o time não se preocupou com tempos de volta e preferiu testar os limites do carro. Após os dias de atividades e dada a performance final, a expectativa era de que os taurinos viriam fortes, possivelmente capazes de bater de frente com os hexacampeões. Muita coisa aconteceu desde então, mas quando a disputa finalmente teve início, em julho último, a realidade dos energéticos se mostrou intrigante.

Uma coisa é apostar e tentar a sorte para ter a recompensa. Com a Red Bull, isso nunca foi possível em 2020.

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Logo na primeira corrida, na Áustria, onde a equipe venceu no ano passado e deslanchou naquela primeira parte de campeonato, ficou claro que havia algo de errado. O RB16 se apresentou nervoso e exigiu muito dos dois pilotos. Como dito, a Red Bull quis ousar com esse projeto, optou por um rake (a diferença de altura entre a parte dianteira e traseira) ainda mais elevado, a fim de melhorar a eficiência em termos de downforce. E este é um quesito em que os austríacos sempre investiram e que os coloca em uma posição muito diferente do restante do grid. A ideia toda era proporcionar maior equilíbrio. O bico também chamava a atenção, por exibir um conceito muito distinto do de 2019 – era de se esperar que as equipes utilizassem mais as soluções encontradas na temporada passada, por conta da estabilidade do regulamento técnico, só que os taurinos resolveram ir mais fundo, numa tentativa de se aproximar da marca da estrela.

Houve uma extrema redução no setor frontal do carro, com a adoção de uma ‘capa’ ou ‘asa manta’ muito estendida, uma cópia absolutamente fiel da concepção apresentada pela Mercedes nos últimos dois anos. Outro destaque foi a suspensão dianteira do RB16, que possui um triângulo superior diferente do carro do ano passado. O assoalho ganhou uma divisão em dois para também promover maior equilíbrio. Todos esses elementos tornaram o carro rápido, mas demasiadamente complexo. A promessa de um desempenho mais competitivo em classificação ainda não se confirmou, muito embora em corrida a história seja diferente em alguns circuitos.

Por exemplo, em Silvestone, ficou muito nítido que a máquina taurina sabe tratar bem os pneus, especialmente os compostos mais macios da Pirelli. O carro também não sofre com variações de temperatura, como ocorre com o W11 da Mercedes.

O RB16 é um carro de conceitos complexos e que nem a Red Bull compreende (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

A equipe austríaca tentou atualizações na asa dianteira e no assoalho ao longo dessa primeira parte de temporada. Recursos que foram quase sempre testados antes por Verstappen, mas o problema é que o carro está pregando peças na Red Bull. Outro exemplo: o modelo não correspondeu em pistas que tradicionalmente os energéticos vão muito bem. Neste ano, foi surpreendente ver a perda de rendimento em Hungaroring, na comparação com anos anteriores, ainda que Max tenha tido uma enorme recuperação, para conquistar o pódio. Isso pode-se dizer das provas no Red Bull Ring. E o contrário aconteceu também: o carro mostrou velocidade nas rodadas da Inglaterra e na ardilosa pista de Mugello, na Itália.

“Nós temos algumas anomalias com um carro que não se comporta como esperávamos”, admitiu Horner, ainda em Budapeste. “Acho que algo na aerodinâmica não está se comportando bem. Há uma diferença significativa, mas tudo depende de quanta performance conseguimos encontrar no RB16”, completou o britânico.

Só que o desempenho continua inconsistente. Ainda, é desconcertante perceber que, além dos problemas com o projeto do carro em si, a Red Bull agora enfrenta também questões ligadas à confiabilidade. A desastrosa passagem pela Itália fez Verstappen despencar da vice-liderança do campeonato. Então, a Honda, responsável pelos abandonos de Max, precisa apurar o desenvolvimento. A verdade é que os taurinos têm um problemão nas mãos. Como se não bastasse a temporada atípica, existe o fato de que o regulamento vai seguir o mesmo para 2021, e isso quer dizer que a esquadra tem um espaço menor para manobra, muito embora o RB16 não pareça um caso totalmente perdido.

F1; FÓRMULA 1; MAX VERSTAPPEN; GP DA TOSCANA; MUGELLO;
Max Verstappen parou na caixa de briga e abandonou em Mugello (Foto: F1/Twitter)

“Nós vemos os fundamentos de um carro decente, mas que não se comporta de acordo com o que nossas ferramentas de simulação apontam. É necessário entender isso e garantir que vamos alcançar nosso nível, algo que ainda não fizemos”, acrescentou o chefão dos energéticos.

E talvez nem façam. Mas, neste momento, é imperativo que a esquadra entenda as anomalias ou corre o risco de perder também sua maior joia. Às vezes, menos é mais.

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